segunda-feira, 31 de julho de 2006

kinkin

era para tu veres o meu sangue a espirrar na parede da sala, tanto branco, disseste tu da primeira vez que lá entraste, e eu sorri e pensei que podíamos ser felizes os dois, ali mesmo, naquela varanda virada ao sol da uma da tarde o verão inteiro.

era para tu veres o meu corpo pesado a cair no meio da sala, já arredei os móveis para os cantos, já não tenho aqui a mesa grande, já não faço jantares, só deixei um sofá, os fantasmas sentam-se bem no chão e podem passar semanas inteiras em pé.

era para tu veres o meu amor a expirar finalmente e a sair, de sapatos na mão, de dentro do meu corpo quieto, pareces um anjinho, dizias tu quando me vias dormir, até ao dia em que tiveste medo de me acordar do sonho de estar demasiado apaixonado por ti.

domingo, 30 de julho de 2006

"não vai ser só por uns tempos"

a casa era uma caixa cheia de lágrimas: eu era pequeno e masturbava-me em frente do roupeiro até que uma dor me rasgava por dentro, o sémen a despertar pela primeira vez, o pénis erecto, a mão a hesitar entre parar ou prolongar a dor: a casa era uma caixa de silêncios onde as pessoas escorregavam pelo chão com os pés tão pequenos e sem equilíbrio.

a casa, lágrimas: domingo à tarde e sais do centro comercial a chorar por debaixo das lentes escuras, está calor e toda a gente foi para a praia, dentro do carro sentes os olhos abafados e custa-te a respirar: a casa, o silêncio: na tela um rapaz corre por outra cidade e termina o filme a olhar uma baleia que ataca uma lula.

chora: não sabes bem como fazer estas coisas, apetece-te desfazer-te no meio da rua, ou no meio de ti, estás frágil como as folham ficarão no mês de Outubro, corre-te pela cabeça numa velocidade desvairada uma série de pensamentos que sabes não poder controlar: cala-te: sim, cala-te, não digas nada, fica quieto, parado: chora.

sexta-feira, 28 de julho de 2006

fala-me de amor

quem: amanhece todos os dias na minha janela mas, já te disse do vento e dos beijos e das palavras que eu colhi na árvore que veio da minha infância para florir aqui, no meu teu colo onde acordas com a boca a saber a sol e cerejas - quantas vezes mais ainda vamos ficar a cruzar os dedos pela noite fora como num beijo que nunca é dado.

porque: eu abri os olhos e sol era rosado como o canteiro da vizinha que deixa cair sobre a roupa no estendal flores e beatas de cigarro, uma música alegre ecoa no quintal do prédio e uma menina de saia rodada espreita de uma varanda de um andar acima - qualquer coisa como poder ser feliz sem hora certa, era disso que falavamos.

ainda: repete baixinho comigo e depois voa como as nuvens ou como os abraços que eu tenho para te dar porque é segunda, terça, quarta-feira: eram sorrisos do tamanho de crianças, do tamanho de sonhos de crianças, era a noite toda a andar pelo corredor a tentar perceber um choro, era amanhecer no meu colo todos os dias tu.

sábado, 22 de julho de 2006

cara estranho

podes chegar mais devagar ao meio da sala, como o barulho dos teus sapatos nesta rua vazia de gente - lá ao fundo vem uma rapariga com um cão pela trela, vai parando a mando do cão, até que, estando próxima de ti, puxa com firmeza a trela, pára para arranjar a bainha das calças: ao passares ela sorri-te, mas não a conheces.

caem flores dos prédios em desconstrucção e o calor continua a deixar-te a testa suada - mais hora menos hora vais acabar outra vez na praia, dia de inverno, a chorar para a palma das tuas mãos, enquanto alguém vai soletrar o teu nome com cuidado, para não se partir, e sentir-se feliz com alguma coisa que escrevas.

ficas contente com a carta que deixam na tua caixa de correio e continuas a falar baixinho contigo mesmo: as dores da alma e as do corpo, misturadas como batido de morango: os prédios em desconstrucção fotografados nas tuas paredes: uma mão que imaginas mais pequena que a tua, mais doce, mais longe.

conheces uma menina que decidiu abandonar os malmequeres, bates às portas erradas, telefonas e ninguém te atende, encolhes os ombros - dizer o quê, agora que o mundo decidiu fingir que está do teu lado. a fita recomeça exactamente no mesmo ponto em que parou da última vez: os sorrisos que imaginas são mesmo bonitos.

