sexta-feira, 30 de junho de 2006

a musa

já que aqui estou escrevo. apetecia-me ficar a noite toda a beber, a ouvir este cd e a sorrir que nem um parvo, mas já só me resta uma cerveja no frigorífico. este cd que me faz sacudir a cabeça bem devagar de um lado ao outro, embalado pela felicidade de estar ainda com a sensação de apertar a mão a um homem que eu adoro. já que aqui estou conto-te isto.

conto-te que me apetece dançar todo ao longo do corredor. homens como eu ficam felizes por conversar com o Arnaldo Antunes e trazer para casa o novo cd dos The Divine Comedy. homens como eu apaixonam-se facilmente por mulheres como tu. já que aqui estou digo-te isto. mesmo que nunca o venhas a ler, nem a ouvir, nem a saber que eu existo assim como existo aqui para ti, onde tu não me vês.

onde tu não me vês eu dou saltinhos pequenos a caminho do céu, um céu que eu invento quando o meu sorriso estica pela cara e tenta até ser mais largo que as minhas bochechas. tenho esta sensação de, mais que estar a ouvir a música, estar dentro da música. e no meio da noite entro dentro de um comboio e sigo até ao norte onde o mar chega forte junto da areia e a namora como eu sonho namorar-te a ti. já aqui passei, escrevo.

quarta-feira, 28 de junho de 2006

Sr. Carteiro, leve esta a carta a quem tem que a receber...

"Olha, queria dizer-te que aqui em casa, nós agora somos poucos para tudo o que temos tido para fazer. A roupa acumula-se num dos bancos da cozinha, o frigorífico esvazia-se consoante as necessidades de cada um e para fazer compras é preciso encontrar alguns minutos no meio de tanta hora marcada nas agendas. A cama tem ficado sempre por fazer, dia após dia, e na sala tenho alguns jornais que, de tão antigos, parecem até já ter ficado sem data. Olha, queria dizer-te que sem ti, parece, vou ficando sem vontade de arrumar isto, vou ficando mais sozinho aqui a um canto, só a sentir os ponteiros do relógio a descer e a subir na sua função. Vem a noite e vem o dia e nunca tu, e aqui em casa, nós agora somos poucos para tudo o que uma casa precisa para viver. Olha, eu acordo sempre um pouco suado e a tossir, talvez seja dos cigarros ou das cervejas que bebo todas as noites, para me esquecer de que tu não estás. levo-me vagaroso até à casa de banho e encontro-me pelo espelho, de olhos sujos, cara fechada. Olha, eu continuo a comer os teus iogurtes todas as manhãs, e a beber dos teus sumos, e a comprar as tuas bolachas e os teus chocolates preferidos. Olha, eu continuo a ler os romances de que tu gostas, a citar poemas do Eugénio de Andrade ao miúdo do quarto andar quando o encontro na escada, a perder-me nas livrarias na secção dos livros infantis. Olha, eu continuo a ver os filmes de que tu gostas, as notícias no mesmo canal em que tu vês, e empolgo-me com as corridas do Simão, mesmo que nunca tenha ligado muito ao futebol ou ao Benfica. Olha, eu e os meus outros eus todos que vivem aqui em casa, somos poucos para tudo o que há a fazer, agora que tu não estás. E também ficamos por aqui, nos nossos cantos, à espera de ouvir o barulho das tuas chaves a abrir a porta, o teu perfume e o teu sorriso a encher a casa de tudo aquilo que lhe falta."

terça-feira, 27 de junho de 2006

certas coisas pertencem aos livros de poesia

certas coisas pertencem aos livros de poesia, a lâmina com que cortei a face esta manhã, o álcool com que a estanquei, a tua voz perdida na minha cabeça em toda a parte. olhar-me no espelho e pensar o início de um romance, comprar a velhinhas que vivem em aldeias antigas fotografias de casamentos, pedir um copo de vinho e olhar os carros que passam pela estrada.

certas coisas pertencem aos livros de poesia, a minha camisa suja caída no chão do quarto, o cheiro a sexo impregnado nas minhas mãos, listas e listas de compras de uma casa desordenada, um telefonema em que se fala das coisas mais banais. telefonar-te e não ter resposta, andar pelas ruas em busca de um sorriso fácil, comprar um bilhete para o comboio que vai partir.

certas coisas pertencem aos livros de poesia, esta memória que não tenho das coisas que aconteceram quando eu não existia, uma série de livros amontoados sobre a mesa da cozinha, os teus iogurtes preferidos no frigorífico, a tua mão que agora não vive em mim. pensar em ti e tudo parecer tão fácil de tão difícil que é, entrar no chuveiro e fechar os olhos com força, apertar a garganta antes de adormecer.

