sábado, 29 de dezembro de 2007

Venda a Retalho

Os vulgares que me perdoem, mas a paixão é fundamental.

(este não é um post sobre comércio)

Férias (5)

Passar a ter, na sala, um armário exclusivamente para a poesia.
223 volumes, neste preciso momento.

Férias (4)

Estar um pouco inseguro quanto à possibilidade de colocar um volume na mala do carro.

Férias (3)

Estar fora. Por fora. De fora. Fora.
Mesmo fora.

Férias (2)

Fnac de Alfragide.
Assumidamente uma loja de electrodomésticos com extras.
Um café Fnac com ares de Maxime Chic.
L'homme sans qualités, de Robert Musil, em versão bolso. Dois volumes.

Férias (1)

Pedro Mexia, Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir e Football Manager.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

Natal


Quando fechar a Livrododia, daqui a pouco mais que uma hora, o meu tempo será dividido entre amigos e família. Entre últimas visitas para desejos de boas festas, a compra do bolo-rei que está há uns dias encomendado, o jantar em casa da minha mãe, e o dia de amanhã, uma vez mais, em constantes visitas e festejos familiares, vou degustar os doces e a cozinha lá de casa, acompanhado com uns bons vinhos tintos.

Será também tempo de, finalmente, descansar, desligar, voar para fora dos problemas do trabalho. Não fosse por outra coisa (mas é), esta seria uma boa razão para viver a época com alegria. Mas a lareira acesa, os sorrisos, os afectos, a boa conversa, são todas excelentes razões para nos sentirmos bem connosco mesmos quando é Natal.

E assim alargo a todos aqueles que visitam este blogue, aos mais próximos e aos curiosos, aos amigos de sempre e aos que estão apenas de passagem, o desejo de Boas Festas cá de casa.


domingo, 23 de dezembro de 2007

Contribuições para um uso inteligente do aumento salarial


E tu,

onde vais investir esses 25 € por mês

para salvar a economia do teu país?

Caviar e Crise

Caro Eduardo,

Aquilo de que se fala, quando se fala de crise, é exactamente disso: do preço do caviar, do bolo rei de cinco estrelas, do lugar no restaurante, da viagem e do réveillon. A crise de que não se fala é a do frio do casaco que já tem 4 anos, do procurar pelo café que nos vende umas febras por 5 euros, do pedir uns cigarros ao colega, do ainda não ser dia de natal e já ter menos de 100 euros na conta bancária, pensando-se assim qual será o delicioso jantar que vamos ter para ver, em casa, os gato fedorento na rtp1, na última noite do ano.

A crise de que não se fala, é a crise dos que chegam sem dinheiro ao fim do mês, sem dinheiro e sem crédito, com a conta do telefone e da internet ainda por pagar.

Jacques Rodrigues e os 25 euros

O Sr. Jacques Rodrigues enviou, na sua mensagem de natal aos trabalhadores do Grupo Impala, do qual é Presidente, um aviso à navegação para o ano de 2008: este ano que passou foi um ano de crise, com quebras nas vendas, devido à “falta de profissionalismo de alguns colaboradores, em prejuízo dos demais e das empresas”, e o ano que aí vem arrisca-se a ser bem pior. Assim vai preparando terreno para mais despedimentos neste Grupo.

No entanto, não me apetece comentar o que se passa na Grupo Impala, mas sim o que se passa no mercado empresarial no geral. Este discurso do Sr. Jacques Rodrigues não é de todo estranho aos nossos ouvidos, já que é o discurso corrente de empresários e investidores. Ou seja, perante o cenário negro da economia nacional, culpa e carga nos trabalhadores. Para juntar ao regabofe, o aumento do salário mínimo vem trazer ainda mais pressão para aqueles que são os desprotegidos do sistema: os milhões de trabalhadores, especializados e não-especializados, que vivem sob o espectro dos baixos salários.

Ao acreditar nos números, só 5,5% dos trabalhadores recebem o salário mínimo (426 € a partir de Janeiro de 2008), mas a verdade é que essa aparentemente baixa percentagem de pessoas funciona como referência para grande parte do mercado de trabalho, levando a que uma grande quantidade de pessoas viva com salários entre os 426€ e os 600 €. Ora, apesar de sindicatos e trabalhadores acharem o aumento dos 25 euros do SMN razões para festejos, a mim é um alerta para a pobreza e para a miséria que vivemos neste país. Faça o exercício de viver um mês gastando 426€. Faça o exercício de viver um ano gastando 5964 €. Não precisa sequer de passar pelas necessidades. Faça-o numa folha de excel.

Perante o cenário do nosso país, onde juntamos à questão salarial a questão do emprego - sim, porque formamos pessoas sem garantias de postos de trabalhos onde essa formação sirva para alguma coisa - não deixa de ser uma profunda insensatez e brutalidade um empresário vir culpar funcionários a quem paga abaixo de cão, a quem exige tudo e não dá qualquer contrapartida, dos insucessos da economia. Não é ao funcionário que se deve exigir produtividade, é à empresa, ao conjunto de factores e sistemas implementados dentro da empresa que visam permitir o melhor aproveitamento dos recursos e crescimento de resultados. Enquanto se acreditar que se consegue isto à custa de baixos salários e de disseminação de culpas, meus amigos, não vamos longe.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

Eu no lado de lá do Oceano

A Germina Literatura escolheu um conjunto de poemas do meu novo livro e publicou-os na sua última edição do ano. Estão lá, no Suplemento Literário desta excelente revista on line.

Como prenda extra, para além da belíssima imagem da página, tive direito ao abrasileiramento do meu nome, para Luís Felipe.

Sobre o preço dos livros II

E no dia seguinte, a Webboom repôs a verdade - aqui está o link outra vez.

Agora já o ano de edição e o preço de venda ao público estão correctos, até com um desconto menor do que estava ontem.

Fica apenas por perguntar 1) o que originou a anterior informação e respectivo preço, erro ou desejo de abater concorrência? 2) quantos livros foram vendidos com os 54% de desconto?

Sim, porque na Livrododia, praticando o preço real desde o início, não vendemos nem um.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Sobre o Preço dos Livros

Descobri há pouco um post no blogue Vida de Livreiro que me concedeu a oportunidade, com um caso prático, o crime que vem sendo praticado pelo site Webboom com a sua denominada Campanha de Natal. Já tinha percebido que essa Campanha comportava alguns atropelos à Lei do Preço Fixo, mas no exemplo que vos vou dar a seguir, mais do que à Lei do Preço Fixo, a Webboom incorre num crime de falsificação de informação para praticar preços inacreditáveis em livros que foram lançados há pouco tempo no mercado.

O livro que serve para exemplificar esse caso tem por título A Longa Viagem da Biblioteca dos Reis - Do Terremoto de Lisboa à Independência do Brasil, da autora Lilia Moritz Schwartz com Paulo Cesar de Azevedo e Angela Marques da Costa, numa edição da Assírio e Alvim. Como poderão constatar pela consulta do site, este livro foi lançado em 2007 e tem, como preço de capa do editor, 35 €.

Ora, o mesmo livro, no site da Webboom, tem como preço 23, 63€ e indica como ano de edição do livro, 2003. Ora, se essa informação fosse correcta, o desconto de 20% seria legal, propiciando ao cliente um preço de 18,9€. Mas como essa informação (data de edição e PVP) é falsa, a ilegalidade de vender um livro lançado em 2007 com 54% de desconto é clara!

Junto então o comparativo entre a ilegalidade da Webboom e um caso real (Livraria Livrododia). Não faço ideia a que preço a Webboom teve acesso a este livro, e para falar verdade, tendo em conta o preço a que vende, nem quero saber. É vergonhoso. A Livraria Livrododia, Lda, comprou, através do distribuidor oficial da Assírio e Alvim, a Sodilivros, exemplares deste livro a 24,50€ (um desconto de 30% sobre o PVP) e vende-os a 35€. Se decidirmos colocar este livro como Livro do dia, com um desconto de 20% (o máximo que se pode aplicar a uma novidade, em campanhas), o livro poderá ser adquirido por 28€. Na Webboom, é o que se vê.

O cliente fica a ganhar? Ocasionalmente. Em termos globais estes atropelos fazem com que o preço médio dos livros aumente todos os anos. Mais. Não vendendo nenhum exemplar deste livro, a tendência natural das livrarias é encomendar cada vez menos (e logo, disponibilizar cada vez menos ao público em geral) títulos que são usados pelos concorrentes para "queimar" a concorrência. E assim, quer a editora, quer o cliente final ficarão a perder. Uns por não venderem, outros por não conseguirem encontrar nas livrarias a diversidade que desejavam. Pela Internet, poderá comprar-se tudo, dizem alguns. É capaz de ser verdade. Mas se não soubermos que o livro existe, como o vamos poder encontrar?

Deixamos tudo ao acaso? Acho que é o que tem acontecido até aqui...

registos

Se não se pode mudar de livraria, pelo menos, mude-se de cidade.

Chuva / Escuro

Dizes-me que estás deitada, a ouvir a chuva e o vento a bater na tua janela. Eu sorrio. Pouso o telemóvel e retomo um livro. Aqui também há chuva, ameaças de tempestade, noite escura. Mergulho para dentro das palavras, onde me sinto melhor.

(...)

A meio da noite acordo e tudo parece escuro. Está bem assim, a noite prolongada, a cama quente. Adormeço de novo.

(...)

Torno a acordar, mais tarde. Ainda o escuro. Repete-se a cena. Mas o meu lado céptico leva-me a esperar um pouco mais, de olhos abertos. E então o escuro vai-se desfazendo lentamente até que percebo o dia a entrar pelo quarto, a reflectir-se nas paredes brancas. E então percebo. Todos os mistérios vêm sempre um pouco mais tarde que o despertar.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

A Selva é Redonda - Rui Costa

Os macacos comem bananas porque
era a fruta que tinham mais à mão.
Se tivessem mais à mão morangos, os
macacos comeriam na mesma bananas,
porque os morangos são muito difíceis de
descascar. As bananas são comidas por
macacos porque são os animais com mais
mãos que têm ali à mão. As bananas não
têm mãos mas têm casca, que é uma espécie
de mão à volta da banana. As bananas prefe-
riam ter mãos mas saiu-lhes antes casca.
Ser casca não deve ser fácil, passar a vida
a ser deitado fora. Os árbitros de futebol
têm duas mãos, uma para cada cartão.
Os macacos também arbitram as bananas,
comendo-as. Os macacos não mostram
os cartões às esposas. Preferem seduzi-las
usando da inteligência. Não sei como vim
parar à selva. Talvez tenha corrido demais
atrás da bola.

Rui Costa

E agora...

... Compras de Natal
Fotografia de Judah Benoliel, 1957

A Literatura na Galiza (Outubro- Dezembro 2007)

Á volta do verán o panorama de edición de poesía na Galiza semellaba completamente desolado. Cumpriu agardar até avanzado novembro para poder empezar a configurar un catálogo de novidades merecente de ser difundido.

