sexta-feira, 29 de setembro de 2006

mundo meu

era eu ou então era o jarvis cocker a entrar pela sala com os joelhos a tocarem-se nas pernas tortas - era a entrevista do j.p.simões e a sua falta de alegria em cada frase construída e arrastada no fumo do cigarro - era uma natalia russa a queixar-se da sorte sem saber a sorte que tinha - era uma noite em branco e abrir muito os olhos para ser só lágrimas a cair dos olhos.

era eu ou então era o juliano spadaccio a correr em direcção ao abraço de todos os seus colegas de equipa - uma loja vazia e um caixa a festejar um golo silenciosamente - já ser de noite e a minha filha a puxar-me a mão para irmos para casa - era uma noite em branco sentado em frente à janela a ver a chuva cair no chão sujo da varanda.

era eu ou então era um disco guardado numa gaveta porque as músicas são tristes - um número de telefone que nunca se usa mas que também nunca se esquece - um vizinho a vociferar idiotices porque nos caiu um prato de madrugada - era uma noite em branco, uma noite em branco como tantas outras, com os mesmos sonhos e pesadelos que me fazem dizer: sim, este mundo é meu.

sexta-feira, 22 de setembro de 2006

a história de v

ao olhares o teu corpo em frente ao espelho - e o espelho sou eu, deitado sobre a cama, a masturbar-me - sentes como o tempo ficou quente agora que se inicia o inverno e sorris, maliciosa, com as mãos bem abertas sobre os seios. terias, provavelmente, algo para me dizer, mas só se solta de entre os lábios um suspiro alongado de prazer e perversidade.

ao olhares o teu corpo junto ao meu - e eu sou este homem aqui, à espera, descentrado na fotografia - sabes que mais um dia passou, e que será também num dia como o de hoje que sentirás o meu pénis erecto a invadir-te a vagina e a deliciar-se, molhado, na tua abundante excitação. ao pensares nisso, provavelmente, só um suspiro, ainda mais alongado, se solta de entre os teus lábios mordidos.

ao olhares o teu corpo nesta cama por fazer - e esta cama é apenas o que resta de todo o sexo apaixonado que fizemos de manhã - imaginas que muitas outras manhãs, tardes e noites se seguirão com os nossos cheiros intengrando-se num só perfume. imaginas também que o poder de dois corpos, de duas almas que se amam, dificilmente pode ser quebrado quando reunido assim, intensamente. e provavelmente terás toda a razão.

domingo, 17 de setembro de 2006

test-drive

vamos lá começar isto do princípio, de um lugar onde te possas sentar numa cadeira, tirar as canetas do saco e começar a fazer riscos em cima de riscos até que eu te olho por cima do ombro, com um beijo, e nos descubro aos dois, abraçados, com o papel a adivinhar-nos os gestos como um espelho.

vamos lá, voltar a colocar os livros nos seus lugares reservados nas prateleiras, escolher de entre os papéis os que merecem ser deixados dentro de gavetas, varrer, aspirar, abrir as janelas, deixar o sol entrar para dentro da sala, ajeitar as almofadas no sofá, deitar-me ao teu lado, abraçar-te.

e um pouco mais tarde, procurar um casaco e passear pelo jardim de mão dada contigo, saborear o som dos sapatos sobre a terra que desenha percursos entre relvas, sentir a cheiro fresco das árvores, procurar o jornal certo na papelaria, e seguir, seguir, sempre sempre de mãos dadas um ao outro.

e um pouco mais tarde ainda, um sorriso do tamanho do mundo inteiro, um descanso feliz, sim, isso, sim.

segunda-feira, 11 de setembro de 2006

9.11

o meu corpo e um avião a voar lá fora: (vinhas tu de onde viesses) mas em cima da mesa umas quantas páginas em branco rasgadas de todos os livros de poesia da minha vida: porque a história começava assim: (uma história é sempre uma história, escrita ou não) não sei onde guardar todo este silêncio da poesia, todo este tempo que me deixa para pensar entre as palavras - sim, porque na poesia não ficaram sorrisos.

um avião e o meu corpo a voar lá fora: ( repetir várias vezes em frente da televisão a mesma imagem) porque era eu que fazia a televisão emitir as imagens e não o contrário: um mundo que não se consegue perceber, mesmo quando se insiste em compreender os diversos lados que um poema pode ter: (ou sobretudo devido a isso, sim) poder ficar quieto e calado a um canto à espera que algo nasça não é a mesma coisa que o silêncio entre essas duas palavras - e no canto podes sorrir.

