terça-feira, 30 de janeiro de 2007

noite escura

e agora? a lua subiu mas ainda não a vês, está tudo escuro à tua volta e o que ouves, não nos ouvidos, dentro da tua cabeça, é o barulho de alguns tipos que insistem em combater as insónias com jogos de cartas e alguns goles de aguardente de cana purinha, vinda da Madeira no saco do Freitas, aquele que pensou que vir para África era a mesma coisa que ir ver as gajas a ao porto na chegada dos barcos do Continente.

e agora? todos os graduados foram para o centro da cidade, uns às putas, outros ao cinema, que é como quem diz, foram dar uma chapadas nas carecas dos pretos que se atrevem a levantar-se da cadeira quando o americano agarrava finalmente a miúda pela cintura e lhe espeta um daqueles linguados que nos dão tesão ao ponto de no fim do cinema dar vontade de atirar umas balas para o ar, coisas de homens, pois então.

e agora? pareceu-te ver uma luz ténue lá do meio do arvoredo onde te disseram que os gajos andam mas tu não sabes bem se te escondes ou se te cagas pelas pernas abaixo, desde sempre tiveste a mania de ver coisas onde elas não estavam e interromper as cartas e a aguardente dos que estão lá dentro ainda te valiam um valente arraial de cabeça durante a semana inteira, só porque o menino tem medo, coitadinho.

e agora? a luz está lá, sim, claro que está, e tens a certeza que o primeiro gajo em quem eles vão acertar és tu, e portanto nem cá vais ficar para que te apontem o dedo ou se ficares ninguém vai ter a estúpida ideia de que ficaste a vê-los chegar, a apontar a metralhadora para ti e a atirar granadas para junto dos muros do quartel, sem dizer nada, sem avisar ninguém, só a puxar o fumo do cigarro que te estava a saber tão bem.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2007

Brandos Costumes II

Visitas ao meu país (Salazar, 1936)

Brandos Costumes I

Visitas ao meu país (cerco aos TLP, 1974)

sábado, 27 de janeiro de 2007

almoço da Escola Comercial 1971

vi no jornal. vai fazer o quê, vinte anos talvez, desde a última vez que os vi. não aguentei. era demasiada gente aos gritos, demasiado vinho entornado pelas mesas, demasiados ecos na minha cabeça. cheguei a casa às duas ou três da manhã, a Idalina a chorar agarrada a mim, nunca tinha chegado tão tarde, nunca tinha ficado assim sem avisar, nunca tinha chegado a casa com os olhos tão abertos e mortiços.

no jornal. vinte anos, sim, de certeza. nos anos seguintes ainda recebi algumas cartas, almoço organizado pelo Fernando Carvalho, almoço organizado pelo Zé e pelo Miguel da Freiria, almoço organizado pelos rapazes da Lourinhã. ano após ano fiz-me esquecido, marquei passeios com a Idalina a ver a neve da Serra da Estrela, fomos a Setúbal ver o Benfica, ficamos em casa porque chovia muito e dava algum filme na televisão. depois, esqueci-me de todo e acabou-se.

vi, foi hoje que vi. faz exactamente quinze meses que a Idalina morreu. visito-a todas as semanas no Alto de São João, é como se fosse um emprego, obriga-me a sair de casa com hora marcada. depois ando aí pelas ruas, pelos cafés. acho que já me tinha esquecido da minha terra, da minha escola, desta gente toda. vi no jornal o anúncio e tinha que vir. apesar dos gritos, do vinho, dos ecos. apesar de ser sempre mágoa o que ficou marcado desse tempo. vi no jornal. estou aqui.

sexta-feira, 26 de janeiro de 2007

interrupção involuntária

estavamos à porta da escola quando me disseram que ela estava grávida e eu não acreditei porque ainda há pouco tempo a tinha visto com um vestido de verão bem curto que demonstrava as aparentemente intactas formas da sua beleza.

estavamos à porta da escola e a história era diferente, um pouco mais trágica, aliás. ela tinha estado grávida mas não viria a ser mãe, tinham arranjado dinheiro, ela e o namorado, e procurado uma senhora que a podia ajudar com o incómodo.

ela era a rapariga mais bonita da escola, uns olhos verdes que pareciam brilhar no escuro dos dias em que entravamos às oito da manhã e ainda era de noite, os cabelos louros escorridos, a boca desenhada, o corpo sonhado das mulheres que, para além dela, só podíamos ver nas revistas.

ela era a rapariga mais bonita da escola e uma noite disse à mãe que ia tomar café, o namorado levou-a a casa desse senhora, pagou em notas angariadas junto de um tio compreensivo, e a senhora ajudou-os a desfazer o equívoco que seria uma gravidez adolescente.

vi-a uns anos mais tarde. mantinha a mesma face angelical mas em tom bem infeliz. a confiança dos seus anteriores passos estava agora hesitante em frases que parecia apenas gaguejar. era a rapariga mais bonita da cidade e não tinha namorado, dizia ela que já não sabia amar.

vi-a uns anos mais tarde. depois do café com o namorado, ele levou-a ao hospital. que era normal, dizia a senhora, as dores o sangue. ela sentiu que a olhavam de lado, telefonaram à mãe que logo percebeu. disseram-lhe que nunca mais teria filhos.

era a rapariga mais bonita da cidade, andava como se chorasse e gaguejava triste a ajuda que tinha recebido. sorria só quando um antigo colega de escola a encontrava. sorria porque aqueles olhos a tinham visto como a rapariga mais bonita da escola. agora, dizia ela, já não sabia amar.

quarta-feira, 24 de janeiro de 2007

cronologia

A 14 de Setembro de 1948 nascia na aldeia de Serra da Vila, concelho de Torres Vedras, o menino José Alberto Caetano. Tinha 3,100 kg e era filho de Manuel Caetano e Orlandina de Jesus Caetano. Sendo a primeira criança da família - o primeiro filho, o primeiro neto - pais e avós abriram as portas da adega a toda a aldeia dando vinho e porco assado aos amigos. Era um dia feliz para toda a gente, um sinal de esperança depois de terminada mais uma Grande Guerra e de vários dos homens da aldeia terem começado a trabalhar nas crescentes industrias da cidade.

