quarta-feira, 22 de novembro de 2006

tosse [indo eu, indo eu, a caminho de hollywood...]

enquanto alguém sentado à mesa, que ficava um pouco acima do nível das restantes pessoas presentes na sala, tossia para o microfone, como se fizesse um teste de som, Enrique Vila-Matas entrava, fumando, fazendo-se notar pelo seu comprido sobretudo negro e pelo brilho da sua testa que parecia querer atingir os olhares de todos os candidatos a candidatos a escritores presentes naquela sessão.

a tosse era incómoda e algumas das pessoas pareciam demonstrar já vontade de sair e correr pelas ruas apertadas em que se situava aquela livraria-auditório escolhida para a encenação principal - fazer crer a alguém que, estando presente nesta sessão, pudesse vir, num futuro próximo, a apresentar-se como favorito de uma das maiores editoras comerciais do país. Enrique Vila-Matas era o autor convidado.

deixando de parecer um teste de som, a tosse era agora funda e cada vez mais insistente, talvez porque a pessoa que estava sentada na mesa, em frente ao microfone, não fosse bem uma pessoa, mas mais um escritor que, permanecendo incógnito, fingia ser um falso alérgico ao fumo, numa frágil encenação que mudou de tom quando se percebeu que ele era, na verdade, um verdadeiro alérgico ao fumo, principalmente dos cigarros que fumava Vila-Matas.

to be continued...

2 comentários:

  1. O copo de pé alto exalava um cheiro forte. Cheirava a chocolate. Chocolate quente. Não. Chocolate morno. Dele vinha também uma imagem. Uma imagem gulosa, fixante, forte. O televisor fixado bem no alto da parede acordava aquele pequenino mundo com as notícias. Notícias de gente. Lembro-me vagamente. Era qualquer coisa relacionada com a demolição de barracas clandestinas e pessoas que não tinham onde dormir naquela noite. Que importa. Não sei porquê, não faz bem o meu género, eu até gosto de ouvir as notícias, mas naquela manhã não liguei nada à verborreia jornalística do costume. Desliguei completamente. O chocolate quente. Não. Quente não. Morno. Esse sim, prendia-me o olhar. Não me conseguia ver a mim mesmo, mas tenho quase a certeza de que tinha os olhos vidrados nele. Prossegui o gesticular da ocasião. Abri o pacote de açúcar e remexi bem. Pouco a pouco o chocolate ia desaparecendo, desfazia-se no leite com café. Bolinhas sucessivas vinham à superfície e num silêncio mudo rebentavam, e desapareciam também. Todo o meu cérebro estava numa química exaltante. Prazer era o que era. Alguns minutos depois levantei-me, fui ao balcão, paguei a conta e fui à minha vida. Ainda me lembro que quando fechei a porta ecoavam pela sala as notícias de gente.

    ResponderEliminar