Editorial Galaxia publica na súa colección Dombate dous novos títulos. Teatriños, de Erín Moure, libro finalista do Griffin Poetry Prize 2006, un dos premios máis importantes da poesía anglosaxona. Erin Moure, é poeta canadense de orixe galega. O libro, escrito en lingua inglesa, incluía na edición orixinal doce poemas en galego. Esta edición inclúe a versión galega do resto do texto pola man da escritora e tradutora María Reimóndez. Vigo, de Helena de Carlos, é o segunda das novidades que presenta Galaxia, e o cuarto na bibliografía da autora, fina poeta de formación clásica (doutora en Filoloxía Clásica e profesora titular do Departamento de Latín e Grego da Universidade de Santiago, especializada en estudos sobre a latinidade medieval), que se deixa translucir nas referencias cultas e no agudo sentido do ritmo e da estrutura dos seus poemas.

Sae do prelo da man da editorial 3C3 unha edición completa da poesía de Luís de Aguirre, autor romántico, contemporáneo e coterráneo de Rosalía de Castro. Aparece con prólogo do tamén poeta (e tamén coterráneo, aínda que moi actual) Anxo Angueira (falamos deste autor na crónica anterior) e edición de Avelino Abuín de Tembra.

O grupo poético vigués A porta verde vén de tirar o seu primeiro volume colectivo. Algúns dos autores deste título xa publicaran traballos individuais en papel (Elvira Ribeiro Tobío, Manolo Pipas ou Alberte Momán). Outros levan tempo amosando o seu quefacer en diversos portais da rede. O volume inclúe textos destes dous autores e mais doutros seis: Abilio Rodríguez, Alfonso Láuzara, Cruz Martínez, Rosa Martínez (Rosanegra), Alfonso Rodríguez (Minus-bálido) e Luís Viñas.

A editorial Xerais edita Hai cu, que vén asinado por "O Leo". O autor, coñecido como líder do grupo de rock O Leo e Arremecághona!, ven publicando dende hai anos os textos do libro e mais multitude doutros haikus no blog homónimo. Da mesma editorial ve luz O adeus do vello mariñeiro, de X.H. Rivadulla Corcón.

Con todo, a nova máis importante desta tempada no que se refire á poesía galega son dúas reaparicións. A primeira é unha "nova" colección de poesía. Leva por nome Edoy Leliadoura e é continuadora da histórica colección Leliadoura do mesmo selo editorial Sotelo Blanco que dá vida a esta remozada criatura. Como lanzamento da colección, publícanse seis títulos: Os poemas de como se rompe todo, de Daniel Salgado, Memoria de Ahab, de Rafa Villar, Derrotas con raíces, de Modesto Fraga, Onde o ollar comeza a doer, de X. Antón L. Dobao, e dous títulos de Marica Campo: Bingo e Sextinario, trinta e seis+tres. Dirixe a colección o crítico Xesús González Gómez, célebre polas súas descarnadas recensións de poesía publicadas hai algúns anos no semanario A Nosa Terra. A segunda é a volta de Edicións Positivas que aporta unha tradución de Allen Ginsberg feita polo poeta Daniel Salgado e un libro de Moncho Iglesias, Oda ás nais perennes con fillos caducos entre os brazos.

Estes días presentouse na Coruña a obra gañadora do premio de poesía Espiral Maior, fallo ao que nos referimos na anterior crónica. O libro premiado titúlase, Profundidade de campo e é obra da recoñecida poeta Yolanda Castaño.

Tamén fallouse o premio de poesía Xosemaría Pérez Parallé que premia unha obra de autor inédito. O libro galardoado foi Debaixo de Dziga Vertov hai unha buxaina, de Valentina Carro. O xurado outorgou tamén unha mención publicación ao libro Metal central de Alfredo Ferreiro.

Finalmente, deixar constancia aquí da presentación, no marco da feria de Frankfurt, dunha antoloxía bilingüe galego-alemán de 20 poetas galegos que inclúe textos de Rosalía de Castro, Manuel Antonio, María Mariño, Álvaro Cunqueiro, Xosé María Álvarez Blázquez, Luz Pozo, Manuel María, Uxío Novoneyra, Xosé Luís Méndez Ferrín, María Xosé Queizán, Xosé María Álvarez Cáccamo, Pilar Pallarés, Manuel Rivas, Xavier Queipo, Miguel Anxo Fernán Vello, Ana Romaní, Marga do Val, María Reimóndez, Yolanda Castaño e Mónica Góñez. Outra antoloxía, esta vez da man da crítica literaria Teresa Seara, presentouse na feira do libro de Guadalajara. Nesta ocasión, a escolma aparece baixo o selo da revista Reverso e inclúe textos de Luz Pozo Garza, Xohana Torres, Manuel Álvarez Torneiro, X.L. Méndez Ferrín, Xosé María Álvarez Cáccamo, Xulio L. Valcárcel, Xavier Seoane, Chus Pato, Pilar Pallarés, Miguel Anxo Fernán Vello, Eva Veiga, Olga Novo, Yolanda Castaño e Emma Pedreira Lombardía.

Eduardo Estevez

Prémio Livrododia 2007


Continua a votação para os prémios Livrododia 2007. Já participaste?
Se ainda não, podes nomear os teus candidatos aqui.

TV Catita

Um Mundo Catita, uma minissérie, de seis episódios, onde o vocalista dos Ena Pá 2000 interpreta o papel de si próprio e dá por si em situações inimagináveis - a matar a águia Vitória em pleno Estádio da Luz e ser depois perseguido pelos adeptos benfiquistas; a cantar no Natal dos Hospitais com um coro e depois discutir com um doente com leucemia ou adormecer no Teatro São Luiz e perder o grande concerto da sua banda. O slogan da série é "as coisas podem sempre ficar piores".

Apesar de se prever que esta série poderia mudar o mundo (ou vá lá, quase...), ainda nenhuma televisão o comprou para emitir.


domingo, 16 de dezembro de 2007

o top dos logs

O que poderá justificar que a Áustria seja o terceiro país que mais visita este blogue?

sábado, 15 de dezembro de 2007

a sintonizar


Portland TC 961- DP (a cores)
Fabricada em 1979

das revistas

2007 tem sido um ano difícil, um ano em que os ritmos se alteraram de uma forma imprevisível, levando-me a provar uma série de coisas novas. Com essas alterações não planeadas, um dos projectos a que me vinha entregando nos últimos dois anos sofreu um pequeno revés que vai ser agora recuperado. Falo da Revista Sítio.

Lembrar-se-ão os contactados, que há cerca de um ano pedi vários textos para o quarto número da publicação. Depois de tantos meses passados, os textos e as imagens estão finalmente escolhidos e preparados, estando já nas mãos do paginador da revista. Vários factores participaram para este doloroso caminho. A pressão das promessas feitas, a dos objectivos traçados, a necessidade de continuar um projecto que, para além do interesse cultural que detém, é ainda uma peça importante para o funcionamento da associação onde é editado, visto que é o único projecto da associação que merece o reconhecimento do Mecenato Cultural da parte do Ministério da Cultura.

Agora que os textos estão escolhidos e a revista verá a luz do dia para os fins de Janeiro, inicia-se já uma nova era. Passados quatro números de uma revista que tem sido, quase exclusivamente, dedicada à ficção literária e à poesia, outros caminhos de interesse se abrem, talvez como um regresso às origens do projecto (que quando nasceu era para ser um projecto de teoria literária), talvez como uma necessidade que os homens sempre têm de viver cada fase da sua vida de uma forma intensa e total. De alguma forma posso dizer que a ficção não me tem chegado.

Escrevo este texto, que poderia ser o prefácio ao quatro número mas não o é, tem uma natureza diferente, na semana em que comecei a delinear mentalmente o que será a Sítio 2008, o quinto número, quem as pessoas que as energias foram aproximando do projecto, quais os temas e os encontros que se vão agora iniciar. Há poucos minutos convidei o primeiro autor desse número, que de pronto aceitou o desafio. Por estas pequenas coisas, pelo brilho que se vê nascer nos olhos dos outros, um ânimo interior em nós, sei que vale a pena.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Presidencialismo Chic

Cristina Fernandéz Kirchner após a sua tomada de posse como Presidente da República da Argentina

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Prémios Livrododia 2007

A Livraria Livrododia promove os prémios Livrododia 2007, para que em conjunto com os seus clientes e amigos dê destaque ao que de melhor foi feito no mundo dos livros em 2007.

Assim, abrimos a concurso as seguintes categorias:
- Melhor Livro de Ficção
- Melhor Livro de Poesia
- Melhor Livro de Ilustração
- Melhor capa de Livro

Para participar, deverá enviar um email para livrododia@gmail.com, nomeando três livros para cada uma das categorias. Esta votação decorrerá até 31 de Dezembro.Feita a selecção dos cinco mais votados, esses livros voltarão a estar a votação até ao fim de Janeiro, para se escolher os vencedores de cada uma das categorias.
Os vencedores terão destaque no site e nas livrarias Livrododia, e poderão ser adquiridos com descontos.
Entre os participantes das votações, serão sorteados exemplares dos livros vencedores, prémio para o qual pediremos também a participação das editoras (quanto maior for a aceitação, mais livros poderemos oferecer, fica prometido)

Agora, é começar a votar!

(vindo daqui)

seis filmes na corrente

Desafiado pela Angela, aqui faço a minha (injusta) selecção de seis filmes:

Acima de tudo e todos, o grande, o insubstituível (com direito a cartaz na minha sala e tudo!), Disponível para Amar, de Wong Kar-Wai. Não tenho palavras para descrever este filme que já vi e revi imensas vezes, do qual passo muito e muito tempo a ouvir a banda sonora, e que tem em 2046 uma continuação à altura (embora eu resista a colocar este segundo na lista dos seis nomeados).

Em segundo lugar, Um Eléctrico chamado Desejo, de Elia Kazan. Vi pela primeira vez este filme, deveria ter uns 17 anos, numa aula de Expressão Dramática, no Liceu. Fiquei estranhamente perturbado com o filme, sobretudo com aquela personagem do tamanho do mundo na pele do Marlon Brando (que eu tenho gravado na memória, quase com o dobro do tamanho, no Apocalipse Now). Do mesmo realizador, mas aí culpa do Ruy Belo e da Natalie Wood, Esplendor na Relva fica à porta da nomeação (mas não entra).

Em terceiro lugar a homenagem a um dos meus realizadores de eleição, João César Monteiro. Escolho A Comédia de Deus porque foi o primeiro filme dele que vi, nos Cinemas King, depois de uma épica viagem de táxi com o meu irmão e a minha prima, jovens adolescentes que foram arrastados por mim para aquela sessão de cinema que acabou com o João César Monteiro em carne e osso a tirar-nos as medidas no café do King (e com certeza a pensar que a juventude estava perdida...). Não esquecer que Recordações da Casa Amarela (que eu vi mil vezes) e vários outros filmes do João César são refeição habitual para mim.

Em quarto lugar, e já que falamos de cinema português, O Rei das Berlengas, de Artur Semedo. Caso alguém saiba se este filme já foi lançado em DVD, avise-me (e se puder, envie-me pelo correio que eu compensá-lo-ei devidamente). É um filme excelente que eu nunca mais pude ver porque deixei de ter VHS e, logo a seguir, perdi uma série de cassetes que ficaram em casa da minha mãe. Mas sim, arrisco, é do melhor que o cinema português poderá alguma vez fazer, porque é um filme português em todos os sentidos e milésimos de segundo de fita.

