segunda-feira, 21 de agosto de 2006

a vida no campo

agora sobe para cima da cadeira e jura que nunca mais voltas a beber álcool, nunca mais, e agora volta a descer e abraça-me, abraço-te, e agora sai da minha frente e volta só quando tiveres crescido, vá lá, uns seis anos,

eu tenho vinte e dois anos, eu caminho de costas direitas pela rua, as amigas da minha mãe dizem que eu sou muito bonita, as minhas vizinhas gostavam de ter uma filha como eu, o senhor joão da loja diz que eu sou quase perfeita, e ainda assim

agora despe esse vestido ridículo que alguém que te deu nos anos porque eu não acredito que gostes dele, gosto, e agora sorri para mim mas com a boca mesmo muito aberta, aaaaahhhhhh, e agora declama em voz alta um poema que tu conheças, que meta sangue e coisas nojentas, amar-te assim perdidamente, agora cala-te,

eu tenho vinte e dois anos, entrei para a escola primária com cinco, a minha professora chamava-se cecília, e foi lá que conheci a carla, a minha melhor amiga, que foi sempre da minha turma até ao 12º e depois seguiu comunicação social e eu fui trabalhar com o meu pai porque ele precisava, porque eu sabia fazer tudo o que ele precisava,

ok, ok, mas agora abre a minha camisa botão a botão e conta-os, dois seis sete quatro, e agora bebe daquela garrafa de whisky que alguém deixou no armário, sabe mal, e agora promete-me que nunca mais mas nunca mais me voltas a dizer que não a nada, ouviste, sim, ouviste mesmo?, sim, então agora promete-me outra vez que nunca mais voltas a beber álcool, nunca mais, boa,

eu tenho vinte e dois anos e já não aguento mais, não consigo falar com ninguém, apesar de ter dentro de mim alguma certeza que me faz sentir feliz, é, isso mesmo, feliz, estou feliz apesar de tudo, apesar do meu pai, apesar da minha mãe, apesar de estar completamente apaixonada pelo homem errado, por este homem horrívelmente errado,

e agora deita-te na cama, mas, e agora deita-te na cama e não discutas, não, e tira essas cuecas que te ficam mal, mas, vá lá, não me irrites, mas, tira essas cuecas que te ficam mal, porra, sim, e agora deixa-me cair sobre ti como se cai sobre um inimigo, não, cala-te, mas, e agora deixa-me cair em cima de ti como um homem cai sempre sobre uma mulher, mas, cala-te, sim, e agora deixa-me entrar em ti, não, cala-te, cala-te, cala-te, mas, isso mesmo.

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