sábado, 24 de junho de 2006

gira-discos

o amor não é uma questão de sorte, alteração de ritmo traída pelo olhar vago e consumido de uma miúda ao fundo de um bar, numa cidade que já não existe, embora ainda tente espernear desajeitada. o amor não é um telefone que toca e que se desliga no ouvido de outrém, uma ninharia como esta chuva envergonhada que me molha aos ombros, a mim, que estou de férias e até penso que verão.

não esperem, no entanto, que o defina - o amor é, por princípio, indefinível - e goza o estatuto criado por uns quantos que vieram antes de mim e, por falta de o fazer - como eu - escrevem-no. talvez por isso eu me sente na beira desta pedra fria, engula o ar seco na minha garganta dorida e faça de mim o que não tive nunca coragem de fazer com alguém. mesmo sendo de madrugada, eu não sei como é que adormeci.

o amor não é uma casa onde se entre por uma porta, nem uma porta onde se toque à campaínha, nem uma campaínha que nos acuda em momentos de aflição. o amor não é uma família reunida à volta de uma mesa, nem um nome que se dá aos filhos porque os filhos já têm quase trinta anos e ainda não sabem como nos hão-de dar netinhos. não. mas não esperem por mim, - sobretudo, não esperem por mim - procurem antes nessas nuvens que acabarão por passar.

terça-feira, 20 de junho de 2006

expeditur

tenho frio e o meu corpo treme, semelhança de ataque cardíaco sobre a mesa da sala, pequenas estatuetas africanas que caem para o chão, as folhas riscadas, cartas da edp, e todos os minutos de um relógio digital a reflectir nas lentes dos meus óculos. tenho frio, tenho fome e sede, e tu não estás.

tenho frio e ninguém me entra pela porta dentro, apesar de quando olho em volta, para as minhas coisas, tudo me parecer estranho e eu ser até capaz de jurar que alguém aqui esteve, vivendo a minha vida por mim, durante alguns minutos dos quais já me esqueci. tenho frio, tenho fome e este mar, onde tu não estás.

tenho frio e quem te poderia adivinhar o sorriso senão eu, no exacto momento em que caía da mesa ao chão, corpo sem forças e sem rumo, tensão inacabada, olhar discreto, porque já está para se fechar, porque já perdeu alguma vida, porque já quase morreu. tenho frio, este mar cheio de ondas, e tu não estás.

segunda-feira, 19 de junho de 2006

"i use to shoot you down"

uma tarde inteira dentro da caixa de correio, um corpo rarefeito em pedaços de papel mastigados, pasta a escorrer-me aos cantos da boca, uma tarde inteira de olhos fixos pela ínfima luz que entra pelas frinchas da caixa de correio, publicidade deitada em doses industriais, a tua sombra finalmente a entrar por mim dentro, uma visão apenas.

uma tarde inteira dentro da caixa do correio, uma música japonesa a fazer de sol poente como nos filmes, uma garrafa de água fresca aberta para festejar uma partida, os meus dedos curtos de serem tão curtos, os meus pés doridos de serem tão grandes, uma tarde inteira de olhos fixos na rua onde tu não passas, onde tu não vives, onde tu nunca choraste a tristeza de uma tarde inteira sem te ver.

uma tarde inteira dentro da caixa do correio, o comer já frio e esquecido dentro de um prato no meio de uma cozinha desarrumada, a roupa toda por lavar, os livros perdidos de alguma ordem nos sofás onde já ninguém se senta, o acumular do pó nos vários destinos do meu sorriso desaparecido, um corpo rarefeito em pedaços de papel mastigados, pasta a escorre-me aos cantos da boca, mensagem pendente, adeus.

a letra t

tentar alinhar uma série de letras pode ser um complicado trabalho para quem sente que os dedos tremem ao sair de um casaco comprido demais para ser elegante. o tempo continua cinzento e os meus olhos cada vez mais cegos - custa-me até distinguir as formas nestas folhas de papel. a dor nas costas voltou e o enjoo de se ser assim.

tentar não roer as unhas nem sentir o nervoso pequenino que me invade as manhãs - era isso o que eu queria ser quando fosse grande, seguro de mim mesmo. passo a língua pelos dentes e fecho os olhos, talvez um dia consiga ouvir o mar, talvez possa até escrever um poema. tentar alinhas uma série de letras pode ser um trabalho complicado.

