sábado, 3 de junho de 2006

vende-se rapaz

é de desconfiar sorriso tão grande em público - logo de seguida, o mais certo é cair-lhe da testa uma tristeza pesada que logo se procurará aliviar numa cerveja ou numa asneira descontrolada a sair-lhe dos lábios.

ainda assim, é alegre e animado, conta piadas, é expressivo, carinhoso, amoroso, rabugento, em tantas coisas rápido em tantas outras lento. costuma encontrar a passear-se por aí, cabeça no ar a olhar pormenores de janelas e sótãos.

encontram-no muitas vezes nas palavras, muitas vezes no silêncio. tanto faz viagens inteiras sozinho no carro calado como um rádio avariado, como canta tudo aquilo que o rádio renascido lhe sugerir.

de aspecto, apresenta-se bem: cabelo despenteado e em falta, olhos castanhos claros chorosos, maõs macias, dedos indicadores, boca desenhada, pernas grossas, barriga bonita, pés calçados, muito pelinhos a sair pelos botões.

com este calor, dorme despido. arrepende-se muitas vezes de não ler antes de dormir mas sente-se aconchegado na cadeira do computador. tem um relógio que lhe deram nos anos e come iogurtes pela manhã.

de certa forma, cultiva os quantos segredos sobre si mesmo, na exacta medida em que os revela ao deus dará. não está propriamente consciente de algum valor que lhe possa ser atribuído, mas o mais certo é continuar por cá. vende-se rapaz.

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