quarta-feira, 23 de agosto de 2006

adivinhas

começava assim, a mão pousada sobre a testa em pose teatral e um gemido fino a ecoar dentro do copo que estava agora já quase vazio: a língua descia pelo canto esquerdo da boca e parecia querer conquistar um pouco mais da nossa atenção, sentados a um canto da sala, numa mesa mais pequena que as outras. a tudo isso eu acenava negativamente que não, ao ouvir ecoar na minha cabeça

mas ela era casada, não?

e pensava para com os meus botões todos os passos dados desde que de manhã cedo saíra da cama: comecei por andar um pouco pela casa, a habituar os olhos a estarem abertos perante um sol que insistia em entrar abusivamente por uma janela que ficara aberta a noite toda: depois procurei nos armários qualquer coisa que eu pudesse comer, se bem me lembro nem sequer tinha jantado na noite anterior: sim, aqui percebi que não estava em minha casa e

ela era casada ou não?

decidi ir procurar a minha roupa, algures no meio destes corredores e portas estaria a minha roupa: encontrei primeiro uma casa-de-banho, tomei um duche, lavei os dentes, enxuguei-me com uma toalha azul, muito macia que estava pendurada atrás da porta: ainda tinha fome, mas ali estavam as minhas calças de ganga e a minha camisa às riscas, esquecidas à porta de um quarto: sim, tinha alguma curiosidade em saber quem me trouxera até ali, porque só me lembrava de a ouvir dizer

não te digo se sou casada ou não, adivinha tu,

e talvez eu tenha passado a noite toda a tentar adivinhar, porque sei que caí numa cama e havia um corpo, um corpo para além do meu, e sei que havia gemidos e gestos teatrais e línguas, sei, e sei que havia ainda qualquer coisa mais, um candeeiro ou uma luz trémula, mas depois devo ter passado a noite toda a tentar adivinhar, ou terei adormecido, porque não me lembro, não me lembro de mais nada senão que tinha começado a andar um pouco pela casa.

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