quarta-feira, 30 de agosto de 2006

a miúda

sim, eu sei que não tirei os auscultadores dos ouvidos o rápido o suficiente para que não notasses que estava a ouvir; sim, eu sei que nem sequer tive jeito para o fazer sem grande barulho, bastante atrapalhado, sim; sim, sim, eu sei que não fui nada profissional - mas que importa isso quando nos podemos apaixonar com um só olhar?

sim, eu sei que não te devia ter olhado como se vê a luz muito para lá do fundo do túnel (ou será do poço); sim, eu sei que não te devia ter sorrido como as crianças sorriem para os presentes debaixo da árvore de natal; sim, sim, eu também não sou o tipo ideal para as medalhas de bom comportamento comercial - mas tu coraste e sorriste envergonhada, queres que me arrependa agora?

sim, eu sei que não te falei de nenhum dos livros que tenho aqui pelas prateleiras (estava perdido nos teus olhos); sim, eu sei que te foste embora e que talvez não voltes mais a entrar (raparigas bonitas não gostam de voltar aos lugares onde coraram em frente a homens mais velhos); sim, eu sei que fiz um péssimo serviço ao atender-te assim - mas, se te serve de alguma coisa, esta noite, vou sonhar contigo.

terça-feira, 29 de agosto de 2006

dedos

os dedos dele cobriam todo o crânio e alguém lhe soprava ao ouvido - consegues compreender o meu sopro quando te toca ao ouvido? - os dedos dele misturados com sangue e cabelos, pedacinhos de ossos lascados que, ao longe, pareciam caspa - e qual é a intensidade de um choque quando o teu corpo cai de tão alto? - os dedos deles, sim, porque os dedos dele eram bem grossos.

os dedos dele, havia toda uma narrativa sobre estar ou não estar, uma história dos dedos enquanto pedaço de corpo distantes do próprio corpo - com os dedos eu chego até ti, com eles me levo mais longe, onde mais nada do meu corpo pode sequer sonhar - e depois disso eram qualquer coisa como horas mais tarde, uma hora que já nem cabia nos relógios, o teu olhar distante sobre o mar - mas dói ou não dói? - porque dedos tão grossos não chegam, mesmo assim.

os dedos dele, os dedos dele, os dedos dele, raspar com as unhas sobre o papel tantas vezes reescrito, o papel também chora e também grita, porque pensas tu que tens tanta vontade de o rasgar - e amanhã de manhã vai estar sol em todo o país com excepção de algumas nuvens altas no litoral oeste - e os dedos dele eram oportunidades de negócio porque podíamos tentar arrancá-los antes do explodir da manhã, e assim da mistura de sangue e cabelos tudo se poderia ver à agradável distância - manda-me um sms - que estas ocasiões requerem às pessoas normais.

qualquer coisa

qualquer coisa é fazer a revisão da matéria dada, um dois três macaquinho do chinês, a porta aberta e o mar inteiro, a carteira na mesa que fica no meio da sala, quem vem lá que eu não sei dizer: qualquer coisa é fazer a revisão da matéria dada, ser muito mais velho do que uma vida inteira, duas três hein?, qualquer coisa é abrir a janela e respirar, no final, uma última liberdade.

qualquer coisa é uma máquina fotográfica sem rolo, quinze dias a viver debaixo de água, o frasco do shampoo caído na banheira, os pés sujos porque na varanda não chove, acumula-se pó pela casa inteira, um sentido qualquer para tudo isto quando: qualquer coisa é uma pessoa que entra na nossa vida, põe e dispõe, vai-se embora - um traço pelo caminho e ficar à beira da estrada não seria solução também.

qualquer coisa é um poema que está por escrever há muito tempo alojado na minha cabeça, colar as costas contra o frigorífico, comer fruta que estava para apodrecer na cozinha, plantar um quintal no corredor da casa: qualquer coisa é não saber desenhar e, mesmo assim, fazer casas para cair, paredes que ficaram por dizer, por entrar pelos meus olhos dentro, qualquer coisa é fechar a porta, desexistir.