Em quinto lugar, World Park, de outro realizador de quem eu não perco um filme, o Zhang Ke Jia. Escolho este filme porque conjuga a esperança, o desencanto, o capitalismo, o mercado, a miséria, o comunismo, tudo e mais alguma coisa num filme só. Acho que raramente se encontram filmes assim, mas com este realizador, está-se sempre num mundo em que tudo acontece ao mesmo tempo. Como no mundo a sério, talvez.

O último da lista dos seis é uma comédia, O Inimigo Público Nº 1, de Woody Allen. Toda a lógica do falhado aparece neste que é um dos primeiros filmes de Woody. Acho que, injustamente, é poucas vezes lembrado no meio da vasta produção do autor. Mas do Woody Allen eu poderia escolher quase uns dez filmes para esta lista, portanto não levo isso muito a peito.

Acabo a lista e acho incrível não ter tido espaço para nenhum realizador francês, para o Quentin Tarantino, para o Vincent Gallo, para o Mike Leigh... Mas pediram-me seis e eu, a custo, escolhi-os.

Passo o desafio para a Justa, para a Inês, para o Fernando, para o Diogo e para a Valex.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Sulscrito em Lisboa

Na livraria Lerdevagar, na Fábrica Braço de Prata, dia 8 de Dezembro às 21:30.
Rua da Fábrica do Material de Guerra, nº1(em frente aos Correios do Poço do Bispo).

O Sulscrito - Círculo Literário do Algarve tem o prazer de vos convidar para uma sessão de apresentação de vários projectos culturais.

Apresentação de projectos de:

Sulscrito – Círculo Literário do Algarve
Palavra Ibérica
Aliança Cultural - Faro

Programa:

- Apresentação da revista de literatura Sulscrito, com a presença de algunsautores/colaboradores.

- Apresentação da colecção de poesia Palavra Ibérica.

- Apresentação da 3ª edição do encontro de autores Hispano-Lusos Palavra ibérica (Punta Umbría-Huelva, 2008).

- Apresentação do projecto cultural ALIANÇA CULTURAL – Faro. (Literatura, Artes Plásticas, Património, Música).

- Apresentação de um jovem poeta de Faro, recentemente publicado.

Sulscrito:
Fernando Esteves Pinto
João Bentes
Pedro Afonso
Tiago Nené

Editor:
Luís Filipe Cristóvão (Livrododia Editora)

Aliança Cultural
:
José Bívar
Adão Contreiras
Rui Dias Simão

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Lição de Gestão, Fama e Fortuna

"Mas não é muito escrupuloso com a palavra, o que lhe permite tomar decisões com rapidez."

Jorge Martins sobre Paulo Branco, no Jornal Público de hoje.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

A Morte de Portugal - Miguel Real


Diálogo cruzado com Arte de Ser Português (1915), de Teixeirade Pascoais, Educação de Portugal (1970), de Agostinho da Silva,Labirinto da Saudade (1978), de Eduardo Lourenço, Repensar Portugal(1980), de padre Manuel Antunes, Pela Mão de Alice (1994),de Boaventura de Sousa Santos, Portugal Hoje. O Medo de Existir(2004), de José Gil, e Portugal. Identidade e Diferença (2007), de Guilherme d’Oliveira Martins, A Morte de Portugal, ensaiozinho
despretensioso e reflexivo de horas nocturnas, voluntariamente desguarnecido de citações eruditas, escrito no rescaldo dos congressos relativos aos 20 anos da morte de Padre Manuel Antunese aos 100 anos do nascimento de Agostinho da Silva e nos preparativosde um ensaio sobre Padre António Vieira, intenta demonstrar que a constelação cultural e civilizacional por que emergiu a realidade histórica designada por “Portugal”, enquadrada em quatro complexos culturais abaixo enunciados, atingiu o seu limite de esgotamento – menos por efeito de um decadentismo político (temos vivido em permanente decadência desde D. JoãoIII) e mais por causa de um fenómeno de aceleradíssima descristianização e desumanização ética da sociedade e de uma rapidíssima submersão social numa tecnocracia científica anónima que nivela as nações, metamorfoseando-as em regiões singulares de uma futura supranacionalidade europeia, comandada por títeres janotas que transfiguram a nobre arte da política numa cinzenta cadeia técnica de raciocínios causais – e está a chegar ao fim.

Assim, na linha de Eduardo Lourenço, este ensaiozinho diligencia desenhar os quatro complexos culturais por que Portugal se foi concebendo a si próprio ao longo de 800 anos de História:ora, segundo a tradição literária Renascentista, um país gerado exemplarmente no mais remoto dos tempos e contra as mais difíceis circunstâncias (Viriato); ora um país que, nos e após os Descobrimentos, se vê a si próprio como nação superior às demais, sintetizada na majestática arquitectónica do Quinto Império do padre António Vieira, Fernando Pessoa e Agostinho daSilva e na patética [tocante, mas idolátrica] pretensão de Fátima a “altar do mundo”; ora um país que, fracassado o sonho grandiloquente do Império, se lastima e se penitencia, considerando-se nação inferior, passível de máxima humilhação (Marquês dePombal); ora, finalmente, país mesquinho, venenoso e bárbaro,permanentemente ansioso de purificação ortodoxa (Tribunal do Santo Ofício; Index inquisitorial; Intendência pombalina;Real Mesa Censória; guerra civil entre liberais e absolutistas;carbonários e republicanos jacobinos perseguindo e chacinando instituições eclesiásticas; polícia política e tribunais plenários do Estado Novo, santificados pela Igreja Católica, perseguindo,prendendo e exilando a totalidade da oposição, levando a cabo uma guerra de 13 anos nas colónias), no qual cada corrente política e intelectual tem sobrevivido da canibalização das correntes adversárias, negando-as e humilhando-as.

1. ORIGEM EXEMPLAR: a figuração da origem exemplar de Portugal emerge na segunda metade do século XVI através da imagem de Viriato, herói impoluto, puro, virtuoso, soldado modelo,chefe guerreiro íntegro, homem simples, pastor humilde que se revolta contra a prepotência do ocupante estrangeiro,conduzindo os lusitanos a vitórias sucessivas – povo singelo e singular que, não obstante a sua fragilidade militar, é vencedor das legiões do império romano. Tão excelsa é a auréola de Viriato e tão recta e luminosa a sua conduta que só pela traição é derrotado. Concebida por Sá de Miranda e Camões, prolongada heroicamente por frei Bernardo de Brito e Brás Garcia Mascarenhas,a figura de Viriato sobressai no justo momento histórico do fim de 400 anos de ascensão vitoriosa de Portugal como povo exemplarmente católico, desde o conde D. Henrique a D.Manuel I, vencedor e expulsador de infiéis do território de Santa Maria, descobridor de mundos e reconvertor de pagãos. Deste modelo viriatino guarda cada português a imagem imaculada do português de antanho, patriarca da nação e exemplo ético de conduta, enraizado no terrunho natal, afeito à tradição, perfeito na humildade e na modéstia, tão sóbrio e decente quanto decoroso e conveniente – é o complexo viriatino, que nos guiou em Ourique e em Aljubarrota, que orientou a conduta histórica de Egas Moniz, Nuno Álvares Pereira, Afonso de Albuquerque e D. João de Castro e moveu fundo a política nacional de Oliveira Salazar; e quando, dúplice, a pátria abandonou à sua sorte os mazombos pernambucanos do século XVII, João FernandesVieira, madeirense desventurado, filho abandonado de um fidalgo e de uma rameira preta do cais do Funchal, fez despertar o seu complexo de Viriato e, com catanas, zagaias e arcos, inicioua guerra de guerrilha que, anos mais tarde, haveria de expulsar os holandeses do Brasil;

2. NAÇÃO SUPERIOR: da decadência do Império a partir deD. João III, do fracasso de Alcácer Quibir e da perda da independência nasce o assombro de nos sentirmos insignificantes depois de nos termos sabidos gigantes na descoberta da totalidade do mundo. Padre António Vieira, resgatando o providencialismo de Ourique e o milenarismo judaico de Bandarra,deu voz majestática a este cruzado sentimento de grandeza e pequenez, recusando testemunhar a nossa real insignificância europeia, dourando-nos o futuro com o regresso anunciado às glórias do passado, agora sob o divino nome de Quinto Império.Pela arte da palavra de padre António Vieira, Portugal, país de valor exíguo no século XVII, valendo apenas pelo legado dos territórios do Império, permanece desde então sebastianisticamente em permanente estado inquieto de vigília, aguardando o “despertar”, a “Hora!” pessoana, porque de novo cruzará os mares – agora do espírito e da cultura, falhados que foram os reais, tornando-se de novo grande – é o complexo vieirino, que nos determina a desejarmos mais do que nos pedem as forças e nos exigem as circunstâncias, pulsão social que orientou as caravelas portuguesas;

3. NAÇÃO INFERIOR: no final do século XVIII, após 250 anos de domínio exclusivo da Igreja Católica na formação da mentalidade colectiva portuguesa, arrefecido o afluxo de ouro e pedras preciosas do Brasil ao erário régio, Portugal reconheceu a sua pobreza intrínseca – o comércio urbano e as exportações nas mãos dos ingleses, o pão confeccionado com farinha branca inglesa, o carvão importado da Inglaterra, os trajes tecidos de seda de Lyon e de fazenda dos teares de Manchester, a louça provinda de Itália, as berlindas armadas em Paris, escolas públicas inexistentes, estradas reais inexistentes, hospitais públicos reduzidos ao de Hospital de Todos-os-Santos de Lisboa, quese incendiara em 1750. Magro, macérrimo era Portugal; gordo,gordérrimo o Estado de D. João V; magro, macérrimo era Portugal; gorda, gordérrima a Igreja de Portugal. Pela Europa culta ostentavam-se os espectáculos públicos nacionais como exemplo de barbárie e superstição: autos-de-fé, procissões penitenciais e touradas. O Marquês de Pombal reagiu a esta situação catastrófica, revolucionando o todo de Portugal – tesouro régio,educação, economia, urbanismo, política regalista –, assente na profunda convicção de que a Portugal, país em permanente estado de inferioridade civilizacional, nada lhe faltava para ser igual aos restantes caso se alterasse drasticamente o perfil das elites,insuflando-lhes um banho de Europa. Desde a revolução liberal de 1820, todos os ímpetos modernistas portugueses têm nascido deste complexo cultural que eleva a Europa a destino e sentido de Portugal – o complexo pombalino, hoje acefalamente política dominante do Estado português, que, como “bom aluno”,se põe na fila das estatísticas, subordinando a sua imensa valia cultural à mera e exclusiva valia dos indicadores económicos,gerando um notório sentimento de mal-estar e de inferioridade entre as actuais elites portuguesas, envergonhadas do povo rústico, bruto e arcaico que comandam, esquecendo-se de que o mesmo povo, em outros países da Europa central, governado por outras elites, atinge indicadores económicos valorosos e comportamentos educacionais distintos;

