sábado, 22 de julho de 2006

cara estranho

podes chegar mais devagar ao meio da sala, como o barulho dos teus sapatos nesta rua vazia de gente - lá ao fundo vem uma rapariga com um cão pela trela, vai parando a mando do cão, até que, estando próxima de ti, puxa com firmeza a trela, pára para arranjar a bainha das calças: ao passares ela sorri-te, mas não a conheces.

caem flores dos prédios em desconstrucção e o calor continua a deixar-te a testa suada - mais hora menos hora vais acabar outra vez na praia, dia de inverno, a chorar para a palma das tuas mãos, enquanto alguém vai soletrar o teu nome com cuidado, para não se partir, e sentir-se feliz com alguma coisa que escrevas.

ficas contente com a carta que deixam na tua caixa de correio e continuas a falar baixinho contigo mesmo: as dores da alma e as do corpo, misturadas como batido de morango: os prédios em desconstrucção fotografados nas tuas paredes: uma mão que imaginas mais pequena que a tua, mais doce, mais longe.

conheces uma menina que decidiu abandonar os malmequeres, bates às portas erradas, telefonas e ninguém te atende, encolhes os ombros - dizer o quê, agora que o mundo decidiu fingir que está do teu lado. a fita recomeça exactamente no mesmo ponto em que parou da última vez: os sorrisos que imaginas são mesmo bonitos.

pensas mais uma vez em dizer-lhe qualquer coisa, mas alguma vez lhe pediste o número de telefone: são horas de dormir, não a vás acordar por nada - era isto que aparecia na televisão, no tempo dos anúncios, dos copos bebidos às escuras na cozinha - estás esquecido do filme mas dói-te no coração como sempre. ainda és o mesmo.

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