sexta-feira, 11 de agosto de 2006

"subsídios para uma rudimentar teoria do envenenamento"

o corpo despido sobre a cama, a janela fechada, uma luz da noite entrando, o corpo - qualquer pensamento que se incendeia agora em minha testa, esta ferve que não vem do álcool nem do esperma derramado pelos meus dedos magros e feios - o corpo, a janela fechada, um lápis que escreve na parede e guincha a noite inteira pelo corredor

: o corpo, o corpo - ser capaz de te amar só assim aos intervalos, ser capaz de te dizer coisas bonitas e depois não te dizer nada se me telefonas - eu vou devagar, mas vou, adormecer pela noite suando distâncias e teorias subsidiárias de uma loucura empacotada e pronta a servir nos territórios ultramarinos - que agora não os há, apesar de umas quantas cabeças penduradas em estendais por esse nome ainda os entenderem

- o corpo e o corpo - discurso indirecto livre para te chamar a qualquer hora do dia, curvado que estou com o meu corpo sobre o teu, o meu corpo sincero e inútil que vagueia tempestade sobre os lençóis lavados deste motel de beira de estrada: mas era uma janela e um corredor ou eram os vizinhos da casa ao lado a dançar depois da meia-noite ou eram os turistas que chegam tarde porque se perdem pelas auto-estradas

enfim, o corpo - o meu, tu percebes - acordar dentro da banheira e sentir umas mãos a apertarem-me os ombros, seria amor o que eu tinha para te dizer mas ainda apareço sozinho na fotografia - e queria dizer que era um mistério o que havia dentro das gavetas, mas não, apenas um revólver e alguns preservativos que eu guardei para a próxima vida: porque existem muitas maneiras de enganar a mãe, muitas maneiras de enganar a própria morte -

e vinhas tu a chegar dentro de umas lentes escuras, o meu desejo nos teus seios e o meu suor a chamar-me incapaz - incapaz - enquanto alguém dançava no andar de cima em saltos altos, a mesma loucura de sempre, um corpo, o corpo, o meu, encerrado num jardim de lunáticos, médicos de mão dada a fingirem-me são, cartas que chegam de longe para ninguém as ler, uma vida perdida por uma questão de segundos

: acaba assim a narrativa, a maneira que eu tinha de te fazer amor pelos ouvidos - acaba assim o meu poema de amor, esse corpo inquieto que não se descobre e não se sente - haverão ainda de dizer que nós éramos próximos ou amantes, que caminhavamos juntos pela calçada, que um dia me viram entrar no teu carro num descampado: mas é capaz de também tudo isso ser mentira, apenas um corpo, um corpo, enrolado em pensamentos, despido sobre a cama.

1 comentário:

  1. Talento!
    Gosto de passar por aqui de vez em quando. Gosto do que escreves e da maneira como o fazes.

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