sexta-feira, 25 de agosto de 2006

barba

l. trazia a barba por fazer naquela manhã

o mistério do desaparecimento da menina g. ainda está por resolver - deviam ser umas sete da manhã quando deram pelo desaparecimento dela, a essa hora havia quem a fosse buscar à porta de casa para a trazer até ao escritório, mas ela não estava no sítio do costume. alguém subiu ao terceiro andar do velho prédio da menina g. e bateu à porta, primeiro com algum respeito pela vizinhança ainda adormecida, depois com violência, visto estar a ficar cada vez mais atrasado para recolher todas as meninas que trabalhavam no escritório.

para nós, que o conhecíamos há tanto tempo, era qualquer coisa de anormal, aquele aspecto desgrenhado

o certo é que umas horas mais tarde, alguém telefonou para a polícia dando conta do acontecido, que a menina g. não tinha aparecido para trabalhar, que talvez fosse bom saber o que se teria passado - um polícia dirigiu-se até junto ao prédio e bateu à porta de alguns vizinhos, que tinham muito pouco a dizer já que, aquela hora, estavam todos a dormir, e só um parece ter sido incomodado pelo bater violento de alguém a uma porta e por uma ou duas vozes aos gritos escada abaixo - mas podia estar a sonhar, não garante que nada disto tenha acontecido realmente.

l. nunca mais foi o mesmo. o que não se pode dizer da menina g

porque uns dias depois, alguém passou junto ao prédio dela, pelas sete da manhã, e lá estava ela, no mesmo sítio, como sempre, antes do desaparecimento. apareceu como desapareceu, sem que isso parecesse nada de anormal na rotineira forma dos dias se seguirem uns aos outros. não explicou o que se tinha passado - embora também não conheçamos quem se tenha atrevido a perguntar alguma coisa, aqui no escritório somos todos muito cientes da nossa privacidade e não nos gostamos de meter na vida dos outros.

só l., o pobre l., que fica tão mal assim de barba por fazer.

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