2:00 a.m.

são duas da manhã e o que espero eu, a música no máximo das pequenas colunas do computador, os olhos a fecharem-se contra a minha vontade, a cama que chama, sozinha, no quarto ao fundo, são duas da manhã e o que espero eu, um toque, um sinal, uma entrada no msn, o meu corpo caído da cadeira sem nada que o segure, as palavras destes homens que me cantam o amor ao ouvido.

são duas da manhã e o que espero eu, voltar à hora antes do jantar e voltar a estar a olhar para o topo da Igreja no Jardim da Graça, encolher-me com a força do vento nas viagens pelas outras vidas, um corpo de mulher algures à minha frente, na minha cama, o quarto dos fundos, um duche de madrugada para esquecer que a sujidade existe, as minhas mãos as minhas mãos as minhas mãos que nunca nunca desistem.

são duas da manhã e o que espero eu, amanhã de manhã saio de casa e tu dizes-me que o mundo me ama, mando-te e-mails e não recebo resposta, estou à deriva nesta cidade, já te disse?, e o meu corpo que não existe vai-se desfazendo em lágrimas pequeninas enquanto a minha avó, em frente ao fogão, prepara o jantar e pensa, feliz, como o seu neto é exemplar, poucos dias, poucas horas até, antes de ele cair pelas pedras até ao mar, calmo e lúcido, para sempre.

segunda-feira, 28 de agosto de 2006

vento

dizer-te qualquer coisa como um milhão de vezes aquele movimento dos olhos que se levantam do papel e vão em busca de uma sombra que passa mas não é ninguém - melhor, melhor - e é alguém que nós insistimos em não ver, porque é um alfabeto que desconhecemos ou do qual já estamos cansados há demasiado tempo. era isto.

o vento, o vento - que idade tinha eu quando morri outra vez, dessa não me lembro ou - todos os copos a cair da mesa e os vidros espalhados à largura da sala, se eu sei dizer, se eu sei escrever com este vento todo, era a mesa a cair sem estrondo, dois corpos agarrados um ao outro, era qualquer coisa de violento mas sem som, sem som nenhum, só vidro partido espalhado pelo chão.

agora vamos ver se eu sei escrever com este vento todo - uma voz baixinha na mesma frequência dos passos que ecoam nas minhas costas - o olhar curioso que alguém deita sobre a minha mesa, a surpresa: para mim?: e a forma despida como me virou costas, o agradecimento inócuo e formal, minutos depois - não, eu não sei escrever, não sei, porquê insistir, com este vento todo.

sábado, 26 de agosto de 2006

[mute]

para mim, todo este silêncio da barba a crescer por dentro dos olhos, comixão que a mão procura, fechada, pela cavidade ocular - quem me fez encontrou um certeiro equilíbrio entre o meu punho e a formatura do crânio em volta dos olhos, assim como uma peça feita em fábrica, medida e desmedidamente encaixada, para que eu pudesse sempre tapar os olhos com a força de quem sente as dores do mundo.

para mim, todo este silêncio da porta aberta para a rua sem sorrisos das pessoas que passam, umas quantas moedas esquecidas no bolso das calças e que rolam pelo soalho quando as dispo - era de noite, sim, era de noite, e não havia mais ninguém a quem pedir um abraço, mais nenhuma rua para calcorrear - aquela mulher abandonada precisava de tanto carinho quanto eu, trouxe-a para casa, fiz amor com ela, dei-lhe um beijo à despedida, hoje, estou certo, ela acordou feliz.

para mim, todo este silêncio de estares assim distante desde o dia em que te expulsei da minha casa, o dia em que te acompanhei até à estação dos comboios e te vi subir à carruagem com lágrimas nos olhos - não, eu não seria capaz de te dizer de novo que te amava, o meu coração não aguenta as minhas próprias indecisões, e só um grande amor te podia querer e repelir-te assim tão intensamente, só um um grande grande amor nos fazer dizer as coisas que eu disse, e deixar-te assim, partir, sem nada mais na volta que todo este silêncio.

sexta-feira, 25 de agosto de 2006

barba

l. trazia a barba por fazer naquela manhã

o mistério do desaparecimento da menina g. ainda está por resolver - deviam ser umas sete da manhã quando deram pelo desaparecimento dela, a essa hora havia quem a fosse buscar à porta de casa para a trazer até ao escritório, mas ela não estava no sítio do costume. alguém subiu ao terceiro andar do velho prédio da menina g. e bateu à porta, primeiro com algum respeito pela vizinhança ainda adormecida, depois com violência, visto estar a ficar cada vez mais atrasado para recolher todas as meninas que trabalhavam no escritório.

