quarta-feira, 24 de janeiro de 2007

cronologia

A 14 de Setembro de 1948 nascia na aldeia de Serra da Vila, concelho de Torres Vedras, o menino José Alberto Caetano. Tinha 3,100 kg e era filho de Manuel Caetano e Orlandina de Jesus Caetano. Sendo a primeira criança da família - o primeiro filho, o primeiro neto - pais e avós abriram as portas da adega a toda a aldeia dando vinho e porco assado aos amigos. Era um dia feliz para toda a gente, um sinal de esperança depois de terminada mais uma Grande Guerra e de vários dos homens da aldeia terem começado a trabalhar nas crescentes industrias da cidade.

A 26 de Junho de 1969, José Alberto Caetano embarca para a Guiné. Era um dos rapazes mais bonitos da aldeia. Tinha completado o 5º ano do liceu e trabalhava como serralheiro nas Oficinas. A sua namorada, Joana Luísa Albuquerque, com 17 anos, aprendia lavores na casa de Dona Esmeralda, filha de grandes proprietários, conhecida por ajudar a criar uma geração de valorosas mulheres portuguesas, mães de família de raça. Ao desembarcar na Guiné, José Alberto estranha os cheiros intensos da terra, o ar pestilento de pequenas fogueiras junto ao cais, os olhares suplicantes das pessoas que passam. Pela primeira vez na vida sente-se um verdadeiro homem.

No segundo dia do ano de 1952, na Praça do Império, Maria Luísa Albuquerque, filha de Aníbal do Rosário e Etelvina Santos do Rosário, casada há pouco mais de um ano com Ernesto Albuquerque, funcionário da Fazenda, cai desmaiada à passagem do carro dos Bombeiros. O intenso frio misturado com a tonitruante sirene fizeram com que Maria Luísa tivesse uma quebra de tensão. Chamado um médico enquanto retomava os sentidos numa mesa do Café Havaneza, a jovem é de imediato levada para o Hospital com todos os cuidados onde, com apenas sete meses de gestação, nasce Joana Luísa.

A 24 de Fevereiro de 1967, no baile de Carnaval do Grémio Artístico e Comercial, José Alberto Caetano, vestido de árabe, convida Joana Luísa Albuquerque para dançar. A jovem, que já há quase uma hora admirava o jeito esguio do mascarado, levanta-se com o consentimento da mãe e avança para a pista onde dezenas de casais sussurram palavrinhas secretas aos ouvidos uns dos outros. José Alberto, perto do final da dança, pergunta a Joana Luísa se a pode esperar à porta de casa de Dona Esmeralda no final da semana e acompanhá-la até casa. Joana Luísa sorri, feliz com a ideia, mesmo sabendo que é a mãe quem sempre a vai buscar no final do horário das aulas.

Hoje é o quinto dia do mês de Maio de 1971. Funeral de José Alberto Caetano, com direito a honras militares, no Cemitério de São João. Joana Luísa não percebe porque é que até à última semana, continuou a receber cartas esperançosas e cheias de sinais de regresso da parte de José Alberto. A mãe já há algum tempo que lhe prepara umas roupas escuras, depois do pai ter chegado uma noite a casa, depois da saída para o café, com os olhos muito abertos a dizer que tinha ouvido do Fernandes que as coisas na Guiné estavam cada vez mais complicadas para o Exército Português. Joana Luísa não percebe porque não a deixam abrir o caixão, ver José Alberto uma última vez. Joana Luísa não percebe, mas José Alberto Caetano, nascido a 14 de Setembro de 1948, morreu.

1 comentário:

  1. um amor português, perfeito, interrompido pela guerra.É a história do amor em Portugal dos anos 60.Gostei, para não variar...

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