o enjoo de se ser assim é como um cromo repetido na minha colecção, a partir de certa altura pareceu calhar-me em todas as carteirinhas. tenho uma tesoura em cima da mesa e apetece-me sentir o metal frio a tocar-me as veias do pulso. não, eu nunca me esqueço de nada, certas coisas que insistem em gravar-se na minha pele. tentar não roer as unhas.

sexta-feira, 16 de junho de 2006

capricho n.º 24

não sei que horas eram quando me vieste tocar à porta, mas chovia, trazias os cabelos molhados e um saco com roupa pendurado nas tuas costas. não me disseste nada, entraste como quem é dono de casa, conhecias bem os cantos de cada um dos armários onde amontoei livros durante anos e o único sinal de estranheza eram os teus pés molhados a deixar marcas pelo chão.

não sei que horas eram quando te dei uma toalha para secares os cabelos, contigo a olhar-me como quem vê a noite finalmente desfeita, tinhas dezoito anos e o mundo inteiro para correr, vieste parar à minha porta enquanto eu dormia, tiraste do saco uma camisa comprida, despiste-te e vestiste-a à minha frente, sem estranheza. sim, apesar de tudo, eu ainda me lembrava do teu nome.

não sei que horas eram quando adormeceste no meu sofá, eu apaguei a luz e sentei-me junto à janela da cozinha a fumar um cigarro longo. quantas mulheres se nos oferecem assim como tu te ofereceste a mim, silenciosa e senhorial, quando ainda eras só uma adolescente. sei que nunca antes e nunca depois voltei a ter esse encanto de ser dominado por uma só mulher. mas tu és como o vento. e no acordar do outro dia, os teus passos secos pelo corredor eram o único sinal da tua presença.

segunda-feira, 12 de junho de 2006

estado de espírito com citação - II

a minha cara transporta todo o peso do meu corpo, os corredores frescos sob as arcadas tendem a disfarçar, mas ainda assim quem olha, quem realmente olha, percebe, a minha cara com todo o peso do meu corpo, a minha cara trancada, a minha cara calada, transportadora deste cheiro a sardinhas assadas que me faz fechar em casa.

esta cidade condenada a desaparecer debaixo das suas próprias reconstruções e uma banda sonora roubada à sala da minha casa, levada como se pode dentro da cabeça, umas quantas fotografias tiradas com os olhos, o calor a deslavar-me a face, esta cidade condenada a desaparecer, e uns quantos idiotas a cantar-lhe ainda a beleza.

é mil novecentos e setenta e nove? não, estamos no século vinte e um, mesmo que ainda exista quem pense que os homens e as mulheres são prateleiras diferentes de um mesmo armário, mesmo que ainda exista quem renuncie a amar abertamente quem ama, só porque tem barba e o mesmo género no bilhete de identidade.

esta cidade condenada a desaparecer debaixo das suas próprias reconstruções, um bilhete para longe daqui, o meu desejo de nunca mais ter que me masturbar para aquietar a alma, o meu querer ser cego e surdo e mudo, o meu querer a paz de mim mesmo, por uns segundos só, esta cidade condenada a desaparecer, levando-me dentro, dentro de si.

estado de espírito com citação

não é meu, é de um autor chileno, Nicanor Parra.

"
1979

Macul con Irarrázaval
a 3 ó 4 cuadras del Pedagógico
brumo
carabineros armados hasta los dientes
una mujer escarba la basura
autos pasan en todas direcciones
y los temibles plátanos orientales

esta ciudad está condenada a desaparecer

es el mundo me dicen
no te preocupes
es el año 1979"

domingo, 11 de junho de 2006

algumas verdades em sacos separados

esta manhã, andei na rua de olhos fechados. primeiro, tive medo - e se aparece alguém, e se chocar com uma árvore - mas a calçada era larga e não havia ninguém à volta. esta manhã, andei na rua de olhos fechados. e quando me senti confiante, quase levantei voo.

gosto de fotografias. tenho-as numa caixa guardadas. sento-me no tapete da sala e retiro-as com cuidado. olho-lhes para dentro com vontade de ficar dentro delas. para estar noutros tempos, noutros dias, noutras peles. passo a mão pela cara e volto a guardá-las.

agora só soletro pedaços de frase, para quê desenvolver uma ideia inteira, um pedaço, um resto de frase, chega para te transmitir toda a intensidade que posso dar - os olhos fechados, as fotografias - agora só soletro pedaços de frase, pequenos contributos para uma verdade que não existe.

sexta-feira, 9 de junho de 2006

casa

ela chega e coloca um disco no leitor de cd's.

