sábado, 1 de julho de 2006

quente

liguei o rádio baixinho, ainda as cortinas estavam fechadas mas já se sentia alguma brisa quente que andava pela casa a avisar-me que certas medidas se vão desfazendo na nossa vida, coisas que nos parecem grandes quando nascemos vão minguando ao longo dos anos, coisas tão pequenas que mal as víamos e depois aparecem enormes, como menires, unhas ou mãos dadas no silêncio do quarto onde toca o rádio baixinho.

os teus cabelos amaciavam no meu peito e o meu sorriso crescia no tamanho desse sonho bom que era poder abraçar-te e falar ao teu ouvido. seria ainda essa brisa quente a andar pelo corredor, a entrar pelas janelas, uma caneta que não escreve, um sorriso que não acaba, a minha falta de jeito que até nos sonhos se revela, coisas tão pequenas onde depois tropeçamos, coisas tão grandes que até nos arriscamos a esquecê-las, como os teus cabelos a amaciar no meu peito.

aquela mesma brisa quente que me fez levantar da cama de olhos fechados, a testa suada de tantas memórias guardadas dentro, o corpo que treme devagar a recuperação do respirar entediado dos dias a dias, parece que estamos sempre a meio-tempo nesta vida, com um pé nele e a alma a escorregar para outro lado, onde as coisas pequenas se tornam grandes, e as grandes, de tão efémeras, viram pequenas, como esta brisa quente que me fez levantar da cama.

1 comentário:

  1. "...o corpo que treme devagar a recuperação do respirar entediado dos dias a dias, parece que estamos sempre a meio-tempo nesta vida, com um pé nele e a alma a escorregar para outro lado, onde as coisas pequenas se tornam grandes, e as grandes, de tão efémeras, viram pequenas..."

    Às vezes parece mesmo...
    Gostei do texto.
    Beijos

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