quarta-feira, 29 de novembro de 2006

teoria geral da literatura inclusa

uma grande explosão ecoava-lhe dentro da cabeça, uma grande quantidade de explosivos deixados dentro de uma das salas do quartel, uma sala onde já ninguém ía há alguns meses - quatro recrutas pelo corredor a afastar curiosidades e todos os outros a correr para as reuniões de célula cheios de barba por fazer.

uma grande explosão - hora de sesta, tudo quieto, um almoço parco como os outros, muito whisky sem qualidade [na altura era whisky o que havia em doses industriais, desviado da alfandega que, ou não funcionava ou funcionava mal, tanto faz] - hora de sesta, havendo quem ficasse a jogar às cartas na messe e quem gostasse de receber duvidosas familiares.

dizem-lhe agora ao ouvido - na cama do hospital - que umas quantas dessas marias vinham com a lição estudada- pândega de whisky, tudo à molhada, uma que no meio do adormecimento diz que a bexiga, onde é, onde é, sacam-se umas granadas- mas a única bexiga que tive espaço de encontrar casa-de-banho era a mais inexperiente e logo a sala de porta encostada.

dizem-lhe agora ao ouvido - o que ficou bom, o que dá para mais ou menos, que o outro está todo estilhaçado e só tem, em repetição, o mesmo ecoar do estrondo e algumas pedrinhas que ainda ficaram da parede - um estudo médico diz que o cimento e o gesso espalhados após uma explosão podem alojar-se impunemente dentro de um corpo humano.

daqui da mesa do café - bengala encostada à parede, jornal aberto na página do hóquei em patins, vê-se bem a rua [com o olho que funciona] e fala-se baixinho para não acordar mais ninguém da sesta que já não se consegue dormir. era assim como no tempo do antes de, alguns tipos que lhe dão os bons dias e outros que mais ou menos nem interessa.

daqui da mesa do café - onde palavra puxa palavra um dia entrou um rapaz novo, no meio da conversa que trabalha aqui e ali, disse-lhe que era órfão há muito tempo, não que se envorganhasse mas não gostava desses discursos, um dia a mãe e um quartel, e o ouvido que ainda dá para alguma coisa a ouvir aquilo, aquilo ou o som da explosão, não se sabe bem.

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