4. CANABALISMO CULTURAL: em função dos três complexos referidos,idiossincraticamente portugueses, se quiséssemos definir o tempo moderno e contemporâneo da cultura portuguesa entre 1580 – data da perda da independência – e 1980 – data do acordo de pré-adesão à Comunidade Económica Europeia –, passando simbolicamente pelo ano de 1890 – data do Ultimatum britânico a Portugal –, atravessando 400 anos de história pátria, defini-lo-íamos como o tempo do canibalismo, o tempo da culturofagia,o tempo em que os portugueses se foram pesadamente devorando uns aos outros, cada nova doutrina emergente destruindo e esmagando a(s) anterior(es), estatuídas estas como inimigas de vida e de morte, alvos a abater, e as suas obras como negras peçonhas a fazer desaparecer. Católicos ou erasmitas, papistas ou hereges protestantes, jesuítas ou iluministas, religiosos ou maçónicos,carbonários-jacobinos ou eclesiásticos, tradicionalistas ou modernistas, espiritualistas ou racionalistas, cada corrente só se entendia como una e independente quando via o seu reflexo“puro” nos olhos aterrorizados do adversário, quando o desapossava de bens, lhe subtraía o recurso para a sobrevivência e, em última instância, quando o prendia ou matava, por vezes mesmo “matando-o” depois de este estar morto, como sucedeu com os restos mortais de Garcia da Horta, em Goa, exumados e queimados. Porém, se umas correntes “matavam” o morto, privilégio dos dominicanos da Santa Inquisição, orgulhosamente autocognominados de os “cães do Senhor”, outras – animadas do mesmo ódio teológico e racionalista – “ressuscitavam-no”,como aconteceu com os maçónicos e republicanos face ao legado pombalino, fundado numa das mais impressionantes mitologias culturais alguma vez inventadas em Portugal (cf. obra de José Eduardo Franco, nomeadamente O Mito dos Jesuítas em Portugal, no Brasil e no Oriente (Séculos XVI a XX), 2007) erguendo a maior e mais importante estátua do Marquês de Pombal em pleno centro de Lisboa. Assassínios individuais e colectivos (perseguição dos judeus pela Inquisição; perseguição dos hereges pela Igreja; perseguição da alta nobreza, dos jesuítas, do “herético” Cavaleiro de Oliveira e de pensadores e poetas pré-românticos pelo Marquês de Pombal; perseguição de sacerdotes pelos jacobinos positivistas e republicanos; perseguição de comunistas e socialistas pela Igreja Católica e pelo Estado Novo no século XX; actual perseguição a funcionários públicos rebeldes pelos poderes partidários instituídos pelo governo de José Sócrates/Cavaco Silva), prisões individuais e colectivas – todos os protagonistas da história da cultura portuguesa, com raríssimas excepções, entre as data sindicadas (1580-1980), têm as mãos sujas e não poucos morreram em desespero às suas próprias mãos, ora abandonando desalentados a cortesia do Poder (de Sá de Miranda, recolhido solitário a Terras do Basto, a Alexandre Herculano, Domingos Tarroso,José Régio e Miguel Torga), ora exilando-se (desde Francisco Sanches, António Nunes Ribeiro Sanches e Luís António Verney a praticamente todos os grandes vultos da cultura portuguesa do século XX, de Aurélio Quintanilha a Adolfo Casais Monteiro, de Agostinho da Silva a Barradas de Carvalho e Fernando Gil, dos irmãos Cortesão a Eduardo Lourenço, Oliveira Marques, Vitorino Magalhães Godinho, Jorge de Sena e José-Augusto França; a imensa maioria dos pintores portugueses do século XX), ora suicidando-se (Antero de Quental, Camilo Castelo Branco e Manuel Laranjeira). Animados por um “pensamento pobre” (Pedro Roseta),não temos feito história da cultura com o pensamento, mas com o sangue, sustentando-nos antropofagicamente do corpo do adversário – complexo canibalista –, que alimenta o desejo de cada pai de família portuguesa de se tornar súbdito do chefe ou do patrão, “familiar” do Tribunal da Inquisição, sicofanta da Intendência-Geral de Pina Manique, “informador” de qualquer uma das várias polícias políticas, carreirista do Estado, devoto acrítico da Igreja, histrião da claque de um clube de futebol,bisbilhoteiro do interior da casa dos vizinhos, denunciador ao superior hierárquico.


Título: A Morte de Portugal
Autor: Miguel Real
Editor: Campo das Letras

sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Deutsche Grammophon - Vincent Delerm et Iréne Jacob

Quatrieme de couverture - Vincent Delerm

23 juillet, Paris s'éteint
Et sur le Quai des Grands Augustins
Nous tournons les pages à l'improviste
Devant l'étalage d'un bouquiniste
Je ne vous connais pas, je vous frôle,
Là sur le Quai, épaule contre épaule.
Nous jetons en même temps un oeil sur
Les quatrièmes de couverture.
Une biographie de Signoret
Voilà le genre de choses qui vous plaît.
Un storyboard de Fellini
Le genre de truc qui vous fait lever la nuit.
Je vous devine à Juan-les-Pins
Un Press-Pocket entre les mains
Emportez-vous à Maisons-Laffite
Ce Boris Vian en 10/18?
Je connais bien votre poignet
Je connais vos mains, votre bracelet.
J'aime la manière dont vous reposez
Tristan Corbière sur le côté
Qu'allez-vous donc penser de moi si
J'attrape en rayon "Les années Platini"?
Finalement, je préfère me rabattre
Sur la NRF de 54
300 pages sur la guerre d'Espagne
Le genre de chose qui nous éloigne
Un vieux Sempé en Livre de poche
Le genre de truc qui nous rapproche
Guide du Routard du Sri Lanka
Dieu soit loué, on ne se connaît pas.
Hitchkock-Truffaut : les "Entretiens"
Nous avons tant de choses en commun. .
23 juillet, Paris s'éteint
Et sur le Quai des Grands Augustins
Nous tournons les pages à l'improviste
Devant l'étalage d'un bouquiniste
Je ne vous connais pas, je vous frôle,
Là sur le Quai, épaule contre épaule.
Sur les quatrièmes de couverture
Nous cherchons la même aventure.
Sur les quatrièmes de couverture...

Para ajudar ao passar das horas em greve geral...

Não que eu acredite em Greves Gerais à Sexta-feira, mas aqui deixo uns versos de Gregório de Matos, ilustre poeta português e brasileiro do séc.XVIII, como mote para os grevistas.

SÁTIRA AO GOVÊRNO DE PORTUGAL POR GREGÓRIO DE MATTOS
REÇUSITADO EM PERNAMBUCO NO ANNO DE 1713.

1 Um Reino de tal valor
e de povo tão honrado
é justo seja louvado
desde o vassalo ao Snr.
ainda que fraco orador
a verdade hei de dizer,
e cada qual recolher
pode aquilo que lhe toca
ainda que digna o provoca
uma imitação Real
Este é o bom governo de Portugal.

2 Um rei menino inocente
sem compaixão nem piedade
inimigo da verdade
com adulação contente
em uma sombra aparente
tanto se enleva este Rei
faltando do Reino a lei
seguindo somente os vícios
e com torpes exercícios
o chegou a extremo tal
Este é o bom governo de Portugal.

3 Para os povos bem reger
Deus o pôs neste lugar
não para o desgovernar,
nem para o Reino perder;
mas creio lhe fazem crer
que é já virtude o pecar
e o que deve, não pagar
ter ambição, e avareza
perseguindo a pobreza
com tributo desigual
Este é o bom governo de Portugal.

(...)
6 Que haja um Conselho de Estado
para mil resoluções
e que em todas as ocasiões
é sempre desacertado
o parecer sempre errado
foi de seus desacertos
obrar com desconcertos
e só para os bons intentos
lhe segua os entendimentos
o grão Demônio Infernal
Este é o bom governo de Portugal.

(...)
11 Anexa a contadoria
donde o Máximo é rezisto
porque na junta o que é visto
se remete a esta via:
se falta aqui a valia
para a boa informação
acha-se uma dilação
e uma dúvida no cabo
que té o mesmo Diabo
dirá por regra geral
Este é o bom governo de Portugal.

12 O Conselho da Fazenda
com dúvidas e demoras
passam anos, dias e horas;
os pobres nesta contenda
em dilação estupenda
três anos aqui andei
que na verdade não sei
como o posso referir
não houve que deferir
foi o despacho final
Este é o bom governo de Portugal.

(...)
23 Da Câmara, e Senado
que em obras, taxas, licenças
deve com toda a presteza
ter particular cuidado
o governo é de estado
e são as ruas da cidade
monturos e porquidade
e o que tem que vender
o vende pelo que quer
por ter seguro o costal
Este é o bom governo de Portugal.

24 Os Ministros de justiça
que nunca a fizeram direita
porque a valia respeita
pela puta, ou por cobiça
o Demônio assim lhe atiça
este fogo em seus ardores
juíz e corregedores
letrados e escrivães
alcaides, e tabeliães
todos vestem de um saial
Este é o bom governo de Portugal.

(...)
34 Que venha todo o estrangeiro
e cada um negociando
o ouro e prata vão levando
deixando-nos sem dinheiro
e não há já conselheiro
que seja homem de talento
que apurado o entendimento
algum remédio lhe aplique
para que o Reino não fique
exausto deste metal
Este é o bom governo de Portugal.

35 Que andem por esta cidade
roubando vários maraus
e que estes vaganaus
tenham a favor e amizade;
sem ter honra, nem verdade
furtando uma, e outra vez,
achando o Conde, ou Marquês
que dizem se presos vão
que são de sua obrigação
ao ministro principal
Este é o bom governo de Portugal.

(...)
38 Os mais que aqui não refiro
fiquem à eleição dos leitores
que de tão graves oradores
muito pouco me admiro:
corra a fortuna seu giro
com mil voltas e rodeios
pois, que por tão vários meios
vivem neste Reino insano
o bom, e o mau, alto, e malo
e como quer cada qual
Este é o bom governo de Portugal.

39 Já não temos que esperar
neste governo insolente
mais que perecer a gente
sem o bem nunca alcançar;
só para Deus apelar
pode o povo português
e pedir-lhe desta vez
que nos dê governo novo
para que com ele o povo
sigua no seu natural
Este é o bom governo de Portugal.

quinta-feira, 29 de novembro de 2007

Uma questão de língua (afiada e certeira)

Por não estar sozinho neste mundo, e para aqueles que, pouco clarificados, ainda precisavam de mais qualquer coisa, as opiniões de:

- Eduardo Pitta

- Francisco José Viegas

(a partir do Dossier de Alexandra Lucas Coelho, publicado no Jornal Público)

Nova Lei Eleitoral Autárquica


Pede-me o Francisco Rodrigues, do blogue Mais vale tarde do que nunca, um comentário à nova lei do poder autárquico. Como o seu post me inspira mais que um breve comentário, decidi escrever aqui a minha opinião.