para nós, que o conhecíamos há tanto tempo, era qualquer coisa de anormal, aquele aspecto desgrenhado

o certo é que umas horas mais tarde, alguém telefonou para a polícia dando conta do acontecido, que a menina g. não tinha aparecido para trabalhar, que talvez fosse bom saber o que se teria passado - um polícia dirigiu-se até junto ao prédio e bateu à porta de alguns vizinhos, que tinham muito pouco a dizer já que, aquela hora, estavam todos a dormir, e só um parece ter sido incomodado pelo bater violento de alguém a uma porta e por uma ou duas vozes aos gritos escada abaixo - mas podia estar a sonhar, não garante que nada disto tenha acontecido realmente.

l. nunca mais foi o mesmo. o que não se pode dizer da menina g

porque uns dias depois, alguém passou junto ao prédio dela, pelas sete da manhã, e lá estava ela, no mesmo sítio, como sempre, antes do desaparecimento. apareceu como desapareceu, sem que isso parecesse nada de anormal na rotineira forma dos dias se seguirem uns aos outros. não explicou o que se tinha passado - embora também não conheçamos quem se tenha atrevido a perguntar alguma coisa, aqui no escritório somos todos muito cientes da nossa privacidade e não nos gostamos de meter na vida dos outros.

só l., o pobre l., que fica tão mal assim de barba por fazer.

quarta-feira, 23 de agosto de 2006

adivinhas

começava assim, a mão pousada sobre a testa em pose teatral e um gemido fino a ecoar dentro do copo que estava agora já quase vazio: a língua descia pelo canto esquerdo da boca e parecia querer conquistar um pouco mais da nossa atenção, sentados a um canto da sala, numa mesa mais pequena que as outras. a tudo isso eu acenava negativamente que não, ao ouvir ecoar na minha cabeça

mas ela era casada, não?

e pensava para com os meus botões todos os passos dados desde que de manhã cedo saíra da cama: comecei por andar um pouco pela casa, a habituar os olhos a estarem abertos perante um sol que insistia em entrar abusivamente por uma janela que ficara aberta a noite toda: depois procurei nos armários qualquer coisa que eu pudesse comer, se bem me lembro nem sequer tinha jantado na noite anterior: sim, aqui percebi que não estava em minha casa e

ela era casada ou não?

decidi ir procurar a minha roupa, algures no meio destes corredores e portas estaria a minha roupa: encontrei primeiro uma casa-de-banho, tomei um duche, lavei os dentes, enxuguei-me com uma toalha azul, muito macia que estava pendurada atrás da porta: ainda tinha fome, mas ali estavam as minhas calças de ganga e a minha camisa às riscas, esquecidas à porta de um quarto: sim, tinha alguma curiosidade em saber quem me trouxera até ali, porque só me lembrava de a ouvir dizer

não te digo se sou casada ou não, adivinha tu,

e talvez eu tenha passado a noite toda a tentar adivinhar, porque sei que caí numa cama e havia um corpo, um corpo para além do meu, e sei que havia gemidos e gestos teatrais e línguas, sei, e sei que havia ainda qualquer coisa mais, um candeeiro ou uma luz trémula, mas depois devo ter passado a noite toda a tentar adivinhar, ou terei adormecido, porque não me lembro, não me lembro de mais nada senão que tinha começado a andar um pouco pela casa.

segunda-feira, 21 de agosto de 2006

a vida no campo

agora sobe para cima da cadeira e jura que nunca mais voltas a beber álcool, nunca mais, e agora volta a descer e abraça-me, abraço-te, e agora sai da minha frente e volta só quando tiveres crescido, vá lá, uns seis anos,

eu tenho vinte e dois anos, eu caminho de costas direitas pela rua, as amigas da minha mãe dizem que eu sou muito bonita, as minhas vizinhas gostavam de ter uma filha como eu, o senhor joão da loja diz que eu sou quase perfeita, e ainda assim

agora despe esse vestido ridículo que alguém que te deu nos anos porque eu não acredito que gostes dele, gosto, e agora sorri para mim mas com a boca mesmo muito aberta, aaaaahhhhhh, e agora declama em voz alta um poema que tu conheças, que meta sangue e coisas nojentas, amar-te assim perdidamente, agora cala-te,

eu tenho vinte e dois anos, entrei para a escola primária com cinco, a minha professora chamava-se cecília, e foi lá que conheci a carla, a minha melhor amiga, que foi sempre da minha turma até ao 12º e depois seguiu comunicação social e eu fui trabalhar com o meu pai porque ele precisava, porque eu sabia fazer tudo o que ele precisava,