A 26 de Junho de 1969, José Alberto Caetano embarca para a Guiné. Era um dos rapazes mais bonitos da aldeia. Tinha completado o 5º ano do liceu e trabalhava como serralheiro nas Oficinas. A sua namorada, Joana Luísa Albuquerque, com 17 anos, aprendia lavores na casa de Dona Esmeralda, filha de grandes proprietários, conhecida por ajudar a criar uma geração de valorosas mulheres portuguesas, mães de família de raça. Ao desembarcar na Guiné, José Alberto estranha os cheiros intensos da terra, o ar pestilento de pequenas fogueiras junto ao cais, os olhares suplicantes das pessoas que passam. Pela primeira vez na vida sente-se um verdadeiro homem.

No segundo dia do ano de 1952, na Praça do Império, Maria Luísa Albuquerque, filha de Aníbal do Rosário e Etelvina Santos do Rosário, casada há pouco mais de um ano com Ernesto Albuquerque, funcionário da Fazenda, cai desmaiada à passagem do carro dos Bombeiros. O intenso frio misturado com a tonitruante sirene fizeram com que Maria Luísa tivesse uma quebra de tensão. Chamado um médico enquanto retomava os sentidos numa mesa do Café Havaneza, a jovem é de imediato levada para o Hospital com todos os cuidados onde, com apenas sete meses de gestação, nasce Joana Luísa.

A 24 de Fevereiro de 1967, no baile de Carnaval do Grémio Artístico e Comercial, José Alberto Caetano, vestido de árabe, convida Joana Luísa Albuquerque para dançar. A jovem, que já há quase uma hora admirava o jeito esguio do mascarado, levanta-se com o consentimento da mãe e avança para a pista onde dezenas de casais sussurram palavrinhas secretas aos ouvidos uns dos outros. José Alberto, perto do final da dança, pergunta a Joana Luísa se a pode esperar à porta de casa de Dona Esmeralda no final da semana e acompanhá-la até casa. Joana Luísa sorri, feliz com a ideia, mesmo sabendo que é a mãe quem sempre a vai buscar no final do horário das aulas.

Hoje é o quinto dia do mês de Maio de 1971. Funeral de José Alberto Caetano, com direito a honras militares, no Cemitério de São João. Joana Luísa não percebe porque é que até à última semana, continuou a receber cartas esperançosas e cheias de sinais de regresso da parte de José Alberto. A mãe já há algum tempo que lhe prepara umas roupas escuras, depois do pai ter chegado uma noite a casa, depois da saída para o café, com os olhos muito abertos a dizer que tinha ouvido do Fernandes que as coisas na Guiné estavam cada vez mais complicadas para o Exército Português. Joana Luísa não percebe porque não a deixam abrir o caixão, ver José Alberto uma última vez. Joana Luísa não percebe, mas José Alberto Caetano, nascido a 14 de Setembro de 1948, morreu.

sexta-feira, 5 de janeiro de 2007

quadriculado

recomeçava a contar com os dedos muito encostados ao papel os números de somas e contas a dividir a vida às voltas como os olhos - ou parece-me que esta frase perde um pouco o sentido ou não estivesse eu apenas a começar uma história que não tem nunca fim, tu já leste textos meus, já sabes como é - os dedos muito encostados ao papel as contas ou o ponto final desta frase, você está aqui.

os olhos deitavam pequenas lágrimas pelas faces abaixo, tinha-lhe dito o pai que queria ser motorista da carris mas aquele acidente a jogar a bola, o melhor jogador do distrito em 1983, toda a gente a correr com ele às costas pelo meio da estrada da aldeia e uma semana depois num simples jogo de solteiros e casados, fractura de quatro dedos da mão e de alguns dos ossos do pulso, a mão esquerda deitada fora porque alguém o empurrou, sem forças, agora.

recomeçava a contar com mistura de lágrimas e uma bola a saltar à entrada da grande área - a mão não lhe servia para conduzir mas marcam-se golos com os pés - e em 1985 chegou a ser convidado para ir treinar a uma equipa da segunda divisão, foi nesse dia que conheceu a minha mãe que andava por ali à porta do campo à espera do irmão para voltar para casa, não havia autocarros porque era de noite, ele agradeceu o acidente e, não ficando contratado para jogar, o guarda do campo não precisa de um pulso ágil.

os olhos deitavam pequenas lágrimas e contas de somar e dividir, quantas vezes quantas é preciso dizer que as coisas seguem o seu caminho ilógico, apesar de todos os filósofos dos x y z conclusões um tanto desnecessárias se os olhos deitam pequenas lágrimas - e tu que já leste os meus textos sabes que as coisas são assim mesmo - mas fazia pouco sentido que alguém entrasse pela porta e o visse naquele estado, a chorar como uma criancinha pequena, em que ano estamos nós, era capaz de perguntar, melhor ficar tudo no silêncio, tudo no ponto, como ele costumava dizer, tudo no ponto final, aqui, você está aqui.