sexta-feira, 16 de junho de 2006

capricho n.º 24

não sei que horas eram quando me vieste tocar à porta, mas chovia, trazias os cabelos molhados e um saco com roupa pendurado nas tuas costas. não me disseste nada, entraste como quem é dono de casa, conhecias bem os cantos de cada um dos armários onde amontoei livros durante anos e o único sinal de estranheza eram os teus pés molhados a deixar marcas pelo chão.

não sei que horas eram quando te dei uma toalha para secares os cabelos, contigo a olhar-me como quem vê a noite finalmente desfeita, tinhas dezoito anos e o mundo inteiro para correr, vieste parar à minha porta enquanto eu dormia, tiraste do saco uma camisa comprida, despiste-te e vestiste-a à minha frente, sem estranheza. sim, apesar de tudo, eu ainda me lembrava do teu nome.

não sei que horas eram quando adormeceste no meu sofá, eu apaguei a luz e sentei-me junto à janela da cozinha a fumar um cigarro longo. quantas mulheres se nos oferecem assim como tu te ofereceste a mim, silenciosa e senhorial, quando ainda eras só uma adolescente. sei que nunca antes e nunca depois voltei a ter esse encanto de ser dominado por uma só mulher. mas tu és como o vento. e no acordar do outro dia, os teus passos secos pelo corredor eram o único sinal da tua presença.

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