ok, ok, mas agora abre a minha camisa botão a botão e conta-os, dois seis sete quatro, e agora bebe daquela garrafa de whisky que alguém deixou no armário, sabe mal, e agora promete-me que nunca mais mas nunca mais me voltas a dizer que não a nada, ouviste, sim, ouviste mesmo?, sim, então agora promete-me outra vez que nunca mais voltas a beber álcool, nunca mais, boa,

eu tenho vinte e dois anos e já não aguento mais, não consigo falar com ninguém, apesar de ter dentro de mim alguma certeza que me faz sentir feliz, é, isso mesmo, feliz, estou feliz apesar de tudo, apesar do meu pai, apesar da minha mãe, apesar de estar completamente apaixonada pelo homem errado, por este homem horrívelmente errado,

e agora deita-te na cama, mas, e agora deita-te na cama e não discutas, não, e tira essas cuecas que te ficam mal, mas, vá lá, não me irrites, mas, tira essas cuecas que te ficam mal, porra, sim, e agora deixa-me cair sobre ti como se cai sobre um inimigo, não, cala-te, mas, e agora deixa-me cair em cima de ti como um homem cai sempre sobre uma mulher, mas, cala-te, sim, e agora deixa-me entrar em ti, não, cala-te, cala-te, cala-te, mas, isso mesmo.

domingo, 20 de agosto de 2006

ferragem - outra

vamos começar de novo, começar do momento que escolheste e que era assim

o avô a sair de dentro de água com a camisa e as calças bem engomadas e uns senhores a conversar sobre as notícias em volta de um jornal desportivo, algumas velhas subiam escadas e tu suavas e corrias pela praia enquanto pessoas tentavam barrar-te o caminho - o avô, esse, estava lá, a sair de dentro de água e a sentar-se ao sol, puxando de um cigarro

vamos começar de novo, afinal agora choras todos os dias, todos os dias, porquê

muitos muitos anos depois chegavas a casa depois do trabalho e desapertavas a gravata, sentavas-te no sofá e o teu filho trazia um caderno da escola para te mostrar, tu olhavas e não vias nada, e ele repetia daddy daddy, tu olhavas e não vias nada, daddy daddy, não eras tu, era outra pessoa qualquer, um país estrangeiro, os pés descalços, uma mulher que nunca tinhas visto antes a entrar pela sala e a perguntar-te

pois, mas não é isso, concentra-te, concentra-te, pensa bem naquilo que te perguntei

começo a ouvir buzinas quando falo nisto, buzinas não, aquele som de presença, electricidade estática, sim, electricidade estática, no meu ouvido, pressinto-a e é domingo, pressinto-a quando falo nisto, nisto, nisto, o avô a apanhar sol e a puxar um cigarro, uma menina do outro lado do mundo a escrever coisas em papéis e a guardar, tu aqui, o avô, o cigarro

porque eram o quê, onze horas, talvez fosse fome, talvez fosse sono, talvez fosse

tu sentado na esplanada a comer torta de canela e a pensar que eras o ruy belo: tu sentado na esplanada a comer torta de canela e a pensar que eras o marido daquela senhora que trazia um bebé loirinho nos braços: tu sentado na esplanada a comer torta de canela e alguém passa, senta-se ao teu lado e diz olá vizinho

e no meio de tudo isto ainda bate um coração, um coração, ainda bate um coração, com que ritmo

com soro no braço ainda vai ser possível ouvir-te dizer que as meninas da pastelaria eram todas muito bonitas e talvez viessem de outro lado para trabalhar ali no verão, não se pareciam em nada com as raparigas daquela terra, nem sequer a pastelaria, nem sequer a esplanada, nem sequer a torta de canela, se calhar voltas lá e não existe nada

e como te explicar, a ti, pessoa que desconheço, o tamanho do buraco que trago no peito

o avô sentado na praia e as meninas de cabelos soltos, biquinis, pele à mostra: tu suavas, suavas, suavas, uma carta de vinhos na mão e tentar escolher qualquer coisa que tu nem conheces: pessoas que te dão os bons dias e quem será: o avô sentado na praia e tu com soro no braço, ainda alguém que te ouve falar, sim, antes de te calares para sempre.

