domingo, 1 de outubro de 2006

dizes-me tanto

Se estou aqui é porque ela pediu
e eu só podia dizer sim.
Nuno Prata

estava todo o silêncio na casa porque a meio da noite os vizinhos dormem e o meu corpo pesado dança só em sonhos inventando palavras que podiam sair da tua boca - o teu perfume a encher-me o acordar lento e as minhas mãos a procurarem-te, mais que o sono, o desejo que és tu a respirar devagar no meu ouvido - em cima da mesa de cabeceira uns quantos livros, uma teoria da arquitectura, uma alice do outro lado do espelho, um ruy belo que não se vê (propositadamente encoberto por uma revista de actividades mundanas), um rádio a pilhas e os meus óculos.

passas pelo meio da chuva, entras em portas que estão fechadas: começaria, certamente, assim o teu poema. um poema elegante como as tuas costas direitas deitadas na minha cama, um poema longo como a quilometragem dos teus sonhos em explosões continuas de nuvem em nuvem desenhadas. um poema desenhado em folhas grandes por um lápis fino e frágil, com cara de amigos que olham o sol de frente, como tu, à procura de um vermelho fogo que nos arde nas pupilas mas não se vê em mais nenhum lado.

estava todo o silêncio na casa ou talvez fosse o leve sussurro dos nossos corpos a rebolar nos lençóis, lençóis enrolados aos pés da cama ao pé da qual só a nossa excitação já encontra lugar - a minha mão e a tua, o teu e o meu sexo, e nem foi preciso uma só vez para nos olharmos nos olhos sem percebermos qual a nossa estrada - estamos desde sempre no mesmo caminho - estava todo o silêncio na casa e a luz acesa da mesa de cabeceira e alguns rabiscos num papel dobrado e uma caneta e não haver horas para começar ou acabar todo o amor que sentíamos ao acordar.

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