segunda-feira, 11 de dezembro de 2006

luto luta

e vir dizer-te isto de uma forma que tu percebas que não é rancor nem toda a gente sofre o suficiente de forma até que eu próprio perceba que estou a ser justo já morreu tarde ou pensar de uma outra maneira que agora todos os minutos que lhe sobravam eram de dor morreu cedo e vir dizer-te isto de uma forma que tu percebas e que me permita dormir bem à hora que apagar a luz do candeeiro.

com o jornal em frente pus-me a pensar que quando eu era pequeno e ia à marisqueira com o meu pai pinochet era uma coisa que se bebia porque o meu país sempre foi muito atrasado dos cornos e sempre fez das piores bestas os amigos dos pobrezinhos e dos alcoolizados enquanto a malta comia uns tremoços e eu ficava com o meu sumol a ser puxado pela palhinha ainda uns anos antes de me passar outra coisa pela cabeça se eu tivesse vivido ali também tinha levado a minha pancada, pois é.

com o jornal em frente pus-me a pensar que houve uma série de pessoas que pensou que se podia fazer o bem custasse o que custasse e um monte de idiotas fardados a dizer aos pobrezinhos que vinha aí o monstro vermelho comer as criancinhas enquanto nos balneários do Estádio Nacional de Santiago se partiam dedos, se esborrachavam mãos, se arrancavam orelhas e unhas, se apagavam cigarros nas costas agora mais vermelhas desses vermelhos que seriam todos uns filhos da puta.

e vir dizer-te isto de uma forma que tu percebas mesmo à hora em que saio de casa e fecho o casaco porque está um frio imenso lá fora outro país qualquer e cairia neve noites inteiras e acendo um cigarro e desço pela rua do lado esquerdo dos carros que estão estacionados sem que ninguém me veja porque a telenovela o inverno ou as compras de natal para o fim-de-semana e me meta a caminho das ruas mais curtas a escutar pelas paredes o choro daqueles que não viveram o suficiente para dançar mais esta morte.

3 comentários:

  1. gostei muito.Um texto para dançar esta morte. Obrigada

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  2. Que seja julgado, mesmo depois do julgamento maior, mesmo depois destes últimos 10 anos em que a impunidade, finalmente, lhe acabara. Ainda não consigo dançar esta morte. Não me importa esta pessoa, importam-me os outros milhares de pessoas. Quando a justiça proferir a derradeira sentença, então aí estaremos todos de parabéns e poderemos, finalmente, dançar esta morte, numa homenagem a todas as outras.
    M.M.

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  3. bom, o texto; má, a ignomínia; mais ou menos, o frio.

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