segunda-feira, 11 de setembro de 2006

9.11

o meu corpo e um avião a voar lá fora: (vinhas tu de onde viesses) mas em cima da mesa umas quantas páginas em branco rasgadas de todos os livros de poesia da minha vida: porque a história começava assim: (uma história é sempre uma história, escrita ou não) não sei onde guardar todo este silêncio da poesia, todo este tempo que me deixa para pensar entre as palavras - sim, porque na poesia não ficaram sorrisos.

um avião e o meu corpo a voar lá fora: ( repetir várias vezes em frente da televisão a mesma imagem) porque era eu que fazia a televisão emitir as imagens e não o contrário: um mundo que não se consegue perceber, mesmo quando se insiste em compreender os diversos lados que um poema pode ter: (ou sobretudo devido a isso, sim) poder ficar quieto e calado a um canto à espera que algo nasça não é a mesma coisa que o silêncio entre essas duas palavras - e no canto podes sorrir.

o meu corpo e um avião e o teu corpo e outro avião: (numa série de minutos contados tiquetaqueando) mesmo que nos seja impossível descobrir de que lado nasce o verso quando se está fechado dentro do quarto: (eras tu em cima de mim) a gemer devagar o mau sexo que praticávamos: e fora de tudo isto, de todo este poema que não compreendemos, um poema ainda maior, cheio de fumo e chamas, a cair-nos sobre a cabeça - e aí, quem sorri, de qualquer jeito?

2 comentários:

  1. apetece-me dizer-te que entre as palavras deste poema, em todos os vertices deste poema nunca haverá, por mais que nos esforcemos, qualquer tipo de sentido.Qualquer tipo de sorriso.

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  2. Depois de tudo o que vi e ouvi hoje acerca do 11 de Setembro fiquei atordoada com a falta de sentimento e de percepção do que realmente importa... Mas o teu texto resgatou-me. É assim que se deviam ter lembrado...

    um beijo da Maria

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