ferragem

pesadelo, pesadelo, mantra repetido pelos meus lábios no sabor do asfalto, curva à direita, curva à esquerda, veículo em processo de ultrapassagem, velocidade perigosa, travões fracos, pesadelo, pesadelo, mantra repetido pelos meus lábios, campaínha da porta, dizer-te o quê, uns quantos frascos de comprimidos e álcool, tirar as meias antes de deitar, fazer amor, fazer amor, fazer amor

pesadelo, pesadelo, levantar da mesa do café a correr com as chaves de casa na mão, abrir a porta, tirar a camisa, beijar-te o pescoço, dar-te, o quê, quarenta e seis segundos para que me digas és tão querido, abrir-te as calças, tirar-te as cuecas, pegar no meu pénis anestesiado, gosto tanto de ti, penetrar-te, penetrar-te, penetrar-te, a correr, a correr, sim, fecha a porta quando saíres, pegar na camisa do trabalho, fazer o gesto

pesadelo, pesadelo, repetir sempre a mesma cena mesmo quando estás a pensar, não vou fazer, não vou fazer, repetir sempre a mesma cena mesmo quando estás a não pensar, a não sentir, era isso que querias dizer, entra, entra, oiço um gemido ao longe mas talvez seja o som das facas na minha cozinha ou da janela a deslizar na calha, afinal é fácil pôr a perna do lado de fora, ou cair, ou cair, ou cair, ou cair.

sexta-feira, 18 de agosto de 2006

amanhã à mesma hora

porque agora és tu quem chega de manhã e passa os dedos pelos meus olhos e me faz acordar mais devagar

ou outra coisa que me possas dizer, fá-lo, por favor, por mensagem escrita, qualquer coisa que me lembre aquelas folhas azuis de 25 linhas

porque agora és tu quem me vê levantar despido e se senta na cama à minha espera enquanto eu tomo banho

eu a recusar que tu te chegasses à banheira, sei muito bem fazer isto sozinho, deixa-me em paz, e tu a sorrir contrariada, a dizer, eu fico aqui sentada

porque me parece que em certo ponto nos encontramos, algures entre a ausência de amor e o meu excesso de protagonismo quando te digo não

tu deves mexer nos meus livros, tu deves mexer nas minhas roupas, tu deves mexer nas minhas fotografias, tu deves procurar papéis escritos por mim até debaixo da cama

porque fazes aquela cara de tudo aceitar, sei lá, aquela cara de pessoa que gosta mesmo de mim, ninguém diria que vens aqui obrigada

e depois secas-me as costas com a toalha, tens cuidado comigo quando eu digo que me dói, no dia seguinte trazes-me uns comprimidos do médico, para as dores, dizes tu, mandou o doutor

porque de ti eu não tenho medo, não tens razão nenhuma para me matar, pois não, e então quando me sento finalmente à secretária para escrever, tu vais embora e dizes, amanhã à mesma hora

e eu vejo pela maneira como sorris, o jeito de pegar no saco da minha roupa suja, até era capaz de te dizer que ficas bem com essa bata da assistência social, até era capaz de te dizer que gosto quando me dizes, amanhã à mesma hora.

quarta-feira, 16 de agosto de 2006

superbacana

toda essa gente que se engana ao entrar nos automóveis sem saber o destino

bem, uma rapariga linda, sorridente, encostada ao bar enquanto pedia mais uma garrafa de cerveja e procurava, na mala, um maço de cigarros que, pelas horas, já devia estar vazio, ou quase isso

toda essa gente que não sabe e que não vê, nem sente que

já há alguns anos que a vejo passar na rua, ainda hoje corria da chuva sem que eu saiba bem para onde e depois, bem, faço amizade com o marido dela e acabamos por ficar, eu e ele, sentados num café com vista para a rua onde ela não passa

O sol responde o tempo esconde o vento espalha e as migalhas caem todas sobre

pois, uma mesa posta para sete pessoas, pares incompletos, e alguém que se atrasa ao ponto de todos começarem a comer, o meu telefone que tocou três quatro vezes, o marido dela já sem saber o que fazer, mas não, eu não podia, ela, bonita, sorridente, a trazer o vinho para a mesa e eu

em copacabana.

viagem rumo ao nada

ah, o sono, mas que horas são, rebenta-se um saco dentro da tua cabeça, ou no tapete do elevador, foste às compras mas esqueceste o essencial, compraste o que não precisavas, precisas ainda do que não compraste, e amanhã, que é quarta-feira outra vez sem esperança no mundo, o que vais tu dizer quando chegares e deres de cara contigo?