A primeira impressão que tiro desta notícia é que, a partir das próximas eleições autárquicas, 21% dos votos serão exactamente o mesmo que 60%, passando a desvalorizar-se a maior parte da participação dos cidadãos. Ou seja, vamos ter municípios em que candidatos com 21% terão maiorias no executivo, enquanto noutro casos, poderemos chegar a ter candidatos com mais de 30% dos votos que apenas tenham direito a um lugar de vereação.

Assim, a responsabilidade total do que é feito e do que não é feito numa Autarquia passará a estar nas mãos do Presidente, que tendo possibilidade de escolher o seu executivo, estará sempre sob o escrutínio da Assembleia Municipal (um órgão, até aqui, perfeitamente acessório no poder autárquico) que, a meu ver, não possui as mínimas capacidades para acompanhar e fiscalizar o trabalho do Executivo. Isto deve-se à própria natureza do órgão, que está normalmente preenchido com uns quantos dinossáurios do concelho, em conjunto com alguns candidatos frustrados a vereadores e outros, membros de juventudes partidárias, com desejos inexplicáveis de protagonismo. Ou seja, o Presidente da Câmara vai passar a viver numa Zona de Caça, à mão da imaginação ressabiada dos pequenos coitos senhoriais que sobrevivem nos vários concelhos do nosso país. Junto a isso, e vendo a intenção da diminuição dos executivos, o que vai sobrar é mais trabalho e mais responsabilidade nas mãos de menos gente, o que um escrutinador como a Assembleia Municipal, já se pode ver bem que o que irá acontecer é a total "cubanização" do sistema.

Em suma, a verdade é esta: a um sistema que funcionou sem problemas de maior durante 23 anos (1976-1999) e ao qual foi adicionado o seu grande factor de desestabilização com a possibilidade de participação de listas de independentes em 1999, acção patrocinada pelo Bloco Central e aproveitada pelos seus rejeitados (vide os casos de Fátima Felgueiras, Isaltino Morais e Valentim Loureiro), invoca-se agora uma alteração que, a meu ver, nada trará de positivo para o eficaz desenvolvimento da acção governativa das autarquias.
P.S: Na foto, retrato-robô do futuro candidato-tipo às Presidências de Câmaras Municipais.

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

A Associação Comercial do Porto e o Aeroporto de Lisboa (sim, isso mesmo, leram bem...)


Sou só eu que acha estranho que não se questione o porquê do estudo sobre um novo aeroporto de Lisboa encomendado pela Associação Comercial do Porto? Não deveriam estes senhores encomendar estudos sobre aeroportos na Região do Porto?

Pelo que se pode ver no site deles, em questões de lobbying e representação, são estes os seus objectivos:

"Enquanto Câmara de Comércio e Indústria, e para além dos serviços que disponibiliza, a ACP-CCIP assume a representação de interesses e a reflexão estratégica como sua natural vocação, ajudando a formar opinião e influenciando decisões que determinam o destino da sua comunidade.
Participa e representa a Região do Porto nos principais fóruns e centros de influência e decisão nacionais e internacionais, estabelecendo redes de contactos no sentido de reforçar e potenciar a sua capacidade de intervenção política.
Entre outros, é membro da Câmara de Comércio Internacional, da Eurochambres e da AICO - Associação Ibero-Americana de Câmaras de Comércio, mantendo canais privilegiados de contacto com Missões Diplomáticas e Gabinetes de Promoção Comercial e Turística.
Promove inúmeras iniciativas e emite recorrentemente Posições Públicas e Documentos de Reflexão.
O Conselho dos 24 e o Conselho Geral da ACP-CCIP - órgãos de consulta da sua Direcção - são constituídos por antigos Directores da ACP-CCIP e por outras personalidades representativas dos diferentes sectores de actividade da região."

Acho que poderiam acrescentar: ah! e para além disto tudo, defendemos um aeroporto no Montijo. Quanto a Pedras Rubras, que se lixe...

terça-feira, 27 de novembro de 2007

Sonhar acordado


Sair de casa no Bairro de Alvalade e apanhar este autocarro para o escritório, todas as manhãs.

sábado, 24 de novembro de 2007

Para Noel (Paulo Ferraz)

Perfeitas em peso e
medida, duas obras
do gênio me tocam:
são as portas sem trancas
que cedem com um simples
toque (ou, se alto o porre,
com um tombo) e essas louças
para mijar. Nossa,
chegar sem sentir as
pernas, dar de testa
com a parede, abrir o
zíper e observar o
dourado no ralo
não têm tradução!

Paulo Ferraz

Gonçalo M. Tavares na Livrododia

No próximo sábado, o Gonçalo M. Tavares vai voltar a estar na Livrododia. Para muitos, poderá ser apenas mais um evento cultural que organizamos na cidade de Torres Vedras, no entanto, para mim, esta vinda tem um sentimento especial porque marca um ciclo na vida desta livraria.

O Gonçalo foi o primeiro autor de expressão nacional a fazer uma sessão de autógrafos na Livrododia. Foi no dia 19 de Novembro de 2005. Estavamos abertos ao público há pouquíssimo tempo e era a hora de começar com a nossa programação, cumprindo aquilo a que nos tínhamos proposto, trazendo autores à cidade. Convidar o Gonçalo foi uma opção relativamente fácil, já que é um dos meus autores preferidos, daqueles de quem tento ler tudo o que há disponível (e sabe-se o quanto no caso do Gonçalo isso é difícil). Na altura, também já tinha contagiado o Francisco e a Paula com o entusiasmo pela escrita do Gonçalo e pela sua colecção de Senhores, e então, aproveitando o lançamento do Senhor Krauss, conseguido o seu contacto através do Sr. Punilhas, vendedor da Caminho, chegou aquele que foi, para mim, um grande dia.

Estava bastante nervoso, era a primeira vez que recebíamos um autor, estava uma tarde fria de Novembro, a livraria era pequena, bem, tudo concorria para a incerteza em relação à sessão de autógrafos. Aquando da sua chegada, a simplicidade do Gonçalo foi desarmante. Acabou por ser ele a acalmar-me em relação às expectativas e aproveitou para se passear pelas prateleiras do nosso cantinho e levar para casa um exemplar do Apenas uma narrativa, o livro do António Pedro na velhinha edição da Estampa. Desse dia, ainda antes do início da sessão, relembro um curioso episódio, quando o Gonçalo foi efusivamente cumprimentado por um jogador de hóquei do Académico da Amadora que passava à porta da Livrododia em direcção ao Pavilhão da Física de Torres, mesmo ali ao lado.

O encontro desse dia correu muitíssimo bem, não apareceram muitas pessoas, mas a conversa prolongou-se no Café Império que ficava logo ao lado da livraria. Falou-se dos livros, das edições, das crianças. Ficamos todos contentes. Agora, no próximo sábado, vamos voltar a ter o Gonçalo M. Tavares connosco, desta vez na Livrododia - Centro Histórico, e desta vez será o último evento que vamos realizar no ano de 2007. O encontro com o autor vai marcar a série de eventos que organizámos este ano, desde a presença da Inês Leitão, em Março, passando pelas provas de vinho, os concertos de Jazz, o encontro de escritores de Torres Vedras, a Árvore da Ciência, o lançamento de vários livros editados por nós. Passados dois anos, crescemos, aprendemos imenso, tivemos todo o tipo de experiências que nos permitem não já sentir o nervosismo do início, mas a certeza que estamos a fazer o nosso caminho como uma livraria de referência, com dois espaços na cidade, com procura da parte de várias escolas para a realização de Feiras do Livros (este Natal vão ser sete!), com a apresentação de um catálogo sério e preenchido na nossa actividade editorial.

São muitas canseiras, muitas noites perdidas, muito stress acumulado, muitas discussões, mas no fim, estamos seguramente muito orgulhosos do que temos vindo a fazer nestes últimos dois anos. E no dia 1 de Dezembro à tarde, lá estaremos, com o Gonçalo, a festejar isso mesmo.

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Lixo

Não, não sou assim teimoso, nem tenho a cara verde, apenas esta luz, dentro do quarto que frio, esta maneira de dizer as coisas umas seguidas das outras, como se trocasse o posto de rádio a cada frase quase feita, puxar a manta para me aconchegar do frio, romper a manhã com os meus dedos, buscar infinitamente o ponto-de-vista que imagino enganado - mas afinal sou eu que me escondo ou ninguém me vê mesmo, passível de ser trocado a cada instante por, sei lá, uma música melhor que a minha.

Mas não, esta não é a minha vida, apenas uma maneira como as outras de começar um romance que não passará nunca da primeira página, eu sentava-me numa livraria pequena que conheci a ler primeiras páginas, fazia montes de livros sobre uma mesa onde havia o cinzeiro e depois saía, deixando o monte de livros por arrumar, estou certo que alguém esperava religiosamente a minha saída para voltar a ordenar os livros, todos os livros da história da humanidade - é para isso que servem as livrarias, os livreiros - estou certo que era alguém, mas eu agora não sou capaz de dizer quem.

Não, não sou assim teimoso, esta minha mania de repetir as coisas como as outras, tanto faz preto ou branco não quero saber, deixei-te na carteira um bilhete de autocarro já usado, quero que te lembres de mim quando chegares a casa, a roupa molhada estendida faz dias, o Pedro Eiras sentado num sofá a alinhavar versos numa tela só de letras, uma revista Cruzadex deixada ao meu lado no comboio, o homem que ressonava, esta minha mania de repetir as coisas, eu sou como os outros, como os outros, não sei, e tenho medo, do que te possa ter feito pensar de outra maneira.

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

The Carpenters - Rainy Days and Mondays

Ainda o acordo ortográfico

Tem-se referido, só para citar dois exemplos, que, em Portugal, passará a escrever-se "fato" em vez de "facto" embora se pronuncie o c , por uma questão de renúncia face aos brasileiros que escrevem e dizem "fato". E, ainda, que «os portugueses deixarão de escrever "húmido"; para usar a nova ortografia - "úmido".» , em atenção à tradição ortográfica do Brasil. Nada de mais falso.


O texto inteiro, da linguista Irma González, aqui

Porto (uma vez mais)

Nunca as viagens de comboio foram pautadas por tanto sono e esse é um sinal bem forte de que tenho andado a dormir pouco. Ainda assim, houve tempo para ler do princípio ao fim O Último Minuto da Vida de S., a novela escrita pelo Miguel Real e recentemente lançada na Quidnovi. É um livro de leitura rápida, por sinal possível de se ler no Intercidades entre Lisboa e Porto. Apostando numa linguagem construída, algo a que já nos habitou o autor, este livro fala-nos de um flashback da personagem no momento em que se apercebe da sua morte (após a detonação de um explosivo na avioneta). Sendo a personagem Snu Abecassis e o ambiente a evolução do Portugal do Estado Novo para os primeiros anos da Democracia, o tema é suficientemente atraente para se tornar numa agradável leitura. Não traz nenhuma intenção polémica, na minha leitura. É um documento da visão de uma mulher no país que temos.

Na volta do comboio, o sono ganhou aos livros. Enquanto ia espreitando dois livros de poesia que viajaram comigo, deixei-me levar pelo balanço da carruagem e pus em dia um sono que andava ao abandono. Na verdade, soube-me muito bem deixar-me assim levar pelo inevitável, e perceber, no fim, que aquilo que o corpo pede não pode ser esquecido, já que os seus avisos retornam, sempre, com uma insistência maior e mais vital que os anteriores.

