sábado, 12 de agosto de 2006

6ª etapa

e ele recostava-se no sofá para ver a volta a portugal e dizia assim

porque o meu pai gosta de cantar à janela, eu aprendi a contar pelos dedos o era uma vez - coisas de miúdos - mas também te digo, quantas vezes ainda vais ter que sair de dentro do armário para olhar o céu, isso é que eu gostava de saber.

e ele esticava as pernas sobre a mesinha da sala e pegava no controlo remoto

porque comigo, ele sempre insistiu - nunca vás a lugar nenhum sem levar umas cuecas - e era sempre a voz dele que eu ouvia quando me deitava em qualquer cama - as cuecas, as cuecas - um gajo na tropa não pode pensar estas coisas, um suspiro e estás logo a levar um tiro.

e ele abria os botões da camisa e suava, suava, suava

porque ele ria-se tanto de mim que uma vez ao entrar no elevador urinei pernas abaixo - eram nervos, dizia o médico, tente ser mais calmo junto dele - e o meu pai, mal saiu do consultório, deu-me um caldo na nuca e disse-me para me fazer à vida, que estava farto de mim.

e ele olhava para o tecto assim como quem vê, ao fundo, a meta

porque não há maneira de um gajo se esquecer destas coisas, sabes, não há maneira - os carros de apoio a buzinar, há alguém caído lá atrás, quem será? - e mesmo que tu te agarres com muita força à bicicleta vais sempre pensar que alguém largou óleo no asfalto.

e ele levantava os braços e deixava cair a cabeça, parece que não, mas ia em último lugar.

1 comentário:

  1. Porque é que os pais nos fazem isto? Porque é que nos marcam com ferro quente e deitam sal grosso em cima da carne viva? Será que eles não sabem que enquanto formos vivos não nos esqueceremos do que eles nos fizeram?

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