dói-me a cabeça, hoje, fizeste demasiado barulho ao acordar. a cidade parou algures na fotografia que tirei nas últimas semanas, espécie de jardim abandonado às plantas e a alguns loucos que insistem em dar-me os bons dias. dói-me a cabeça e quero que me beijes. quero, instintivamente, que me beijes. baixo os olhos e renuncio à descoberta de que certas coisas se fazem sem pensar. espero.

ela levanta-se, de novo, e procura uma outra música.

não há nada para fazer nesta casa enorme quando tu não estás. procuro dentro dos meus sacos aquele poema que me dedicaram e finjo que desta janela se vê o caminho para a minha escola quando eu era pequena. quero voltar a ter casacos compridos e neve na fita com que seguro o cabelo. quero aceitar as pequenas coisas que me oferecem os loucos do jardim. quero acreditar de que os dias não se repetem.

tocam à campaínha - a música parou - mas não é ninguém.

estou descalça. acho que assim percebo melhor os corredores. passo as minhas mãos pelas paredes cheias de fotografias de pessoas que eu não conheço. sou uma estranha, aqui, nesta casa, nesta cidade, em ti. eu sempre preferi procurar os pormenores e agora assusto-me com tanta coisa já feita, tanta construcção, tantas máscaras de meninos e meninas a fingirem-se importantes.

ela tira o disco do leitor e sai.

quinta-feira, 8 de junho de 2006

pessoas nos olhos - 1

visitou-me o meu avô inglês - vinha de sobrecasaca e chapéu de coco, com uns calções de banho azul e umas chinelas, pronto para me levar a passear na praia. não me lembro bem do seu nome, mas lembro-me que tinha um grande bigode e que sorria como uma criança pequena, enquanto me segurava a mim por uma mão, e um grande jornal de domingo na outra.

mais atrás uma rapariga da escandinávia guardava livros dentro da camisa e engordava engordava engordava. a mãe dela era uma senhora respeitável e custava-lhe ter que tolerar toda aquela literatura. quando a chamava para jantar, a rapariga deslizava por um corredor com o triplo do tamanho do meu e servia-lhe a sopa já fria. para ver o que custa a vida, dizia ela.

o pai da rapariga não existia, pelo menos no meu sonho. lembro-me de tentar falar disso durante o jantar, mas o meu avô inglês, de grandes barbatanas e óculos de mergulho, disse-me que de certos mares, é melhor não retirar marés. a rapariga da escandinávia levantava-se com dificuldade e a mãe agora ria muito porque tinha provado um copo de um vinho licoroso que eu tinha na cozinha.

sempre que o meu avô inglês me visita, eu sinto-me assim meio tonto e todas as coisas começam a rodar, pessoas nas paredes e móveis no chão, tapetes que voam não sendo do Aladino. ainda por cima, enche-me sempre a casa de outras visitas, o meu avô inglês, e fala muito pouco comigo porque não sabe a minha língua. saiu, quando amanhecia, pela varanda da cozinha, e deixou-me um iogurte aberto em cima da mesa.

quarta-feira, 7 de junho de 2006

e para não te esqueceres de mim, assino.

não tenho bem a noção mas a música parecia andar para cima e para baixo, talvez fosse do trompete, soprar com mais ou menos vigor, faz rodar o botão do volume da aparelhagem, e depois eu também não estava assim com tanta atenção ao que nos rodeava, só pensava se estaria a falar o suficientemente alto para me ouvires sempre sem qualquer esforço.

da luz, parecia estarmos iluminados para uma peça de teatro, um foco sobre a nossa mesa e, ou eram os meus olhos frágeis, ou todo o restante bar estaria às escuras, perdemo-nos a falar de coisas que guardamos dentro de nós e nem vimos as horas, esquecemo-nos até dos copos vazios e umas bolachas salgadas em forma de peixinhos foi eu que as comi porque me tinha esquecido de jantar támbém.

há certamente um encanto muito peculiar nestes encontros, quando duas pessoas se sentam a uma mesa limpa de um bar e desatam a falar de tudo como se houvesse uma ansiedade de nos conhecermos bem e sermos muito amigos um do outro. há certamente um encanto que terá a ver com os nossos olhos, os nossos ouvidos, o nosso nariz, os nossos dedos e a nossa língua. há certamente um encanto nesta forma de dizer de novo eu volto.

terça-feira, 6 de junho de 2006

capitão romance

tenho um barco à porta e em frente o deserto. estou sentado na soleira, em frente a um espelho grande que encontrei num velho sucateiro. olho-me, à espera que me cresçam asas das omoplatas. o meu corpo cada vez mais marcado pelo sol, mais magro, ansioso- tenho um barco à porta, o deserto avança.

