sábado, 24 de junho de 2006

gira-discos

o amor não é uma questão de sorte, alteração de ritmo traída pelo olhar vago e consumido de uma miúda ao fundo de um bar, numa cidade que já não existe, embora ainda tente espernear desajeitada. o amor não é um telefone que toca e que se desliga no ouvido de outrém, uma ninharia como esta chuva envergonhada que me molha aos ombros, a mim, que estou de férias e até penso que verão.

não esperem, no entanto, que o defina - o amor é, por princípio, indefinível - e goza o estatuto criado por uns quantos que vieram antes de mim e, por falta de o fazer - como eu - escrevem-no. talvez por isso eu me sente na beira desta pedra fria, engula o ar seco na minha garganta dorida e faça de mim o que não tive nunca coragem de fazer com alguém. mesmo sendo de madrugada, eu não sei como é que adormeci.

o amor não é uma casa onde se entre por uma porta, nem uma porta onde se toque à campaínha, nem uma campaínha que nos acuda em momentos de aflição. o amor não é uma família reunida à volta de uma mesa, nem um nome que se dá aos filhos porque os filhos já têm quase trinta anos e ainda não sabem como nos hão-de dar netinhos. não. mas não esperem por mim, - sobretudo, não esperem por mim - procurem antes nessas nuvens que acabarão por passar.

1 comentário:

  1. Este teu texto está lindíssimo, C. O Amor-Sentimento não se consegue definir pelo amor-palavra... e para quê defini-lo? Se existe deve apenas sentir-se.
    Beijo*

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