sexta-feira, 5 de janeiro de 2007

quadriculado

recomeçava a contar com os dedos muito encostados ao papel os números de somas e contas a dividir a vida às voltas como os olhos - ou parece-me que esta frase perde um pouco o sentido ou não estivesse eu apenas a começar uma história que não tem nunca fim, tu já leste textos meus, já sabes como é - os dedos muito encostados ao papel as contas ou o ponto final desta frase, você está aqui.

os olhos deitavam pequenas lágrimas pelas faces abaixo, tinha-lhe dito o pai que queria ser motorista da carris mas aquele acidente a jogar a bola, o melhor jogador do distrito em 1983, toda a gente a correr com ele às costas pelo meio da estrada da aldeia e uma semana depois num simples jogo de solteiros e casados, fractura de quatro dedos da mão e de alguns dos ossos do pulso, a mão esquerda deitada fora porque alguém o empurrou, sem forças, agora.

recomeçava a contar com mistura de lágrimas e uma bola a saltar à entrada da grande área - a mão não lhe servia para conduzir mas marcam-se golos com os pés - e em 1985 chegou a ser convidado para ir treinar a uma equipa da segunda divisão, foi nesse dia que conheceu a minha mãe que andava por ali à porta do campo à espera do irmão para voltar para casa, não havia autocarros porque era de noite, ele agradeceu o acidente e, não ficando contratado para jogar, o guarda do campo não precisa de um pulso ágil.

os olhos deitavam pequenas lágrimas e contas de somar e dividir, quantas vezes quantas é preciso dizer que as coisas seguem o seu caminho ilógico, apesar de todos os filósofos dos x y z conclusões um tanto desnecessárias se os olhos deitam pequenas lágrimas - e tu que já leste os meus textos sabes que as coisas são assim mesmo - mas fazia pouco sentido que alguém entrasse pela porta e o visse naquele estado, a chorar como uma criancinha pequena, em que ano estamos nós, era capaz de perguntar, melhor ficar tudo no silêncio, tudo no ponto, como ele costumava dizer, tudo no ponto final, aqui, você está aqui.

3 comentários:

  1. Olá, Luís.
    Parabéns pela "Sítio", que li detalhadamente com o tempo e prazer que merece. Queria-te enviar um mail, também para actualizar novidades, mas tenho a revista (e nela o teu mail) em casa, onde não estou agora. Podes deixar-me aqui o teu mail? (talvez não seja boa ideia, por ser demasiado público, será?)
    De qualquer forma, espero que tudo corra bem por Torres Novas. As actividades culturais crescem, interessantíssimas, como vou sabendo pelos teus blogues, de que fiquei cliente assíduo.
    Um grande abraço e um óptimo 2007,
    Pedro Barata

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  2. Torres VEDRAS, era o que eu queria ter escrito, obviamente.
    Abraço

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