sexta-feira, 27 de outubro de 2006

novidade

teu corpo desfeito sobre a mesa - quanta mais roupa tenho que te tirar até ser dia outra vez? - algumas peças de fruta, um saco de batata frita, uma agenda com a maioria das páginas arrancadas: podias vir de sorriso nos lábios e eu sentir-me sempre num sábado de manhã, mas os meus olhos cansam-se e eu cada vez vejo pior. mais difícil é entender-me.

não queria dizê-lo aqui - há uma música de phil collins a ecoar-me na cabeça ou será antes na sala? - e eu reconheço que repetir perguntas não faz bem a ninguém, muito menos ao género de pessoas que, como eu, se deixa abater pela miopia ou pelo cansaço ocular: no seu caso aconselho-o a renovar as dioptrias cada dezoito meses. difícil é ter razão e acertar.

também me esqueci de jogar no euromilhões- quantas mais horas, enfim, a ver a roupa a ser pendurada no estendal do lado de lá da rua? - e eu que acordo a meio da noite a pensar no dinheiro farto e nas regalias da riqueza: o teu corpo, a mesa, maçã: todos nus encontrados debaixo do chuveiro, relógio biológico desacertado. perguntar o quê, para quê?

segunda-feira, 23 de outubro de 2006

uma mulher. a rua.

corria pelo passeio com os cabelos soltos enquanto do outro lado da estrada alguém se deixava tombar de joelhos em frente a uma montra - era uma pequena cidade onde aconteciam coisas e onde as pessoas gostavam de olhar uma e outra vez o céu, até nos dias em que o nevoeiro parecia queria, mais que o sol, tapar-lhes o tubo de respiração do cérebro.

corria pelo passeio com os cabelos soltos e nem se apercebia do burburinho que a perseguia pela rua acima, um amontoado de vozes que, assim a correr, mal se percebiam, mas que se em algum instante ela parasse logo perceberia que o que as vozes faziam era chamar pelo seu nome, ou melhor, chamar pelo nome que imaginavam dela, apesar de todas estarem enganadas.

corria pelo passeio com os cabelos soltos e a sua ânsia era chegar à estação a tempo de ver chegar, lá ao fundo, o comboio, no exacto momento em que ele saísse do pequeno túnel que separava a cidade dos arredores da cidade, sim, porque aqui é assim que funciona, as coisas que estão ligadas, muitas vezes só têm pequenas passagens por onde se tocar.

quarta-feira, 18 de outubro de 2006

a língua que estás a ler é o português

carne da minha carne, não voltarei a estender lençóis para me deitar neles a rezar-te a existência, antes cobrir o meu corpo de água límpida que escorre da fonte da praça da cidade que me viu nascer, porque talvez seja esse o desejo dos planetas.

sangue do meu sangue, não voltarei a estender os meus lábios para te beijar os pés sobre alguma tábua, antes descer pela terra furando as pedras e as rochas do chão que foi pisado por todas as impurezas, porque talvez seja esse o desígnio dos planetas.

pele da minha pele, não voltarei a deixar os meus olhos no canto em branco de uma qualquer página, antes correr descalço pela noite em chuva e gelo que me corroam as unhas e me constipem a confiança, porque talvez seja esse o ventre do nosso renascimento.

segunda-feira, 16 de outubro de 2006

agenda

estava eu, o sam shepard e outras pessoas que conhecemos sentados na mesa de um café a olharmos nos olhos uns dos outros e a sentir escorrer pelas nossas testas o fumo de todos os cigarros do mundo e algum suor, quando pela porta estreita da entrada entrou um homem compacto e sorridente que anunciava, na capa de um jornal, a chegada da maré cheia aos territórios conquistados aos mouros corria o ano de ... [data rasurada].

seria com certeza misterioso não fosse o facto de já o Paco Souto nos ter falado disso uns dias antes quando, fechados os três num quarto de hotel, decidimos despir as nossas roupas e começar a escrever poemas nas camisas das costas - algumas minhocas saiam-lhe dos bolsos e ele falava muito alto das vantagens do isco galego e do comunismo internacional - ou era disto que falavamos ou havia qualquer coisa de errado em toda a estadia - e se me perguntarem a opinião, eu digo que foi o recepcionista.

