quarta-feira, 28 de junho de 2006

Sr. Carteiro, leve esta a carta a quem tem que a receber...

"Olha, queria dizer-te que aqui em casa, nós agora somos poucos para tudo o que temos tido para fazer. A roupa acumula-se num dos bancos da cozinha, o frigorífico esvazia-se consoante as necessidades de cada um e para fazer compras é preciso encontrar alguns minutos no meio de tanta hora marcada nas agendas. A cama tem ficado sempre por fazer, dia após dia, e na sala tenho alguns jornais que, de tão antigos, parecem até já ter ficado sem data. Olha, queria dizer-te que sem ti, parece, vou ficando sem vontade de arrumar isto, vou ficando mais sozinho aqui a um canto, só a sentir os ponteiros do relógio a descer e a subir na sua função. Vem a noite e vem o dia e nunca tu, e aqui em casa, nós agora somos poucos para tudo o que uma casa precisa para viver. Olha, eu acordo sempre um pouco suado e a tossir, talvez seja dos cigarros ou das cervejas que bebo todas as noites, para me esquecer de que tu não estás. levo-me vagaroso até à casa de banho e encontro-me pelo espelho, de olhos sujos, cara fechada. Olha, eu continuo a comer os teus iogurtes todas as manhãs, e a beber dos teus sumos, e a comprar as tuas bolachas e os teus chocolates preferidos. Olha, eu continuo a ler os romances de que tu gostas, a citar poemas do Eugénio de Andrade ao miúdo do quarto andar quando o encontro na escada, a perder-me nas livrarias na secção dos livros infantis. Olha, eu continuo a ver os filmes de que tu gostas, as notícias no mesmo canal em que tu vês, e empolgo-me com as corridas do Simão, mesmo que nunca tenha ligado muito ao futebol ou ao Benfica. Olha, eu e os meus outros eus todos que vivem aqui em casa, somos poucos para tudo o que há a fazer, agora que tu não estás. E também ficamos por aqui, nos nossos cantos, à espera de ouvir o barulho das tuas chaves a abrir a porta, o teu perfume e o teu sorriso a encher a casa de tudo aquilo que lhe falta."

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