sábado, 25 de novembro de 2006

sobre deixar de escrever

alinho dois ou três pensamentos e as histórias começam a surgir-me ao ouvido, contadas por pequenas coisas que viram os meus olhos ou que senti na espinha quando passei da porta de casa. como aquela história de um escritor feliz que percorria corredores de livrarias a degustar os seus próprios livros, arrancando-lhes páginas e metendo-as à boca, originando assim, com a sua fome literária, vários romances fragmentários para a sua obra.

depois havia o outro, o que dizia ser diferente dos demais enquanto bebia uma gasosa com limão no bar em frente à costa- ele dizia isto e o mar parecia crescer cada vez mais forte e barrento, um mar castanho que não costuma entrar nos livros, ou porque os escritores gostam de sol, ou porque lhes falta dinheiro para as casas à beira-mar, ou porque nem todos os dias são dias de tempestade e assim foi só a fortuna a assustar-me os sentidos depois de ouvir aquela frase.

histórias que me surgem ao ouvido e que eu repito, mal repetidas, porque as coisas assim contadas parecem um tanto perder a piada. não vou buscar citações citadas nos livros anteriores, talvez o melhor mesmo seja aconchegar-me na sala em volta de montes de livros a ver a minha obra a desfazer-se nas letras dos outros. ou como aquela história da escritora que tinha ficado estéril perante um canto de rilke e perante a qual eu me ri muito quando ela me falou disso, ou seja, quando eu ainda era jovem e nada percebia das coisas.

1 comentário:

  1. já me aconteceu ficar muda perante O. Wilde, não conseguir ver mais que as fabulosas descrições do Eça, sem rima depois do Eugénio, sem força para sintaxe depois do Vergílio Ferreira. Já me aconteceu esgasgar terrivelmente depois de "tentar florir" como Jorge Sousa Braga. Já me aconteceu quase de tudo. E não sou hipocondriaca.

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