- mergulhando neste tema, um flashback ou um flash gordon (algumas maneiras de nomear um gin tónico - mário henrique, mário henrique): o recepcionista era um tipo gordo e devedor à inteligência, não tivesse tantas dificuldades de locomoção e daria umas quantas bofetadas a deus quando o encontrasse à saída da missa de domingo. o recepcionista era tudo isto de gente e tinha uma voz muito fina, irritante, sem som nem tom, inaudível - corava quando o olhavamos nos olhos. o recepcionista recusou-se a vender-nos algumas cervejas, coisa que nenhum de nós virá a perdoar-lhe alguma vez.

os pés estendidos sobre o sofá do bar ou do café ou dos jornais amontoados a um canto - jornais literários, é bom de ver, daqueles onde se passeia de chinelos e se fuma algumas beatas apanhadas das páginas de opinião: num deles fazia-se uma crítica ao novo livro do Xoán Abeleira mas cheirava demasiado a marisco e os empregados tinham-se esquecido de trazer os guardanapos. estava então eu, o sam shepard, o carlos quiroga, a maría lado, o carlos figueiras, a antonieta preto, o pedro barata, o nuno travasso, deus nosso senhor, a sereia das águas, o outro paco, o eduardo estevez, a minha vontade de ser outra pessoa e um livro de astrologia - tudo isto às ... [hora rasurada]

portagem

querer encontrar por entre a chuva no retrovisor os faróis amarelos de um carro que nos tenta há imensos quilómetros ultrapassar: começar de novo a história que não é história, imenso nevoeiro logo pela manhã, boletim meteorológico a cair sobre as cabeças cheias de frases escritas - era então outra vez a mesma coisa e eu aqui a fingir olhar para o retrovisor: o carro parado.

tudo isto a propósito das dores de cabeça e dos corpos a boiar na piscina quando de noite caiu o trovão - era uma imagem macabra mas as imagens são o que são, não há que lhes dar muito valor: os olhos a traírem-me a cada momento, alguns polícias a correr pelo meio da estrada, o telefone sem rede, alguém a quem chamar: era isso tudo e a aflição do momento - era isso tudo e o não ter o que encontrar.

e depois recordar, ainda que distante, os faróis amarelos, duas moscas a voar por entre os meus olhos e o jornal, quinze euros de anúncios pagos pelos ouvintes em chamadas de alguns cêntimos- todos queremos a caridade da população, os abraços e os beijos retransmitidos na televisão privada, mas para que conta vamos nós descontar os nossos salários? - dizias então: era isso, era isso e tudo o resto em que não voltaremos nunca a acreditar.

segunda-feira, 9 de outubro de 2006

apontamentos para um romance (1)

ele saboreava o seu café enquanto na televisão o programa matinal gritava a dose de histeria mediática requerida para se poder ter uma conversa com um português médio na pausa para o almoço. era um não sei quê de vedetas e capas de revistas um tanto incompreensíveis para a sua cabeça ainda congestionada pela noite longa agarrado a um quixote de cervantes. ela entrou na sala.

ele poderia considerar normal que ela lhe puxasse as orelhas com a mesma força com que se levanta um armário que se tem há muito tempo na mesma posição em casa dos pais. as lágrimas que lhe vieram aos olhos foram sugestiva e imediatamente lambidas pela língua ávida dela, em movimentos menos que circulares, insistentes e gulosos. ela estava nua e o cheiro do seu corpo arrebatou toda a sala, sobrepondo-se ao vapor do café quente. ela estava também a ferver.

ele deixou-se levar, gostava de ser manipulado pelos desejos dela, materializados em pequenos movimentos de aproximação, mãos levianamente curiosas, botões desapertados sem que ele desse por isso. ela conquista-o a cada gesto, a cada aproximação e ele adora-a, assim, apaixonada e desejante, como ele. esqueceram-se do café e da televisão ligada, das horas e das doses de mediatismo necessárias para o que fosse. o jogo agora era todo no sofá.

