sexta-feira, 22 de dezembro de 2006

casa de família

era do frio e do barulho dos motores a aquecer para a partida, boas festas toda a gente, a casa de família à distância e o carro cheio de embrulhos, todos os presentes que se ofereciam uns aos outros, troca de galhardetes, declaração de paz na guerra caseira, os olhares nos vidros cheio de gelo das manhãs e, sim, supostamente, era do frio e do barulho dos motores a aquecer, não poderia ser de outra coisa.

como uma voz que debita, baixinho, ao ouvido, uma oração aos homens que ficaram presos na terra seca, a ver sobrevoar sobre si as balas que matavam os pretos e com que os pretos matavam os que de cá partiam, sim, cá, dizer cá como se fosse um lugar certo, a casa de família à distância e o corpo cheio de cicatrizes, não só a pele, sobretudo a cabeça, o pensamento, o amor que se tem às pessoas, como uma voz que debita, baixinho, ao ouvido.

era do frio e do barulho dos motores a aquecer, o casaco bem fechado até ao queixo, o gorro milimetricamente enfiado para tapar as orelhas, e mesmo assim, fosse do frio, da música, do barulho ou das outras pessoas que se preparavam para entrar no carro, a mesma recordação de sempre, cicatriz no cérebro, das balas como cartões de boas festas na altura de correr e entrar no navio que o haveria de trazer, sim, até ao frio e ao barulho dos motores a aquecer, a casa de família.

2 comentários:

  1. Feliz Natal Luis, tudo de bom, kiss X

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  2. é do frio e do barulho dos motores ,a sensação de ler excitantemente as palavras certas para uma noite em que julgava não voltar a aquecer, sem carro, sem sonhos , sem nada...de especial.
    Mi casa es tu casa...
    gracias amigo

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