e que música era aquela, a que horas da noite, de que raio é feita à tua vida se te sentas em mesas onde ninguém parece ter uma palavra que te alivie, que te faça descansar, um segundo que seja: era só mais do mesmo, o costume, e tu, sem dares por isso, a consumires-te em lume brando para que no dia seguinte acordasses ainda com mais dores, dentro e fora de ti.

mas tu apagas a televisão, apagas sempre a televisão, e quando finalmente arranjas uma toalha de praia começa a chover, começa o inverno no teu coração: e era frio, e eram os teus dedos sem luvas, e era a tua cara chorosa que ninguém percebe, porque tapas os olhos com essas lentes escuras: e era, afinal, um fim diferente para esta histórias, mas tu não estavas lá, tu nunca estás lá.

sábado, 12 de agosto de 2006

6ª etapa

e ele recostava-se no sofá para ver a volta a portugal e dizia assim

porque o meu pai gosta de cantar à janela, eu aprendi a contar pelos dedos o era uma vez - coisas de miúdos - mas também te digo, quantas vezes ainda vais ter que sair de dentro do armário para olhar o céu, isso é que eu gostava de saber.

e ele esticava as pernas sobre a mesinha da sala e pegava no controlo remoto

porque comigo, ele sempre insistiu - nunca vás a lugar nenhum sem levar umas cuecas - e era sempre a voz dele que eu ouvia quando me deitava em qualquer cama - as cuecas, as cuecas - um gajo na tropa não pode pensar estas coisas, um suspiro e estás logo a levar um tiro.

e ele abria os botões da camisa e suava, suava, suava

porque ele ria-se tanto de mim que uma vez ao entrar no elevador urinei pernas abaixo - eram nervos, dizia o médico, tente ser mais calmo junto dele - e o meu pai, mal saiu do consultório, deu-me um caldo na nuca e disse-me para me fazer à vida, que estava farto de mim.

e ele olhava para o tecto assim como quem vê, ao fundo, a meta

porque não há maneira de um gajo se esquecer destas coisas, sabes, não há maneira - os carros de apoio a buzinar, há alguém caído lá atrás, quem será? - e mesmo que tu te agarres com muita força à bicicleta vais sempre pensar que alguém largou óleo no asfalto.

e ele levantava os braços e deixava cair a cabeça, parece que não, mas ia em último lugar.

sexta-feira, 11 de agosto de 2006

"subsídios para uma rudimentar teoria do envenenamento"

o corpo despido sobre a cama, a janela fechada, uma luz da noite entrando, o corpo - qualquer pensamento que se incendeia agora em minha testa, esta ferve que não vem do álcool nem do esperma derramado pelos meus dedos magros e feios - o corpo, a janela fechada, um lápis que escreve na parede e guincha a noite inteira pelo corredor

: o corpo, o corpo - ser capaz de te amar só assim aos intervalos, ser capaz de te dizer coisas bonitas e depois não te dizer nada se me telefonas - eu vou devagar, mas vou, adormecer pela noite suando distâncias e teorias subsidiárias de uma loucura empacotada e pronta a servir nos territórios ultramarinos - que agora não os há, apesar de umas quantas cabeças penduradas em estendais por esse nome ainda os entenderem

- o corpo e o corpo - discurso indirecto livre para te chamar a qualquer hora do dia, curvado que estou com o meu corpo sobre o teu, o meu corpo sincero e inútil que vagueia tempestade sobre os lençóis lavados deste motel de beira de estrada: mas era uma janela e um corredor ou eram os vizinhos da casa ao lado a dançar depois da meia-noite ou eram os turistas que chegam tarde porque se perdem pelas auto-estradas

enfim, o corpo - o meu, tu percebes - acordar dentro da banheira e sentir umas mãos a apertarem-me os ombros, seria amor o que eu tinha para te dizer mas ainda apareço sozinho na fotografia - e queria dizer que era um mistério o que havia dentro das gavetas, mas não, apenas um revólver e alguns preservativos que eu guardei para a próxima vida: porque existem muitas maneiras de enganar a mãe, muitas maneiras de enganar a própria morte -

e vinhas tu a chegar dentro de umas lentes escuras, o meu desejo nos teus seios e o meu suor a chamar-me incapaz - incapaz - enquanto alguém dançava no andar de cima em saltos altos, a mesma loucura de sempre, um corpo, o corpo, o meu, encerrado num jardim de lunáticos, médicos de mão dada a fingirem-me são, cartas que chegam de longe para ninguém as ler, uma vida perdida por uma questão de segundos

