quarta-feira, 4 de outubro de 2006

o amor não é urgente

para Luísa o amor não é urgente: desce devagar pelas escadas quando nasce o sol e procura, entre o cheiro das torradas, o calor de umas palavras emitidas em frequência modelada. gosta de se passear em roupão pela casa, Luísa, enquanto ouve o ladrar dos cães da vizinhança e a buzina do peixeiro entrando pela aldeia.

para Luísa o amor não é urgente: é como a chuva sobre as longas vinhas que avista pela janela, a cair fraca sobre as uvas brilhantes de vinho e álcool em preparação. gosta de colocar os óculos escuros enquanto ajeita o cabelo, Luísa, e vê passar pela estrada fronteira à sua casa, um velhote pendurado num tractor alaranjado.

para Luísa o amor não é urgente: não usa calendários nem pergunta as horas a ninguém, mesmo que seja já quase de noite e o trinco da porta subsista adormecido em silêncio. gosta da pequena ansiedade de todos os dias, Luísa, enquanto, perfumada e arranjada, espera, praticamente deitada no sofá da sala, a chegada do amor.

4 comentários:

  1. Eu não sou como a Luisa ...
    :) gostei de aqui chegar!!!

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  2. passe a semana pensando nesse texto.
    um beijo

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  3. Então basta deitar-me no sofá e esperar que o amor venha? Hmmm...

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