terça-feira, 30 de janeiro de 2007

noite escura

e agora? a lua subiu mas ainda não a vês, está tudo escuro à tua volta e o que ouves, não nos ouvidos, dentro da tua cabeça, é o barulho de alguns tipos que insistem em combater as insónias com jogos de cartas e alguns goles de aguardente de cana purinha, vinda da Madeira no saco do Freitas, aquele que pensou que vir para África era a mesma coisa que ir ver as gajas a ao porto na chegada dos barcos do Continente.

e agora? todos os graduados foram para o centro da cidade, uns às putas, outros ao cinema, que é como quem diz, foram dar uma chapadas nas carecas dos pretos que se atrevem a levantar-se da cadeira quando o americano agarrava finalmente a miúda pela cintura e lhe espeta um daqueles linguados que nos dão tesão ao ponto de no fim do cinema dar vontade de atirar umas balas para o ar, coisas de homens, pois então.

e agora? pareceu-te ver uma luz ténue lá do meio do arvoredo onde te disseram que os gajos andam mas tu não sabes bem se te escondes ou se te cagas pelas pernas abaixo, desde sempre tiveste a mania de ver coisas onde elas não estavam e interromper as cartas e a aguardente dos que estão lá dentro ainda te valiam um valente arraial de cabeça durante a semana inteira, só porque o menino tem medo, coitadinho.

e agora? a luz está lá, sim, claro que está, e tens a certeza que o primeiro gajo em quem eles vão acertar és tu, e portanto nem cá vais ficar para que te apontem o dedo ou se ficares ninguém vai ter a estúpida ideia de que ficaste a vê-los chegar, a apontar a metralhadora para ti e a atirar granadas para junto dos muros do quartel, sem dizer nada, sem avisar ninguém, só a puxar o fumo do cigarro que te estava a saber tão bem.

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