pensas mais uma vez em dizer-lhe qualquer coisa, mas alguma vez lhe pediste o número de telefone: são horas de dormir, não a vás acordar por nada - era isto que aparecia na televisão, no tempo dos anúncios, dos copos bebidos às escuras na cozinha - estás esquecido do filme mas dói-te no coração como sempre. ainda és o mesmo.

sexta-feira, 21 de julho de 2006

três suposições sem filtro

era capaz de jogar a sua própria vida como um jogo de cartas - subia e descia a ladeira junto ao bairro que sempre habitara, comia gelados e assobiava às raparigas: era verão, bem se vê, o relógio tinha ficado em casa e uma camisa amarela brilhava pendurada no estendal.

era capaz de vestir um casaco e pôr uma gravata e entrar pela tesouraria das finanças, tudo isso só para comprar um selo do carro: depois vinham as vizinhas dar-lhe abraços e sandes para o jantar - era um rapaz feliz, imagino, apesar das dificuldades.

era capaz de inaugurar um monumento à porta do seu prédio para comemorar a invenção de uma nova palavra que defina a ideia de «pessoa extremamente feliz à espera de um telefonema» - os seus pais pensavam que era louco, ele pintava o cabelo de vermelho: incendiário, incendiário.

terça-feira, 18 de julho de 2006

verão azul

brincas com o anel que tens no dedo e sorris devagar enquanto eu digo o meu nome - sim, chegaste na hora certa e agora temos que começar tudo de novo partindo do princípio que sempre existimos um para o outro. era isso que tínhamos para dizer ou então um dvd alugado num domingo à tarde, os teus filhos a passear sobre a relva lá fora, a tua mão a segurar a minha como quem conquista uma cidade.

chegas a casa com os cabelos puxados para a frente dos olhos, muito vento lá fora, dizem os meteorologistas que fará bom tempo quando chegar o próximo fim-de-semana. os teus filhos fechados no quarto a jogar computador, o almoço pronto e a mesa posta, querias dizer-me qualquer coisa sobre o trabalho mas as férias estão aí, para mim, e tu sabes que eu sou como as flores, regas um bocadinho e eu cresço com mais cores.

ligas-me para o telemóvel a meio da noite, não sei porque o deixei ligado, talvez já estivesse à espera- vou a correr pela rua até tua casa, vesti as calças de ganga mas deixei a parte de cima do pijama, está muito calor na cidade e tu precisas de mim, são estas coisas que fazem a definição do amor mais espessa que um beijo - querias-me por perto, os teus filhos na casa dos pais, afinal sempre tens medo de ficar sozinha em casa.

sábado, 15 de julho de 2006

princesa

ela chegava e dizia assim, tenho vinte e quatro anos, falo três línguas, gosto de cantar e dançar, deixe-me ser feliz, e o tipo atrás do balcão sorria e dizia que sim - depois dava-lhe uma bandeja com copos cheios de cerveja e contava os segundos até que cerveja e copos fossem só uma grande papa no chão.

ela então saía e dizia assim, tenho vinte e quatro anos, deixei há pouco tempo a casa dos meus pais, sou bonita, não vou ficar a dormir na rua - o tipo a dizer que sim, que sim, dava-lhe um abraço, pedia-lhe desculpa, convidava-a para irem tomar um café num outro dia, ela ainda não sabia o que era esperar.

ela ficava e dizia assim, sou amiga do patrão, tenho os olhos claros e expressivos, sempre me trataram como se eu fosse uma princesa, e todos os homens lhe pagavam bebidas - depois, um dia de noite, ele fechou o bar e esqueceu-se dela lá dentro, ela não sabia o que fazer, ainda não sabia o que era escapar.

sexta-feira, 14 de julho de 2006

não escrever

será da fruta ou dos teus lábios, mas este calor inteiro, crescido como pessoas a andar na rua muito engravatadas.

será do teu olhar nas fotografias, uma sensação de caminhar com alguém ao lado, suar.

será do olá pesado que me dás esta manhã, uma maneira de dizer que sofres.

será do calor ou da ansiedade, do calor ou da ansiedade, do calor ou da ansiedade.

sábado, 8 de julho de 2006

diziam

diziam que não tinha jeito para crianças, que era esse o seu medo: se ao longe, na rua, uma pequeníssima criatura se aproximava, correndo, gritando aquela inconsciência de ainda se lembrar de ter nascido, ele virava costas e procurava a primeira porta onde se proteger. sim, dentro de portas, sentia-se protegido, por estranho que pareça. um vez, na cidade, chegou mesmo a entrar dentro de um infantário e a respirar de alívio.