Falo de sono e esqueço o que terá sido mais importante destes dois dias da viagem ao Porto. A tarde de sexta-feira foi passada a descobrir o Porto a pé, juntando finalmente no meu mapa mental três ou quatro pontos do Porto onde tinha ido de carro, agora que os vejo tão próximos uns dos outros. Ao chegar ao Porto percebi desde logo que o frio tinha chegado comigo ( ou teria sido eu a chegar ao frio? Não sei...) e isso é um daqueles bons presentes que me podem dar. Estava um dia brilhante de sol fresco, o ideal para me ir perdendo por várias ruas da cidade, a encantar-me com os nomes das lojas, os edifícios que vão caíndo ao sabor das vontades de donos com ideais de construção renovada. O Porto está, felizmente, cheio de uma vida familiar e fortemente ligada às redes de conhecimento e de contacto, o que faz desta cidade um dos bons lugares para se viver. Passeia-se pelas ruas e sente-se que algo de familiar nos toca, seja pelo desenho da cidade, seja pelo contacto com as pessoas. Ser do Porto é como ser de uma grande família, que nos aconchega e nos repreende. E apesar dos sentimentos contraditórios que isso possa dar a entender, estar no Porto de passagem é sempre muito muito bom.

À noite, a apresentação do livro. Tenho que agradecer à Márcia Barbosa que aguentou estoicamente o frio desta noite de sexta-feira (é maldade o balcão da livraria estar assim à mão do frio) e tornou possível a apresentação. E tenho que agradecer também ao Pedro Eiras a disponibilidade e o brilhantismo que emprestou ao meu livro durante aqueles minutos em que falou dele. Cada livro, para ser um verdadeiro livro, tem que ter um leitor assim, que o lê nas várias possibilidades do discurso e o entende como um todo criado por um autor. O que posso dizer é que ele deu ao meu livro a possibilidade de o ser, e estou-lhe eternamente grato por isso. Foi também bom rever algumas caras conhecidas e partir entretanto em busca da noite para um quarto andar da Rua do Coliseu, o Espaço Maus Hábitos, que é daqueles lugares em que dá vontade de voltar regularmente.

Ao voltar a casa, o tempo pareceu pequeno para a ida e volta. Fica, como sempre, a vontade de parar, por ali.

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

Uma questão de língua

Volta à ordem do dia a discussão acerca da língua portuguesa com o anúncio de intenções do Governo Português em avançar para a ratificação do Protocolo Modificativo do Acordo Ortográfico. APEL e SPA colocam-se na linha da frente para combater esta medida que, segundo argumentos apresentados no Público Online, será prejudicial para o ensino da língua, para o posicionamento de editoras portuguesas no mercado dos PALOP e, ainda, contrário ao esforço que tem vindo a ser desenvolvido pelo Plano Nacional de Leitura.

O que a APEL e a SPA não perceberam, com toda a certeza, é que o inevitável não se trava com o acessório. Os 15 anos de silêncio que são referidos na notícia são 15 anos de oportunidade perdidos, pensando que se poderia estar a entrar numa nova era da edição portuguesa com todas as ferramentas preparadas para estarmos presentes em todos os países de língua oficial portuguesa. Não foi, na minha opinião, o Acordo Ortográfico que parou, foi, claramente, o conjunto dos agentes da edição que fizeram por o esquecer, mostrando-se agora surpreendidos com o que há muito era esperado.

Alegrem-se, pois, os falantes da língua. Vamos finalmente ter uma língua portuguesa universal e abrangente, que nos colocará a par dos falantes das outras línguas europeias que se expandiram pelo mundo e vamos deixar de ter na nossa língua, a pose colonialista de Academia que fala diferente dos demais.

Homens da Luta


Os Homens da Luta - Neto e Falâncio - interromperam o treino da Selecção Nacional de Futebol incentivando os jogadores a dedicarem as vitórias "aos desempregados e a quem ganha pouco".
Foi preciso a provocação extrema destes dois actores para trazer de volta o discurso social para o mundo do futebol. O glamour, as jóias e as histórias cor-de-rosa continuam dentro de momentos.

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Trabant - 50 anos




o carro

terça-feira, 13 de novembro de 2007

blogues supostamente bons que na nossa imaginação poderiam ser muito melhores

Bara Bröst, é como se chama.

Não percebendo eu patavina de sueco, posso no entanto dizer, já que vi por interposta pessoa anunciado, que se trata de um blogue criado por um grupo de cidadãs suecas que reivindicam o seu direito a fazer topless nas piscinas da, infelizmente, longínqua Suécia.

Solidariedade, alguém?

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

No Porto



A Livraria Index do Porto e a Livrododia Editores convidam-no para a Sessão de Apresentação do livro E como ficou chato ser moderno de Luís Filipe Cristóvão. A sessão realiza-se no próximo dia 16 de Novembro, sexta-feira, pelas 21h30, e contará com a presença do autor e de Pedro Eiras, que apresentará o livro.

A Livraria Index situa-se na Rua D.Manuel II, 320 (junto ao Jardim do Palácio de Cristal), na cidade do Porto.

sábado, 10 de novembro de 2007

par example...


Mon chat le plus bête du monde, de Gilles Bachelet, Éditions Seuil Jeunesse

os franceses

os franceses apanham aviões de madrugada com destino a Lisboa onde se queixam do calor. os franceses apanham táxis (e os taxistas, que eu saiba, nem sempre são muito simpáticos, nem sequer conhecem o Fernando Pessoa). os franceses encontram-se em salas onde sorriem perante as memórias de passados encontros em Paris ou em Frankfurt. os franceses fazem contas. os franceses têm dinheiro. os franceses sentam-se à mesa de restaurantes a falar daqueles que não são franceses. os franceses preocupam-se com a sua filosofia. os franceses preocupam-se com a filosofia dos outros. os franceses preocupam-se com a forma como a filosofia dos outros trata a sua própria filosofia. dos franceses que vivem em portugal, nem todos são franceses (temos belgas, por exemplo, belgas que são como os franceses, não belgas dos outros). os franceses não acreditam como se aguenta aqui com o que se ganha por cá. os franceses têm tempo. os franceses têm visão. os franceses já não dão assim tanto o corpo ao manifesto. os franceses gostam de descansar. os franceses gostam de se divertir. os franceses fazem coisas lindas. os franceses estão convencidos que todos nós devíamos ser como os franceses (e, pelos franceses que conheço, até me parece que não seria mal de todo). os franceses são fixes.

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Da leitura de E como ficou chato ser moderno por Rita Faria

É uma poesia adolescente, no sentido em que parece ali haver muitas memórias de adolescente. Gostei muito desta reminiscência – a lembrança de um tempo em que os dias eram mais longos, com mais tédio, com mais problemas simples, com mais dúvidas, com mais domingos, com mais desgosto, com mais desilusões amorosas, e também com muito mais simplicidade.

O ritmo da poesia também me encantou – lento, pausado, quase aquele ritmo confortável da rotina do quotidiano. Escrevo isto porque li cada poema, como disse, com muita calma, quase como se estivesse a ouvir o matraquear dos dedos nas teclas da máquina (ou computador, o que será mais provável nos dias de hoje) ou até mesmo o som do lápis de carvão no papel – um som que não oiço há anos. Era o próprio poema que impunha esta serenidade, talvez pelos versos, em geral, se alongarem, de modo que este ritmo tranquilo se transferiu para a leitura. Lembrei-me de dias de sol passados aqui nesta cidade e do silêncio da hora de almoço, em que as lojas fecham e não se vê ninguém na rua – as pessoas estão ocupadas nas suas pausas pessoais. E há uma certa felicidade nesta calmaria morta.

Um dos poemas que mais gostei foi Terreno. Fez-me lembrar um outro terreno, também baldio, também ao pé da casa de um avô (o meu, neste caso), ocupado por mim e pelo meu irmão. Todas as tardes lá íamos, não só para o encher de ficções (muitas delas importadas dos desenhos animados na altura, e eu adoro pensar nesse momento da minha vida em que os desenhos animados assumiam uma importância estrondosa), mas também para observar, estudar e manipular uma velha e ferrugenta bomba de água que ali jazia. O meu avô garantia-nos que a terra estava seca, que ali já não havia água nenhuma; porém, quando o meu irmão e eu decidimos tentar, e depois de longos minutos a dar à manivela (os braços doíam-nos já, latejavam), veio finalmente um fio de água fresca, gelada, dos gemidos enferrujados da velha bomba. Aquele fio de água era a glória das nossas aventuras.

Depois, talvez por estar embaladas nestas memórias de infância, sempre tão melancólicas, mais até do que propriamente felizes, gostei muito de A Minha Família. Pensava que era só eu que tinha este sentimento meio triste de a família ser mais um, mais um, mais um, de nos amarmos mas não percebermos, não porque nos falta amor, mas sim porque nos falta alfabetizar o coração (!) – afinal não estou sozinha. Não há mais nada que eu possa acrescentar a estes versos – são a consumação daquilo que a poesia pode fazer por nós, que é verbalizar o que nos é tão difícil de explicar mas que percebemos tão bem.

Gostei muito. É um livro bonito, silencioso, calmo, bem escrito. A frase da contracapa (enfrentar um poema é como visitar um país estrangeiro) fez-me lembrar, talvez por estar influenciada por estas recordações do passado, da frase com que L.P. Hartley inicia um livro que adorei, e que também se baseia na memória, na lembrança, no presente e no passado, The Go-Between: the past is a different country. They do things differently there. Fazem mesmo. E nos poemas também. E ainda bem. Dizia o Almada Negreiros que a salvação não pode estar nos livros. E na poesia?

A Rita Faria é amiga do Lourenço Bray e vai publicando n' O Nascer do Sol alguns dos seus textos. Eu gosto muito de a ler e, num jantar onde nos encontramos os três, pedi-lhe para escrever algo a partir do meu livro. Aqui está o resultado. Obrigado, Rita.

