sexta-feira, 9 de junho de 2006

casa

ela chega e coloca um disco no leitor de cd's.

dói-me a cabeça, hoje, fizeste demasiado barulho ao acordar. a cidade parou algures na fotografia que tirei nas últimas semanas, espécie de jardim abandonado às plantas e a alguns loucos que insistem em dar-me os bons dias. dói-me a cabeça e quero que me beijes. quero, instintivamente, que me beijes. baixo os olhos e renuncio à descoberta de que certas coisas se fazem sem pensar. espero.

ela levanta-se, de novo, e procura uma outra música.

não há nada para fazer nesta casa enorme quando tu não estás. procuro dentro dos meus sacos aquele poema que me dedicaram e finjo que desta janela se vê o caminho para a minha escola quando eu era pequena. quero voltar a ter casacos compridos e neve na fita com que seguro o cabelo. quero aceitar as pequenas coisas que me oferecem os loucos do jardim. quero acreditar de que os dias não se repetem.

tocam à campaínha - a música parou - mas não é ninguém.

estou descalça. acho que assim percebo melhor os corredores. passo as minhas mãos pelas paredes cheias de fotografias de pessoas que eu não conheço. sou uma estranha, aqui, nesta casa, nesta cidade, em ti. eu sempre preferi procurar os pormenores e agora assusto-me com tanta coisa já feita, tanta construcção, tantas máscaras de meninos e meninas a fingirem-se importantes.

ela tira o disco do leitor e sai.

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