sexta-feira, 18 de agosto de 2006

amanhã à mesma hora

porque agora és tu quem chega de manhã e passa os dedos pelos meus olhos e me faz acordar mais devagar

ou outra coisa que me possas dizer, fá-lo, por favor, por mensagem escrita, qualquer coisa que me lembre aquelas folhas azuis de 25 linhas

porque agora és tu quem me vê levantar despido e se senta na cama à minha espera enquanto eu tomo banho

eu a recusar que tu te chegasses à banheira, sei muito bem fazer isto sozinho, deixa-me em paz, e tu a sorrir contrariada, a dizer, eu fico aqui sentada

porque me parece que em certo ponto nos encontramos, algures entre a ausência de amor e o meu excesso de protagonismo quando te digo não

tu deves mexer nos meus livros, tu deves mexer nas minhas roupas, tu deves mexer nas minhas fotografias, tu deves procurar papéis escritos por mim até debaixo da cama

porque fazes aquela cara de tudo aceitar, sei lá, aquela cara de pessoa que gosta mesmo de mim, ninguém diria que vens aqui obrigada

e depois secas-me as costas com a toalha, tens cuidado comigo quando eu digo que me dói, no dia seguinte trazes-me uns comprimidos do médico, para as dores, dizes tu, mandou o doutor

porque de ti eu não tenho medo, não tens razão nenhuma para me matar, pois não, e então quando me sento finalmente à secretária para escrever, tu vais embora e dizes, amanhã à mesma hora

e eu vejo pela maneira como sorris, o jeito de pegar no saco da minha roupa suja, até era capaz de te dizer que ficas bem com essa bata da assistência social, até era capaz de te dizer que gosto quando me dizes, amanhã à mesma hora.

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