sexta-feira, 3 de novembro de 2006

uva

havia uma uva em cima da mesa: e conseguir contar cento e quarenta e dois segundos depois do teu rápido olhar para o botão da minha camisa - perna traçada, cigarro apagado no cinzeiro, apesar de inteiro - roubar uma frase ou uma ideia à história da literatura e acabar, sinceramente, deitado numa cama cheia de roupa por lavar. mas regressemos ao início:

havia uma uva em cima da mesa: os dedos da mãe, delicados, a indicar o caminho da boca, as pernas estendidas debaixo da sala, conseguir correr mundo sem sair do meu lugar - ou então reiniciar o computador, capacidade de fazer memória ou tresler sempre aquilo que está escrito fora do nosso olhar: vais ser capaz de ser feliz, mas só dentro desta pequena jaula onde te vou prender, disse um dia o domador.

havia uma uva em cima da mesa: uma carta do pai, escrita ainda na velha máquina lá de casa, no tempo em que o pai escrevia poemas e corria a escondê-los dentro de grandes dossiês - uma carta do avô, escrita no tempo da caligrafia milimétrica, a condenar a existência da poesia e do vinho de má qualidade: uma uva, uma simples uva, retirada de um cacho à sorte, em cima da mesa, em cima da minha mesa.

1 comentário:

  1. fico quieta com tanta beleza.que coisa mais linda. que coisa mais linda. que coisa mais. que coisa. depois me manda uuma sítio d'além-mar?
    um mil beijos

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