sábado, 30 de dezembro de 2006

paragem

apagou a luz da sala e deixou o disco de fados a correr, aos saltos de agulha conforme aos riscos da sua própria vida, era isso que imaginava, ali, no escuro, a ouvir a voz de um homem forte como ele, com lágrimas como ele, cansado e farto de toda a vida como ele, cheio de esperança, assim, como ele.

do escuro só a ponta avermelhada do cigarro se via, os seus gestos eram agora quietos e a respiração confundia-se com os riscos no disco, os saltos na cantiga do fadista, esforçado que estava a tentar falar de algumas coisas que só os homens percebem, quanto se tem certa idade e se apaga a luz da sala.

fazer balanços? pensar em passados? para quê? não, não estava preparado para esses dramas de final de ano, nem para promessas sem sentido que tinha por costume fazer na juventude. a luz apagada, o fado a correr, e na sua cabeça a imagem que tinha dele próprio, dentro de um elevador, quando se viu de cabelos brancos por inteiro.

o fado a correr e o cigarro quase a apagar-se. não é esse o tempo da vida mas é esse o tempo de um texto, um texto que se escreve a ouvir um fado pelo meio da madrugada. os olhos fechados e essa imagem, de uma velhice que se anuncia ou talvez tenha chegado já. e o que restará, para além do brilho desses olhos chorosos, é a voz, não de homem, mas de um rapaz que adormece.

sexta-feira, 22 de dezembro de 2006

casa de família

era do frio e do barulho dos motores a aquecer para a partida, boas festas toda a gente, a casa de família à distância e o carro cheio de embrulhos, todos os presentes que se ofereciam uns aos outros, troca de galhardetes, declaração de paz na guerra caseira, os olhares nos vidros cheio de gelo das manhãs e, sim, supostamente, era do frio e do barulho dos motores a aquecer, não poderia ser de outra coisa.

como uma voz que debita, baixinho, ao ouvido, uma oração aos homens que ficaram presos na terra seca, a ver sobrevoar sobre si as balas que matavam os pretos e com que os pretos matavam os que de cá partiam, sim, cá, dizer cá como se fosse um lugar certo, a casa de família à distância e o corpo cheio de cicatrizes, não só a pele, sobretudo a cabeça, o pensamento, o amor que se tem às pessoas, como uma voz que debita, baixinho, ao ouvido.

era do frio e do barulho dos motores a aquecer, o casaco bem fechado até ao queixo, o gorro milimetricamente enfiado para tapar as orelhas, e mesmo assim, fosse do frio, da música, do barulho ou das outras pessoas que se preparavam para entrar no carro, a mesma recordação de sempre, cicatriz no cérebro, das balas como cartões de boas festas na altura de correr e entrar no navio que o haveria de trazer, sim, até ao frio e ao barulho dos motores a aquecer, a casa de família.

segunda-feira, 18 de dezembro de 2006

qualquer coisa noite

qualquer coisa noite, ainda, e ele um café expresso na mão enquanto na rua dezenas pessoas num sobe e desce a rua, luzes de natal, casacos de peles e música de fundo um tanto irritante, sim, era isso. qualquer coisa noite, ele orientava-se assim, pelo que os olhos viam, mais nada, um homem e as suas sensações, nada de mais real, comentava, quando à noite fornicava uma das putas estrangeiras que frequentava.

já nasceu o deus menino, ao descer as escadas ele cantava para dentro, os olhos muito abertos e fixos no nada, o que ele via era um preto a correr na sua frente e depois um enorme clarão que tudo apagava, ele não se lembra bem de quê. já nasceu o deus menino, ele a cantar por dentro, e o natal em áfrica era uma coisa com muita cerveja e a televisão a passar os soldados daqui e de lá, ele sempre se sentiu um tanto excluído, não sabe bem porquê.

noite, noite, era de noite, sim, quando o preto a correr na sua frente e mais nada. no ficheiro que veio dentro de um dossiê, muito apertado debaixo das axilas suadas dizia tonturas, alucinações, espamos violentos. ele não sabia bem porquê. lembrava-se do preto e de ser natal, sim, e o clarão não tinha sido bomba nenhuma, o corpo dele continuava o mesmo. sim. o preto a correr e o pânico de matar alguém a disparar por dentro, sim, qualquer coisa de noite, luzes de natal, luzes de natal, sim.

segunda-feira, 11 de dezembro de 2006

luto luta

e vir dizer-te isto de uma forma que tu percebas que não é rancor nem toda a gente sofre o suficiente de forma até que eu próprio perceba que estou a ser justo já morreu tarde ou pensar de uma outra maneira que agora todos os minutos que lhe sobravam eram de dor morreu cedo e vir dizer-te isto de uma forma que tu percebas e que me permita dormir bem à hora que apagar a luz do candeeiro.

com o jornal em frente pus-me a pensar que quando eu era pequeno e ia à marisqueira com o meu pai pinochet era uma coisa que se bebia porque o meu país sempre foi muito atrasado dos cornos e sempre fez das piores bestas os amigos dos pobrezinhos e dos alcoolizados enquanto a malta comia uns tremoços e eu ficava com o meu sumol a ser puxado pela palhinha ainda uns anos antes de me passar outra coisa pela cabeça se eu tivesse vivido ali também tinha levado a minha pancada, pois é.

com o jornal em frente pus-me a pensar que houve uma série de pessoas que pensou que se podia fazer o bem custasse o que custasse e um monte de idiotas fardados a dizer aos pobrezinhos que vinha aí o monstro vermelho comer as criancinhas enquanto nos balneários do Estádio Nacional de Santiago se partiam dedos, se esborrachavam mãos, se arrancavam orelhas e unhas, se apagavam cigarros nas costas agora mais vermelhas desses vermelhos que seriam todos uns filhos da puta.

e vir dizer-te isto de uma forma que tu percebas mesmo à hora em que saio de casa e fecho o casaco porque está um frio imenso lá fora outro país qualquer e cairia neve noites inteiras e acendo um cigarro e desço pela rua do lado esquerdo dos carros que estão estacionados sem que ninguém me veja porque a telenovela o inverno ou as compras de natal para o fim-de-semana e me meta a caminho das ruas mais curtas a escutar pelas paredes o choro daqueles que não viveram o suficiente para dançar mais esta morte.

sábado, 2 de dezembro de 2006

seguimento

e então ele diz assim - dor de cabeça - talvez fosse do despertador mas que dia era hoje - que dia era ontem - quarta ou quinta-feira, de semana, trabalhar - levantar os pés e deitá-los ao chão, abaixo da cama - mas que dia era hoje e que dia era ontem - sobretudo, quem era ele, ali, ao teu lado, a dizer - dor de cabeça.

e então começava outra vez - um livro pousado em cima da mesa - a andar pelo corredor da casa como se fosse uma dança - porque não, não era dia de trabalho, era o telefone a tocar para o vizinho - era a voz da mãe a querer que ele viesse para a mesa - eram cinquenta e seis anos dentro de um pijama com ursinhos- era uma enorme mania de fazer sempre as coisas que lhe mandavam.

e então ele diz assim - dor de quê? - ele que é ele ali ao lado - dor de cabeça - uma maneira de surdez ou, como se diz, eu não percebo e não consigo interpretar os teus sinais - cabeça - na cama, mais ninguém acordado pelo prédio inteiro - um livro - e era ou não era dia de trabalho, o subsídio de desemprego caducado - foi apanhado a trabalhar - mas era uma voz - o despertador - a dor de cabeça.