quarta-feira, 4 de outubro de 2006

o amor não é urgente

para Luísa o amor não é urgente: desce devagar pelas escadas quando nasce o sol e procura, entre o cheiro das torradas, o calor de umas palavras emitidas em frequência modelada. gosta de se passear em roupão pela casa, Luísa, enquanto ouve o ladrar dos cães da vizinhança e a buzina do peixeiro entrando pela aldeia.

para Luísa o amor não é urgente: é como a chuva sobre as longas vinhas que avista pela janela, a cair fraca sobre as uvas brilhantes de vinho e álcool em preparação. gosta de colocar os óculos escuros enquanto ajeita o cabelo, Luísa, e vê passar pela estrada fronteira à sua casa, um velhote pendurado num tractor alaranjado.

para Luísa o amor não é urgente: não usa calendários nem pergunta as horas a ninguém, mesmo que seja já quase de noite e o trinco da porta subsista adormecido em silêncio. gosta da pequena ansiedade de todos os dias, Luísa, enquanto, perfumada e arranjada, espera, praticamente deitada no sofá da sala, a chegada do amor.

terça-feira, 3 de outubro de 2006

três

acordar pode ser: três da manhã e uma chuva intensa a cair lá fora, a tua fotografia na mesa da sala, os pés descalços a ficar frios - alguns cigarros mal apagados no cinzeiro, garrafas de cerveja vazias, a televisão ligada numa língua que tu não percebes - ter jeito para tudo, tudo, menos para ser feliz assim.

acordar pode ser: oito e meia, antena um no despertador, o corpo durido de uns tombos no campo de futebol entre amigos - a camisa ideal por passar a ferro na cadeira da cozinha, o pequeno-almoço habitual em falta porque te esqueceste das compras - ter jeito para tudo, tudo, menos para acordar sozinho assim.

acordar por ser: o dia inteiro a rebolar contigo entre lençóis e só o erik satie por companhia de cada vez que alguém se atreve a sair debaixo dos cobertores - os nossos corpos muito muito juntos num abraço que se estende pela pele num uníssono gemido de prazer - ter jeito para tudo, tudo, inclusivé para estar contigo feliz, assim.

domingo, 1 de outubro de 2006

dizes-me tanto

Se estou aqui é porque ela pediu
e eu só podia dizer sim.
Nuno Prata

estava todo o silêncio na casa porque a meio da noite os vizinhos dormem e o meu corpo pesado dança só em sonhos inventando palavras que podiam sair da tua boca - o teu perfume a encher-me o acordar lento e as minhas mãos a procurarem-te, mais que o sono, o desejo que és tu a respirar devagar no meu ouvido - em cima da mesa de cabeceira uns quantos livros, uma teoria da arquitectura, uma alice do outro lado do espelho, um ruy belo que não se vê (propositadamente encoberto por uma revista de actividades mundanas), um rádio a pilhas e os meus óculos.

passas pelo meio da chuva, entras em portas que estão fechadas: começaria, certamente, assim o teu poema. um poema elegante como as tuas costas direitas deitadas na minha cama, um poema longo como a quilometragem dos teus sonhos em explosões continuas de nuvem em nuvem desenhadas. um poema desenhado em folhas grandes por um lápis fino e frágil, com cara de amigos que olham o sol de frente, como tu, à procura de um vermelho fogo que nos arde nas pupilas mas não se vê em mais nenhum lado.

estava todo o silêncio na casa ou talvez fosse o leve sussurro dos nossos corpos a rebolar nos lençóis, lençóis enrolados aos pés da cama ao pé da qual só a nossa excitação já encontra lugar - a minha mão e a tua, o teu e o meu sexo, e nem foi preciso uma só vez para nos olharmos nos olhos sem percebermos qual a nossa estrada - estamos desde sempre no mesmo caminho - estava todo o silêncio na casa e a luz acesa da mesa de cabeceira e alguns rabiscos num papel dobrado e uma caneta e não haver horas para começar ou acabar todo o amor que sentíamos ao acordar.