segunda-feira, 12 de junho de 2006

estado de espírito com citação - II

a minha cara transporta todo o peso do meu corpo, os corredores frescos sob as arcadas tendem a disfarçar, mas ainda assim quem olha, quem realmente olha, percebe, a minha cara com todo o peso do meu corpo, a minha cara trancada, a minha cara calada, transportadora deste cheiro a sardinhas assadas que me faz fechar em casa.

esta cidade condenada a desaparecer debaixo das suas próprias reconstruções e uma banda sonora roubada à sala da minha casa, levada como se pode dentro da cabeça, umas quantas fotografias tiradas com os olhos, o calor a deslavar-me a face, esta cidade condenada a desaparecer, e uns quantos idiotas a cantar-lhe ainda a beleza.

é mil novecentos e setenta e nove? não, estamos no século vinte e um, mesmo que ainda exista quem pense que os homens e as mulheres são prateleiras diferentes de um mesmo armário, mesmo que ainda exista quem renuncie a amar abertamente quem ama, só porque tem barba e o mesmo género no bilhete de identidade.

esta cidade condenada a desaparecer debaixo das suas próprias reconstruções, um bilhete para longe daqui, o meu desejo de nunca mais ter que me masturbar para aquietar a alma, o meu querer ser cego e surdo e mudo, o meu querer a paz de mim mesmo, por uns segundos só, esta cidade condenada a desaparecer, levando-me dentro, dentro de si.

1 comentário:

  1. e tudo isto se sente quando simplesmente se atravessa a rua...

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