terça-feira, 29 de agosto de 2006

dedos

os dedos dele cobriam todo o crânio e alguém lhe soprava ao ouvido - consegues compreender o meu sopro quando te toca ao ouvido? - os dedos dele misturados com sangue e cabelos, pedacinhos de ossos lascados que, ao longe, pareciam caspa - e qual é a intensidade de um choque quando o teu corpo cai de tão alto? - os dedos deles, sim, porque os dedos dele eram bem grossos.

os dedos dele, havia toda uma narrativa sobre estar ou não estar, uma história dos dedos enquanto pedaço de corpo distantes do próprio corpo - com os dedos eu chego até ti, com eles me levo mais longe, onde mais nada do meu corpo pode sequer sonhar - e depois disso eram qualquer coisa como horas mais tarde, uma hora que já nem cabia nos relógios, o teu olhar distante sobre o mar - mas dói ou não dói? - porque dedos tão grossos não chegam, mesmo assim.

os dedos dele, os dedos dele, os dedos dele, raspar com as unhas sobre o papel tantas vezes reescrito, o papel também chora e também grita, porque pensas tu que tens tanta vontade de o rasgar - e amanhã de manhã vai estar sol em todo o país com excepção de algumas nuvens altas no litoral oeste - e os dedos dele eram oportunidades de negócio porque podíamos tentar arrancá-los antes do explodir da manhã, e assim da mistura de sangue e cabelos tudo se poderia ver à agradável distância - manda-me um sms - que estas ocasiões requerem às pessoas normais.

Sem comentários:

Enviar um comentário