domingo, 20 de agosto de 2006

ferragem - outra

vamos começar de novo, começar do momento que escolheste e que era assim

o avô a sair de dentro de água com a camisa e as calças bem engomadas e uns senhores a conversar sobre as notícias em volta de um jornal desportivo, algumas velhas subiam escadas e tu suavas e corrias pela praia enquanto pessoas tentavam barrar-te o caminho - o avô, esse, estava lá, a sair de dentro de água e a sentar-se ao sol, puxando de um cigarro

vamos começar de novo, afinal agora choras todos os dias, todos os dias, porquê

muitos muitos anos depois chegavas a casa depois do trabalho e desapertavas a gravata, sentavas-te no sofá e o teu filho trazia um caderno da escola para te mostrar, tu olhavas e não vias nada, e ele repetia daddy daddy, tu olhavas e não vias nada, daddy daddy, não eras tu, era outra pessoa qualquer, um país estrangeiro, os pés descalços, uma mulher que nunca tinhas visto antes a entrar pela sala e a perguntar-te

pois, mas não é isso, concentra-te, concentra-te, pensa bem naquilo que te perguntei

começo a ouvir buzinas quando falo nisto, buzinas não, aquele som de presença, electricidade estática, sim, electricidade estática, no meu ouvido, pressinto-a e é domingo, pressinto-a quando falo nisto, nisto, nisto, o avô a apanhar sol e a puxar um cigarro, uma menina do outro lado do mundo a escrever coisas em papéis e a guardar, tu aqui, o avô, o cigarro

porque eram o quê, onze horas, talvez fosse fome, talvez fosse sono, talvez fosse

tu sentado na esplanada a comer torta de canela e a pensar que eras o ruy belo: tu sentado na esplanada a comer torta de canela e a pensar que eras o marido daquela senhora que trazia um bebé loirinho nos braços: tu sentado na esplanada a comer torta de canela e alguém passa, senta-se ao teu lado e diz olá vizinho

e no meio de tudo isto ainda bate um coração, um coração, ainda bate um coração, com que ritmo

com soro no braço ainda vai ser possível ouvir-te dizer que as meninas da pastelaria eram todas muito bonitas e talvez viessem de outro lado para trabalhar ali no verão, não se pareciam em nada com as raparigas daquela terra, nem sequer a pastelaria, nem sequer a esplanada, nem sequer a torta de canela, se calhar voltas lá e não existe nada

e como te explicar, a ti, pessoa que desconheço, o tamanho do buraco que trago no peito

o avô sentado na praia e as meninas de cabelos soltos, biquinis, pele à mostra: tu suavas, suavas, suavas, uma carta de vinhos na mão e tentar escolher qualquer coisa que tu nem conheces: pessoas que te dão os bons dias e quem será: o avô sentado na praia e tu com soro no braço, ainda alguém que te ouve falar, sim, antes de te calares para sempre.

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