diziam que não suportava ver uma mulher a chorar, que esse era mesmo o seu medo: trazia lembranças de quando era pequeno, do dia em que bateu à porta, solene e sussurrante, a notícia da morte do seu pai. durante semanas, a mãe chorou à janela, na esperança de um regresso, depois chorou pelos corredos, esperando vê-lo sair de alguma das salas da casa, e finalmente chorou no quarto, à espera de acordar do pesadelo. nunca se esqueceu desses rios de choro materno, e só encontrava sossego no choro fácil dos crocodilos.

diziam que não gostava que lhe tocassem, que era o seu pânico esse, sempre: era-lhe difícil sair à rua, sempre no receio de um raspão que fosse, numa esquina, junto à montra de uma loja de electrodomésticos. comprar, não podia comprar nada, por não suportar a possibilidade de um toque, de um simples deslizar de mão na mão na altura de receber o troco. respirava fundo sempre que queria tomar um café (as máquinas de serviço automático tantas vezes avariadas, que desespero). descansava só quando em sua casa, recebia a visita das suas vizinhas, que o abraçavam ternamente, dizendo flores ao ouvido.

quinta-feira, 6 de julho de 2006

bilhete

acordo devagar, noite, ou este sol todo a entrar pela janela e o calor que me desimpede o corpo de ser leve. trinta minutos apenas e toda a higiene pessoal, senhoras na conversa do lado de lá da rua, uma antiga namorada a lançar flores da varanda do sexto andar. acordo devagar, noite, tantas tantas vezes assim despido.

acordo devagar, noite, ou os sonhos que se repetem a cada adormecer, mesas postas e algum vinho, quantas caras conhecidas junto ao leito, o calor o calor o calor. acordo, sim, mas era de uma outra coisa que eu te queria falar, a forma que senti na palma das mãos quando a abracei, a erecção desta manhã, devagar devagar.

acordo devagar, noite, ou ainda algumas maneiras de me fazer sorrir apesar do verão. limpa-me a testa, limpa, do suor que escorre algures de um outro eu que não dorme nem acorda nem sou eu nem está aqui. acordo, acordo, p-a-u-s-a-d-a-m-e-n-t-e, mais oportunidades de te dizer que ainda não cheguei. acordar. acordar.

quarta-feira, 5 de julho de 2006

um título como um daqueles filmes italianos

pisa devagar o tapete da porta da entrada, sorri desleixada, passa com a mão pela testa desviando os cabelos que te caem pelos olhos, diz bom dia, daquela maneira que tu sabes dizer bom dia. [pausa]


agora vem mais devagar, deixa os teus dedos enrolados nos pelos do meu peito, morde devagar o teu lábio, enxuga o canto dos olhos onde ficou a marca do vento forte ao virar da esquina. [pausa]


era bom que delimitássemos a área de intervenção do amor nas nossas vidas - criar quartos seguros onde adormecer e acordar pacificamente - vender a bom preço todas as memórias para aqueles que não tiveram tanta sorte como nós - ser capaz de não dizer idiotices uma vida inteira.


mais devagar, mais devagar. podes até fingir que não te interessa, quando os teus olhos se cruzam com os dele pela primeira vez. lá fora um carro buzina muito alto e tu segues serena. devagar, devagar. [pausa]


ainda mais qualquer coisa para fazer- e simplesmente voltar atrás.

sábado, 1 de julho de 2006

quente

liguei o rádio baixinho, ainda as cortinas estavam fechadas mas já se sentia alguma brisa quente que andava pela casa a avisar-me que certas medidas se vão desfazendo na nossa vida, coisas que nos parecem grandes quando nascemos vão minguando ao longo dos anos, coisas tão pequenas que mal as víamos e depois aparecem enormes, como menires, unhas ou mãos dadas no silêncio do quarto onde toca o rádio baixinho.

os teus cabelos amaciavam no meu peito e o meu sorriso crescia no tamanho desse sonho bom que era poder abraçar-te e falar ao teu ouvido. seria ainda essa brisa quente a andar pelo corredor, a entrar pelas janelas, uma caneta que não escreve, um sorriso que não acaba, a minha falta de jeito que até nos sonhos se revela, coisas tão pequenas onde depois tropeçamos, coisas tão grandes que até nos arriscamos a esquecê-las, como os teus cabelos a amaciar no meu peito.

aquela mesma brisa quente que me fez levantar da cama de olhos fechados, a testa suada de tantas memórias guardadas dentro, o corpo que treme devagar a recuperação do respirar entediado dos dias a dias, parece que estamos sempre a meio-tempo nesta vida, com um pé nele e a alma a escorregar para outro lado, onde as coisas pequenas se tornam grandes, e as grandes, de tão efémeras, viram pequenas, como esta brisa quente que me fez levantar da cama.