quinta-feira, 8 de junho de 2006

pessoas nos olhos - 1

visitou-me o meu avô inglês - vinha de sobrecasaca e chapéu de coco, com uns calções de banho azul e umas chinelas, pronto para me levar a passear na praia. não me lembro bem do seu nome, mas lembro-me que tinha um grande bigode e que sorria como uma criança pequena, enquanto me segurava a mim por uma mão, e um grande jornal de domingo na outra.

mais atrás uma rapariga da escandinávia guardava livros dentro da camisa e engordava engordava engordava. a mãe dela era uma senhora respeitável e custava-lhe ter que tolerar toda aquela literatura. quando a chamava para jantar, a rapariga deslizava por um corredor com o triplo do tamanho do meu e servia-lhe a sopa já fria. para ver o que custa a vida, dizia ela.

o pai da rapariga não existia, pelo menos no meu sonho. lembro-me de tentar falar disso durante o jantar, mas o meu avô inglês, de grandes barbatanas e óculos de mergulho, disse-me que de certos mares, é melhor não retirar marés. a rapariga da escandinávia levantava-se com dificuldade e a mãe agora ria muito porque tinha provado um copo de um vinho licoroso que eu tinha na cozinha.

sempre que o meu avô inglês me visita, eu sinto-me assim meio tonto e todas as coisas começam a rodar, pessoas nas paredes e móveis no chão, tapetes que voam não sendo do Aladino. ainda por cima, enche-me sempre a casa de outras visitas, o meu avô inglês, e fala muito pouco comigo porque não sabe a minha língua. saiu, quando amanhecia, pela varanda da cozinha, e deixou-me um iogurte aberto em cima da mesa.

Sem comentários:

Enviar um comentário