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

rua


Travessa do Quebra-Costas, Torres Vedras

terça-feira, 6 de novembro de 2007

correntes - 161

"I didn't want to tell you this way, yelling it, and I'm sorry I did, but I'm tired of hiding. I'm a lesbian, and Roxy and I, we're not just friends like you think, we're-"

Nancy Garden, Hear us out! Lesbian and Gay Stories of Struggle, Progress, and Hope, 1950 to the Present, pág.161

confuso, à noite

a minha estrada é um carro que sobe depois da planície, em busca de encontrar de novo o plano de poder ver tudo sem obstáculos. a minha estrada. tenho evitado repetir-me - e talvez não esteja a ser assim tão evidente, mas, tenho evitado. no entanto, o relógio é mais forte que a minha mente. e a resposta tem sido, sempre, dia a dia, o renovar da capacidade de engolir, em silêncio, o resto de comida que me é colocada no prato. malavita esta, hein? o relógio a aproximar os seus ponteiros da frente do meu carro, estrada esta a subir, talvez só a um andar mais alto, antes que o elevador se avarie, na hora em que não houver mais ninguém no prédio e o telemóvel estiver sem bateria.

não, não sou pessimista - aliás, atendo a tudo isto com um sorriso leve e os cabelos suficientemente despenteados para parecer que o vento me acaricia a face. este ano o outono ainda não trouxe nuvens, nem suficiente frio para sacar o cachecol da gaveta do armário. este ano nem sequer a literatura parece trazer grande conforto. desde que arranjei este emprego mais exigente que voltei a gostar do natal. anseio há mais de um mês a noite de consoada, o sossego de não ter restado nada mais a fazer no escritório. e se até lá escrevo aqui, é só para fingir, só para não se perceber, que não há nada mais o que dizer.

sábado, 3 de novembro de 2007

Histórias de Torres Vedras - John Gideon Millingen

Todos conhecem a belíssima vila de Vale da Mula. Pois bem, eu sou o seu indigno cura. No outro dia, tinha eu ido ver o meu velho tio a Alfaiates, quando ouvi que estes malandros Franceses andavam a percorrer o país. Tinha deixado para trás a minha sobrinha, Maria das Chagas - Santo António a abençoe – e sabia que ela não tinha hipótese com aqueles amaldiçoados vagabundos – e lá voltei eu. Mal tinha chegado à entrada da vila quando fui informado que umoficial dragão francês e os seus quatro comparsas tinham chegado para exigir dez mil rações e um tributo que, se não fossem fornecidosem vinte e quatro horas, o pobre Gomes Pinto, nosso juiz de fora, seria enforcado na manhã seguinte, quando a brigada avançasse. De seguida, soube que este sujeito se tinha alojado em minha casa – sem dúvida pensando que um pobre sacerdote mantinha uma boa mesa euma bonita sobrinha – e não estava errado de todo; que fazer? Era de noite e pensei que a pobre senhora das Chagas devia estar a precisar da Senhora dos Aflitos. Fui ter com o meu primo José da Silva, o farmacêutico, e disse-lhe que estavam apenas quatro franceses em minha casa e que era bem capaz de tratar deles. Dito isto, pedi-lhe uma onça de arsénico branco, uma pistola, umas quantas preces elá fui eu.
Dirigi-me primeiro ao estábulo, para deixar a mula – chamei o meu moço João, mas não fui capaz de encontrar o diabo do rapaz: sem resposta, e não admira, pois ao abrir a porta do estábulo lá estava o João, pendurado pelo pescoço. “Começam bem”, disse eu; “é esta a vossa filantrópica protecção! Veremos como isto acaba”.
Subi as escadas e que foi que eu vi senão este infernal oficial francês sentado à minha mesa, com a Maria a seu lado, bebendo o meu melhor Borba e mastigando os meus bolos – bolos que me foram enviados pela minha prima, a abadessa de Pinhel – e que bolos! Em toda a Beira não se faziam outros assim! Dei ordem à minha sobrinha para que preparasse o jantar para o meu hóspede– ele empurrou-me para fora da sala dizendo que a minha sobrinha não era nenhuma cozinheira e que me cortaria ambas as orelhas se não lhe apresentasse imediatamente uma malassada, enquanto os seus exuberantes camaradas juravam que me lançariam ao rios e não lhes desse mais vinho. E eu dei-lhes vinho – correctamente adoçado com o açúcar refinado do primo José. Eles estavam num anexo, a certa distância, e, depois de lhes servir a sua dose, dei a volta à chave e deixei-os a apreciar a bebida.
Não havia tempo a perder – fiz uma tortilha e levei-a ao capitão,que havia sentado a Maria no colo e tinha a imprudência de a beijar diante de mim; mas o que me vexava mais era pensar que ela não parecia achar esta conduta inapropriada.
“Jesus, Maria, José!”, exclamou a rapariga atrás dele, benzendo se.“Deixa lá isso,” continuou o sacerdote, “deixa lá, já passou” – e o dragão devorou a sua malassada, e depois bebeu mais do meu precioso Borba, e pediu mais bolos. Ele estava desarmado, o sabre e pistolas estavam na mesa de entrada – por isso fui buscar um cesto de bolos e coloquei-o diante dele; então, deu outro beijo à Maria e mandou-me para a cama ou para o inferno – o que me fosse mais conveniente.(...)

Nota: Histórias de Torres Vedras é um volume de contos publicados originalmente em Inglês, no ano de 1839. O autor, John Gideon Millingen, fez parte do Exército Inglês presente em Portugal durante as Guerras Peninsulares.
Título: Histórias de Torres Vedras
Autor: John Gideon Millingen
Tradutor: Justa Barbosa
Editora: Livrododia Editores

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

para um primeiro capítulo ou para um primeiro poema

talvez seja chegada a hora de vos contar como começam as ideias dentro das cabeças dos poetas que escrevem poemas. humm. murmuro baixinho testemunhos falsos sobre muitas e variadas coisas. páro espantado a olhar a porta de uma igreja. arrumo todas as fotografias e classifico-as segundo uma ordem que desconheço. compro um pack de cervejas mini. tapo o nariz se alguém fuma ao meu lado na rua. rompo o pacote dos rolos de papel higiénico que comprei no hipermercado. fujo de mim a toda a hora. fujo de ti a todas as horas. abro o jornal desportivo na página certa, para conferir o horário da transmissão. conto as moedas com os dedos das duas mãos. conto-vos como começam as ideias dentro das cabeças dos poetas que escrevem poemas.

sete horas

voltava a casa era de noite, diariamente, assim fazia. os tons da rua eram outros, outros os cheiros e os sons, as caras com que se cruzada. de noite, voltava a casa. onde antes havia a luz a entrar pelas janelas, agora apenas o escuro, não aquele que se guarda entre os livros espalhados sobre a mesa da sala, mas o escuro que envolve todas as coisas. como dizer, a noite, como dizer este frio que nos rompe mesmo os casacos e se agarra à nossa pele. sim, essa noite, esse frio. não era uma sensação muito poética. apenas a notícia de que chegado o outono as pessoas vão para casa mais cedo, ou se mantém a mesma hora, vão para casa mais caladas, nesse silêncio que não se encontra só nas palavras, mas o silêncio da casa, dessa mesma casa escura, onde ela voltava, agora, de noite.

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

assim se fazem encontros de escritores

para se ir a um encontro de escritores não é preciso acreditar em encontros de escritores, esta é uma verdade da qual eu nunca me vou esquecer. para se ir ouvir um escritor a falar, também não será preciso acreditar que os escritores falam. finalmente, para se acreditar que estes encontros existem, bem, a verdade é que eles existem e um deles realizou-se no passado fim-de-semana. atrevo-me a fazer um pequeno balanço, provavelmente para o recordar no futuro, quando voltar a ter que organizar um outro.

o encontro iniciou-se na sexta-feira de manhã, com leituras de contos para crianças em quatro escolas do concelho de Torres Vedras. sucesso total. as crianças deixaram-se envolver pelas contadoras de histórias e as professoras provaram um pouco deste encantamento que nasce nos livros. aposta ganha, a repetir sempre que possível, no futuro.
sexta-feira à tarde, conversa para graúdos sobre os miúdos - e o momento mais agridoce do encontro- uma mesa repleta de diamantes para uma plateia vazia. falou-se da avó da Ana Meireles e da influência que ela teve na forma de contar histórias da Ana, falou-se nos livros que o Zé António compra para os netos, falou-se na leve desilusão da Isabel Martins ao ter que encarar as forças do mercado, sentiu-se o realismo emocionado (ia dizer realismo mágico...) da Mafalda Milhões ao falar da sua experiência de todos os lados do livro (uff!) e pudemos aproveitar a presença da Dora Batalim para perceber como os livros para crianças podem ser livros para toda a gente e mais alguma, basta ter as antenas bem sintonizadas para as coisas que fazem mover as emoções. a esta conversa toda, ainda se seguiu um lanche na livrododia, para repor forças e para começar a acreditar que as coisas só podiam melhorar. e era verdade.
logo pela noite de sexta-feira, casa cheia na cafetaria do nosso espaço no centro histórico para me ouvir a mim, ao Mário Lisboa Duarte, à Rute Mota e ao Ozias Filho a ler poesia. Este quarteto funcionava aos pares. a Rute e o Ozias embalados pelo silêncio, com a Rute a ler exclusivamente originais e o Ozias a passear-se pela poesia brasileira, eu e o MLD num registo mais furioso, entre originais e traduções, produção própria e roubada aos melhores inventores de sensações em verso. não digo que foi um brilharete, mas tenho a certeza que agradamos a gregos e a troianos (o que nos tempos que correm...). e bem, mais uma vez, a seguir à seriedade da poesia, ainda houve tempo para nos passearmos até um dos bares da cidade. mas só para molhar o bico, porque o sábado estava logo ali.

o sábado começou cedinho, com a repetição das leituras para crianças na esplanada da livrododia, apanhando os pais e os miúdos que iam de passagem, mais uns quantos que já tinham reservado espaço na agenda para se virem sentar no nosso tapete a ouvir as aventuras da formiga, da cabra cabrês, do Willy Fogg, do Sr. Peabody e tantos outros... o coração estava apertado para a tarde (tendo em conta a falta de público da tarde anterior), mas ver a alegria e a atenção daqueles míúdos deixou-me mais confiante. e foi assim que a tarde se revelou cheia de surpresas. primeiro que tudo, conhecer pessoalmente (até que enfim!) o Paulo Bandeira Faria, um tipo cheio de graça e à vontade, embrulhados numa figura interessante e de voz baixa, que conquistou a atenção da plateia para a história do seu livro e para as suas aventureiras viagens. é disto que se fazem os escritores (e acho que não estou aqui a revelar nenhum segredo se disser que durante o jantar se falou das possíveis novidades do Paulo, em termos editoriais, e a sensação é de que vem aí ainda melhor). também não posso deixar escapar o contributo apaixonado da Inês e a lírica rasa à terra da Golgona, que cada uma ao seu estilo souberam incendiar na plateia uma vontade imensa de botar de discurso, o que se veio a materializar na mesa de debate mais concorrida do encontro. no intervalo dos debates, aproveitou-se para fazer a apresentação da Palavra Ibérica, iniciativa que junta o Ayuntamento de Punta Umbria, a Sulscrito, a Câmara Municipal de Vila Real de Santo António e a Livrododia, na organização de um encontro de escritores, de uma colecção bilingue dos dois lados da fronteira e de um prémio literário. o Fernando Esteves Pinto (no seu estilo de stand up amargurado) e o José Carlos Barros (que se viria a revelar como rei da festa) asseguraram comigo a apresentação. e logo se seguiu a última mesa em que a o Nuno Seabra Lopes, com a metafísica económica, fez uma caracterização certeira do mercado, o José Prata revelou-nos o intricado mundo das apostas e dos sucessos editoriais e o Miguel Real, em dia de lançamento do seu novo livro, teve tempo para nos dar uma lição sobre crítica literária no século xx. foi uma tarde inesquecível, onde os contactos e os conhecimentos que se proporcionaram auguram renovadas esperanças na possibilidade de encontros como este.

