quinta-feira, 1 de junho de 2006

00h00

a minha ideia para um conto é um livro velho comprado numa feira e deixado sobre a mesa ao lado de um mapa das estradas. é meia-noite e eu escrevo, como nunca escrevo a meio da noite. a meio de mim, um livro, um livro velho deixado sobre a mesa, um mapa das estradas, um diário errático, uma caixa de cigarrilhas vazia. a minha ideia para um conto é ainda estar aqui.

sublinho e esqueço umas quantas ideias de viagens. vou abrir o livro ao calhas, digo, e faço-o. "das noites quem esse abismo todo já conhece quem de todo o espera quando o tempo vier cingir-te o corpo"*. ou de outro, ainda outro livro. assim. "quando eu era pequena a minha mãe bateu-me muito dos dois lados da cara".**

e quem sou eu, sombrio ou veraneante, quem se chega a este estado de cara fechada e mal disposto. o meu corpo reage e dói-se a si mesmo. a anca deslocada, a joelho, a barriga. comi ou não comi, não me lembro bem, um homem sozinho a carregar caixotes e alarmes dentro da cabeça. dizem que me cito demasiadas vezes, que me repito, que me insisto. mais que a minha vida, valem-me as palavras. infelizmente.

*gastão cruz **nuno bragança

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