sexta-feira, 21 de julho de 2006

três suposições sem filtro

era capaz de jogar a sua própria vida como um jogo de cartas - subia e descia a ladeira junto ao bairro que sempre habitara, comia gelados e assobiava às raparigas: era verão, bem se vê, o relógio tinha ficado em casa e uma camisa amarela brilhava pendurada no estendal.

era capaz de vestir um casaco e pôr uma gravata e entrar pela tesouraria das finanças, tudo isso só para comprar um selo do carro: depois vinham as vizinhas dar-lhe abraços e sandes para o jantar - era um rapaz feliz, imagino, apesar das dificuldades.

era capaz de inaugurar um monumento à porta do seu prédio para comemorar a invenção de uma nova palavra que defina a ideia de «pessoa extremamente feliz à espera de um telefonema» - os seus pais pensavam que era louco, ele pintava o cabelo de vermelho: incendiário, incendiário.

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