terça-feira, 27 de junho de 2006

certas coisas pertencem aos livros de poesia

certas coisas pertencem aos livros de poesia, a lâmina com que cortei a face esta manhã, o álcool com que a estanquei, a tua voz perdida na minha cabeça em toda a parte. olhar-me no espelho e pensar o início de um romance, comprar a velhinhas que vivem em aldeias antigas fotografias de casamentos, pedir um copo de vinho e olhar os carros que passam pela estrada.

certas coisas pertencem aos livros de poesia, a minha camisa suja caída no chão do quarto, o cheiro a sexo impregnado nas minhas mãos, listas e listas de compras de uma casa desordenada, um telefonema em que se fala das coisas mais banais. telefonar-te e não ter resposta, andar pelas ruas em busca de um sorriso fácil, comprar um bilhete para o comboio que vai partir.

certas coisas pertencem aos livros de poesia, esta memória que não tenho das coisas que aconteceram quando eu não existia, uma série de livros amontoados sobre a mesa da cozinha, os teus iogurtes preferidos no frigorífico, a tua mão que agora não vive em mim. pensar em ti e tudo parecer tão fácil de tão difícil que é, entrar no chuveiro e fechar os olhos com força, apertar a garganta antes de adormecer.

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