escusado será dizer que a festa ficou por aqui. houve jantar, houve conversa, houve bares e discotecas que prolongaram o acontecimento até ao raiar do sol. cada um à sua maneira contribuiu para o sucesso desta iniciativa e aos que ficaram, sobram agora forças e esperanças para a repetição de um encontro como este.

há que agradecer ao académico de torres vedras e à livrododia a organização do evento, à fundição de dois portos o patrocínio, à câmara municipal de torres vedras, ao hotel império e aos seguros nova torreense os apoios dados ao evento. eu, pessoalmente, tenho que agradecer sobretudo a todos aqueles, quer na organização quer entre os convidados, que vieram de coração aberto viver comigo estes dois dias tão cheios. a todos, o meu obrigado.

tornar possível esta vida - 3

poder, enfim, respirar de alívio

tornar possível esta vida - 2

sorrisos

tornar possível esta vida - 1

olhos que brilham

um Mayol apaixonado

Por estes dias, tenho-me deitado na companhia de Mayol, personagem principal d' A Viagem Vertical de Enrique Vila-Matas. Mayol percorre, nos capítulos iniciais, a sua vida em Barcelona, o café onde se angustia com a falta de interesse dos seus companheiros, a sua mulher que o quer fora de casa, os seus filhos que em nada o podem ajudar, aliás, com as suas opiniões mais o deprimem (ou oprimem), nesta altura da sua vida. Um dos seus filhos, o mais jovem, Julián, é um artista medíocre, em espera por uma inspiração que não virá, tentando buscar nos sonhos algo que ele não consegue perseguir na vida. Julián imagina que a sua obra-prima sairá de um dos seus sonhos e vinga-se na falta de instrução do pai para se escapar às suas parcas capacidades. Num dos seus passeios, logo no início do livro, Mayol guarda como trunfo a sua capacidade de se apaixonar por uma mulher que passa por ele na rua, para uma futura oportunidade em que o filho o tente rebaixar. Será essa, a atenção e a paixão, a arma com que vai ferir o intelectual seu descendente. E de facto, jogadas como esta, tão difíceis de descobrir, são, quase sempre, muito mais do que certeiras.

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

Pequeña Antología para el Cuerpo - Recensão

Por Filipa M. Ribeiro, na Edit on Web, recensão do meu segundo livro. Aqui.

rua manhã

Oiço os meus pés a caminhar pela calçada, fazem um som seco, um tanto oco. Sinto, pela observação da sombra, os meus pés a deslizar para fora do que seria o seu espaço natural, já que caminho em frente. Oiço os meus pés pela calçada (e aqui retiro o infinitivo, por me parecer demasiado óbvio aquilo que os meus pés fazem). É de manhã e o sol bate-me nas costas, aquencendo-me ligeiramente neste verão de outono. Algumas crianças correm dentro dos limites da escola, os carros estacionam em segunda fila e um homem salta de um camião de transportes que parece um tanto deslocado aqui dentro da cidade. É de manhã e eu desço pela rua, a olhar a minha sombra, a tentar reter (dentro dos seus limites naturais) o meu pensamento. Mesmo que isso soe difícil. Mesmo que isso seja apenas a minha forma de deixar os pensamentos fluir para fora das suas margens.

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Bom Ambiente

A Livrododia Editores e a Recarbon compensam emissões de carbono. A notícia está aqui.

Mister Mouse ou a Metafísica do Terreiro - Philippe Delerm


Onde o prazer físico aparece de repente como componente essencial do bem-estar dos terreiros.

Pois é, ficaram surpreendidos?

Mr. e Mrs. Mouse fazem amor, às vezes, enfim, com bastante frequência – quando se ama, não se anda a fazer contas. Isso já se sabe, responder-me-ão, nem era preciso dizer. É verdade, é preciso é que tudo saiba bem, muito bem, mesmo sem o dizer. Não há dúvida de que é por essa razão que não se fala nisso. Mas os pensamentos de Mr. Mouse revelam-se contraditórios. Tem muito orgulho neste croissant quente da sua vida o qual é preciso tratar pelo termo ridículo de sexualidade. Os sentimentos de Mr. Mouse neste capítulo ainda são dos mais burgueses: a melhor sexualidade é por definição aquela que não se apregoa em cima dos telhados. No entanto, um pouco por aqui, um pouco por ali, Mr. Mouse gosta de dar a entender que corre tudo bem com ele. Virilidade pretensiosa? Não, sinceramente, Mr. Mouse pensa que é bom não deixar para esses extravagantes ratos de Hollywood o apanágio de exaltar as delícias do corpo.

O amor de Mr. e Mrs. Mouse surge-lhes de mansinho e sempre como que de surpresa, no decorrer do dia. Já acompanha a recolha das amoras, os rituais da preparação da comida. É uma impalpável certeza colada aos gestos quotidianos, ao cheiro das maçãs no forno, ao tom arruivado da cerveja. Não são precisas palavras. Mr. e Mrs. Mouse sabem que vão amar-se. Mais tarde, na noite do terreiro, os gestos falarão: fissura ou harmonia, confi ança, humildade: são gestos importantes que convém não perder, sob pena de magoar. São gestos que chegarão como a montante do dia, carregados de infância reencontrada, carregados da própria vida, e de uma verdade secreta.

Secreta, sim. E no entanto… Mr. Mouse pensa que seria bom saber contar este longo modo de amar durante o dia que resplandece ao cair da noite e traz doçura á sua vida. Mas sabê-lo-iam as palavras? Simplesmente terá ele talento, coragem para falar nisso com verdade a Mortimer, a Jennifer, dentro de algum tempo? Quanto tempo? Amar é esconder-se, claro. Como é que se deve ensinar aquilo que se esconde? Mr. Mouse suspira. Mrs. Mouse está enroscada contra o seu ombro. Foi tão bom esta noite, e as crianças dormem tão descansadas no quarto ao lado.

- Porque está tão pensativo, Mr. Jeremy Mouse?


Título: Mister Mouse ou a Metafísica do Terreiro
Autor: Philippe Delerm
Edição: Livrododia Editores

não um diário de viagens

Não tenho muito jeito para diários de viagens, fico sempre demasiado tempo a olhar a paisagem sem fim, e se acaso o silêncio se apodera, o que eu procuro, são as palavras num livro trazido no fundo do saco e não a decifração desse silêncio em novas mensagens de poesia. Não tenho, definitivamente, muito jeito para diários de viagens. Prefiro conduzir o carro estrada fora, a estudar as margens do alcatrão e as linhas pintadas nos cruzamentos, aperceber-me pelas placas informativas da infinidade das terras que são pequenos pontos esquecidos nos mapas. Era esta a história do verão. Agora, chegou o outono. Ainda o sol, mas já a minha busca de camisolas nos baús da casa, estendal cheio de desejo de afastar o pó que se acumula.
Ainda a água, mas o cheiro do vinho novo pelas aldeias. Mas o fumo das castanhas a assar na minha rua. Mas a vontade de existir neste silêncio, neste bem-estar.

azul

dizia-se azul sem haver culpa
se ainda éramos crianças ou alguém
em busca de sonhos férteis pela noite.

dizia-se azul, a pele branca,
a marca de água a escorrer as costas
a ingenuidade de não ter nada a perder.

dizia-se azul, a noite escura,
apenas o brilho do desejo junto à cama
a sensação inacabada de poder sempre pedir mais.

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

barro

as minhas eram mãos de barro
pretendentes que ficam em juras esquecidas
mulheres despidas em quartos húmidos
familiares desconhecidos
uma estrada sem destino nenhum.

as minhas eram mães de barro
mulheres que choram no canto da casa
delírios de homens que não sabem escrever
primos que não nos falam
localidades sem código postal.

esta noite o frio no quarto

Esta noite o frio no quarto, a comichão na perna,
ignorar a insónia que se aproxima calmamente,
o corpo perdido pelos labirintos, o meu corpo,
ser capaz de murmurar meu pai e soltar o choro.

Esta noite o frio no quarto, a mesa desarrumada,
a televisão ligada no mesmo programa ignorante
e a rádio que vai ficando sem pilhas a desligar-se,
sem saber as horas, sem fechar os olhos.

Esta noite o frio no quarto, o delírio dos meus dentes
a inventar palavras rangidas insensatas,
o mesmo destinatário para toda a correspondência,
o mesmo rebolar sem sentido entre almofadas.

Outono, diziam

Já ameaçara, ontem. Sim, a chuva, o que mais.
Não, não posso ir jantar aí esta noite.
O trabalho, ainda o trabalho. Pois.
Pois. A verdade é que estou cansado.
Cansado de tudo isto, também.
Pego em qualquer livro e nada me anima,

o meu corpo é agora um gigante trôpego
a caminhar sobre umas pernas que parecem não lhe pertencer.
Não, não voltei a estar negro.
Não, não voltei a estar preocupado com coisas em que não devia pensar.
Simplesmente, estou assim.
E essa é, será, sempre a minha filosofia.

Talvez volte a não comprar um guarda-chuva este ano. Talvez volte
a não fazer de mim e de ti um jogo. Talvez eu possa continuar
a viver dos objectos esquecidos pelos outros, aqui, nesta cidade.

Outono, diziam. Eu fingia acreditar.
O cheiro da chuva sobre o pó,
o espirro que não consigo controlar.

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Primeiro Encontro de Escritores de Torres Vedras


Em primeira mão, a programação oficial do encontro. Estão todos convidados!

Encontro de Escritores de Torres Vedras
Organização: Académico de Torres Vedras
Produção: Livrododia, Editores e Livreiros
Patrocinadores:Fundição Dois Portos, Seguros Nova Torreense
Apoios: Câmara Municipal de Torres Vedras, Hotel Império

26 de Outubro

a partir das 10 horas
Leituras para Crianças nas Escolas
pelo Grupo de Teatro do ATV
EB1 Maxial * EB1 Freiria * Biblioteca da EB 2, 3 dos Campelos * EB1 Torres Vedras (Agrupamento de São Gonçalo)

15h30
Sessão de Abertura
Salão Nobre dos Paços do Concelho

16h
Mesa: Literatura para Crianças
com Mafalda Milhões, Dora Batalim, Isabel Martins, Ana Meireles e José António Gomes (moderador)
Salão Nobre dos Paços do Concelho

21h
Noite de Poesia
com Luís Filipe Cristóvão, Ozias Filho, Mário Lisboa Duarte e Rute Mota.
Livrododia – Centro Histórico

27 de Outubro

a partir das 10 horas
Leituras para Crianças
pelo Grupo de Teatro do ATV
Livrododia – Centro Histórico

15h30
Mesa: Novos Autores
com Cláudia Clemente, Golgona Anghel, Inês Leitão, Paulo Bandeira Faria e Luís Filipe Cristóvão(moderador)
Salão Nobre dos Paços do Concelho

16h40
Apresentação da Colecção Palavra Ibérica
com Luís Filipe Cristóvão, Fernando Esteves Pinto e José Carlos Barros.
Salão Nobre dos Paços do Concelho

17h30
Mesa: O Mercado dos Livros
com Miguel Real, Pedro Mexia, José Prata e Nuno Seabra Lopes(moderador)
Salão Nobre dos Paços do Concelho

20h30
Jantar de Encerramento
Hotel Império