o meu corpo e um avião e o teu corpo e outro avião: (numa série de minutos contados tiquetaqueando) mesmo que nos seja impossível descobrir de que lado nasce o verso quando se está fechado dentro do quarto: (eras tu em cima de mim) a gemer devagar o mau sexo que praticávamos: e fora de tudo isto, de todo este poema que não compreendemos, um poema ainda maior, cheio de fumo e chamas, a cair-nos sobre a cabeça - e aí, quem sorri, de qualquer jeito?

quinta-feira, 7 de setembro de 2006

imaginação

vamos começar do início: dá-me um espaço onde eu estique as pernas e faz com que a água corra pela cara - diz assim, é o calor - diz assim, é o calor, o calor, o calor. vamos começar: um, dois, três: vamos começar: é assim, eu sigo pela direita e tu pela esquerda, os dois sentados na mesma sala, a escrever - tu levantas-te e dizes, dá-me um kiss - tu levantas-te e dizes, dá-me um kiss- vamos, vamos começar.

tu perguntas assim: eles gostam de mim? - tu perguntas assim: eles gostam de mim? - havia uma guitarra pendurada na parede e uma série de garrafas em cima das mesas, era uma festa, uma festa de aniversário - e tu pendurada na minha orelha, chama-me brinco - e tu pendurada na minha orelha, sou o teu brinquinho - algumas pessoas a dançar, algumas pessoas a beber, kiss kiss.

batem à porta: afinal estava a dormir - batem à porta: entra um homem de punho fechado e passa pelo corredor a dançar um mambo argentino mas não vinha ter comigo - o seu vizinho está - não vinha ter comigo - o seu vizinho está? - uma ou duas perguntas, pouco mais para dizer, apenas que deixei ficar em cima da mesa os papéis e quando olhei tu não estavas lá, aliás, não estiveste nunca lá, fui só eu que imaginei.

terça-feira, 5 de setembro de 2006

o dia

para Eduardo Estevez

falamos baixinho entre os dedos que trazemos dentro dos bolsos a brincar com as canetas - foi assim que chegamos um ao outro. eu vinha de um quarto aberto para o campo e de uma manhã a brincar com a lâmina de barbear em frente a um espelho que não era o meu, ele vinha de um acordar sonolento junto daquela que ele já sabia trazer dentro um sonho seu.

não dissemos muito que não pudesse ser dito de outra forma - todas as conversas começam circunstânciais, como os complementos. depois, no meio de um almoço que nos sentou lado a lado, sem pensar, alongamos presenças de livros e de palavras, viagens que se fazem só com os olhos fechados, mesmo que ainda não seja de noite, para sonhar.

eu já sabia ao que vinha - as pessoas que trazem as suas mãos abertas ao encontro podem muito bem encontrar quem a isso se disponha - ele, ao que parece, também. quis a sorte, faltando melhor palavra chamo-lhe sorte, que dois dias depois desta dança de palavras, chegassem umas outras, tão esperadas sempre. vou ser pai. sim, foi o que ele me disse como se inaugura uma amizade - a que vai ter a idade do seu filho.

segunda-feira, 4 de setembro de 2006

telegrama

que horas são, digo-te eu a dormir, qualquer coisa depois de almoço, há quem lhe chame sesta - hmmm, o calor, este calor inteiro que cai em blocos e a lembrança de um rio a correr já não sei bem se para cima ou para baixo, estou habituado a ver estas coisas de atravessar ao contrário - eu venho do sul, mesmo que a minha cabeça não seja de lá, venho do sul, como os pontos da rosa-dos-ventos.

que horas são, digo eu com medo de me repetir, porque em certos dias parece que não saio do labirinto em que digo sempre a mesma coisa - ou seja, estava eu em pé, a ler, e parecia que não saía daquele mesmo verso, o mesmo eco, uma mesma história, uma mesma palavra, sempre, sempre, sempre - e depois havia alguém que me abraçava e me dava os parabéns, era um dia de aniversário, certamente, não o meu, mas de toda a gente.

que horas são, digo eu e doi-me a cabeça outra vez, talvez por causa do café ou da falta dele, a almofada que fique com as culpas da minha má disposição - e se encontrar alguém na rua ainda lhe vou dizer que é mentira, que nada do que eu escrevo é para acreditar, que apenas vou apanhando do chão palavras que me caem da boca - que horas são, que horas são, repito, repetição, palavras, palavras do chão.