: acaba assim a narrativa, a maneira que eu tinha de te fazer amor pelos ouvidos - acaba assim o meu poema de amor, esse corpo inquieto que não se descobre e não se sente - haverão ainda de dizer que nós éramos próximos ou amantes, que caminhavamos juntos pela calçada, que um dia me viram entrar no teu carro num descampado: mas é capaz de também tudo isso ser mentira, apenas um corpo, um corpo, enrolado em pensamentos, despido sobre a cama.

quarta-feira, 9 de agosto de 2006

pequenos

fazemos, em palavras pequeninas, o tamanho dos nossos dedos nas paredes - marcas que antes eram sujidade e agora são rios que escorrem pelos tapetes, inundando a sala de um perfume que me é difícil reconhecer. fazemos, sim, fazemos - eu e tu e tu e eu - um quadrado em volta das coisas que queremos, finalmente, dizer, embora não saibamos como.

como uma tesoura deixada em cima da mesa - palavras, palavras pequeninas - enquanto da janela um homem de chapéu insiste em perguntar pelos nossos cartões de identificação, que não se pode entrar, que não se pode sair. palavras, dizia eu - e saberás tu por acaso o que são verdadeiramente palavras, insiste o homem - criações de azul tornado forte pelo vento.

a tesoura e as paredes - pois também podia ser capaz de cortar tijolo à tesourada, tamanho dos meus dedos de cinco anos, nariz ranhoso, olhos muito abertos para o ar- e tu, pernas esticadas sobre o tapete, a saia a levantar-se devagar porque uma brisa, ou os teus dedos, os teus dedos, e qualquer coisa que renasce enquanto eu sorrio - era isso a que se chamava fazer amor, não era?

segunda-feira, 7 de agosto de 2006

controlador aéreo

continuam a aterrar aviões em Pedras Rubras, e o meu olhar perde-se lentamente pela noite, junto ao mar, a imaginar quanto mais fogo-de-artifício vai rebentar na costa, fugaz iluminação de água salgada. à minha frente um casal de namorados masca pastilhas em silêncio, parece-me ser a sua maneira de comunicar.

continuam a aterrar aviões em Pedras Rubras, o rapaz levanta-se e ela segue-o, parece-me ser a sua maneira de comunicar. crianças passam a conduzir pequenos carros eléctricos, fazem corridas ou imitam os grandes, enquanto um grupo de franceses, uns quantos descendentes, uns quantos originais, como se pode ainda ser, passa olhando a fachada do casino.

continuam a aterrar aviões em Pedras Rubras, o grupo de franceses senta-se numa esplanada sobre a areia da praia, junto às barraquinhas dos antigos pescadores feitos donos da bandeira verde e da maré vazia. o meu olhar segue pela avenida dos banhos a fazer contas de cabeça às famílias que apenas ali estão para sentir a brisa fresca da noite.

continuam, ainda assim, a aterrar aviões em Pedras Rubras, e acabo por me sentar no muro a ver as pessoas que passam, cada vez menos, cada vez mais tarde. do alto da torre, alguém dá coordenadas que só um outro alguém, a muitos metros de altitude, percebe. cá em baixo, aterram aviões, e eu fico.

terça-feira, 1 de agosto de 2006

sombras

eu gosto de te fazer perguntas esquisitas, como: queres ser mamã? gostas de me apertar os ombros?, e tu sorris devagar pelo comprimento da sala até desapareceres pela frincha da janela. eu tenho três dedos que adivinham, sussurro segredos às paredes dos prédios e invento novas fachadas para os meus casacos.

eu gosto de te olhar acima e abaixo, especialmente quando usas esses vestidos compridos que têm o nome estampado em letras vermelhas muito fininhas desde a cintura até aos tornozelos. tu saltitas pelas pedras da calçada e eu janto mais tarde porque há pessoas do tamanho de garrafas à minha frente na fila do multibanco.

eu gosto de espetar o dedo na vertical e ficar a olhar a sombra na parede branca: tu lambes a parede com gosto e algum sentido estético da devassidão - é assim que as coisas devem ser, digo eu e diz o meu amigo que é escultor e te procura nas horas em que estás mais distraída. quando chegar a noite, não digas que tens saudades.