tenho um barco à porta, desenhei-o com lápis de cor e folhas roubadas aos papelões da cidade. olhos as letras desconhecidas e as impressões falhadas, contas que nunca ninguém vai pagar. olho-me no espelho, insistentemente, à espera que me cresçam asas das omoplatas. os meus braços que se esticam pelos lápis, os olhos que choram um pequeno mar - tenho um barco à porta, o deserto avança.

tenho um barco à porta, danço pelas tardes em movimentos desconexos e invento uma lógica nova para o meu pensamento. do outro lado da casa, do outro lado da rua, pessoas passam a espreitar a minha sombra inquieta. olho-me no espelho e o meu brilho espalha-se pelo infinito, chegando até aos outros planetas, ao céu. espero que me cresçam asas das omoplatas - tenho um barco à porta e só o deserto avança.

segunda-feira, 5 de junho de 2006

onde se fala de esplanadas, relações e imprevistos

a história conta-se assim - eram três da tarde e um sol que nos torrava o espírito, sentados numa esplanada no meio da cidade, o barulho dos carros e a nossa pele ameaçada pela intensidade dos movimentos que se repetiam à nossa volta. a história conta-se assim - eu tinha uma camisa verde e o cabelo muito bem cortado, tu tinhas um olhar que não era igual a nada que eu tivesse experimentado.

a história - rapaz conhece rapariga, olhares trocados, frequentadores da mesma esplanada, uma cidade grande, aquele sentimento de solidão que não despega nunca, aquela esperança de ver girassóis a crescer nas calçadas da cidade. conta-se assim - um dia eu chego junto de ti, pergunto-te o nome, trocamos telefones, sorrimos muito, colocamos os óculos em cima da mesa, parecemos sincero, vamos para casa.

a história conta-se assim - eram três da tarde e a tarde inteira pela frente, os lábios de cada um a moldarem-se a palavras que insistíamos inventar e garrafas de água com gás muito frescas a enfeitar a mesa, no meio dos papéis que rabiscávamos. a história conta-se assim - de maneiras que às vezes não conseguimos bem explicar, surgem na nossa vida situações que preferimos não controlar. e a história continua.

domingo, 4 de junho de 2006

transacção

o que eu tinha por garantido agora já não tenho e é como se sentisse uma liberdade intensa de fazer o que bem me sinta capaz de fazer. talvez seja por isso que me descalço e ando de um lado ao outro da casa com as mãos pela parede. está calor, está muito calor. dispo a minha roupa e coloco os pés bem próximos um do outro. faço-os o andar num movimento repetido.

a minha cabeça dói-me, às vezes. as minhas costas, os meus ombros, os meus braços, as minhas mãos, as minhas pernas também. é como se o meu corpo estivesse envolvido numa rede de conexões sensíveis que pudessem desenvolver mecanismos de reacção algures pelo meu corpo consoante o tipo de nexo criado entre acontecimentos, estado de espírito e lugar onde me encontro.

o que eu não tenho por garantido é qualquer coisa que vai acontecer depois e o depois é sempre o momento a seguir ao que eu identifico como meu. o que eu não tenho por garantido é o que eu vou pensar ou o que me vais dizer a seguir, é o que me vai doer a seguir. nenhum mapa que eu possa criar me dará alguma solução para isto (os percursos, as dores, as paredes, a casa). talvez não exista sequer solução. de uma ou outra maneira, não a procuro sequer. um pé bem próximo do outro.

sábado, 3 de junho de 2006

vende-se rapaz

é de desconfiar sorriso tão grande em público - logo de seguida, o mais certo é cair-lhe da testa uma tristeza pesada que logo se procurará aliviar numa cerveja ou numa asneira descontrolada a sair-lhe dos lábios.

ainda assim, é alegre e animado, conta piadas, é expressivo, carinhoso, amoroso, rabugento, em tantas coisas rápido em tantas outras lento. costuma encontrar a passear-se por aí, cabeça no ar a olhar pormenores de janelas e sótãos.

encontram-no muitas vezes nas palavras, muitas vezes no silêncio. tanto faz viagens inteiras sozinho no carro calado como um rádio avariado, como canta tudo aquilo que o rádio renascido lhe sugerir.

de aspecto, apresenta-se bem: cabelo despenteado e em falta, olhos castanhos claros chorosos, maõs macias, dedos indicadores, boca desenhada, pernas grossas, barriga bonita, pés calçados, muito pelinhos a sair pelos botões.

com este calor, dorme despido. arrepende-se muitas vezes de não ler antes de dormir mas sente-se aconchegado na cadeira do computador. tem um relógio que lhe deram nos anos e come iogurtes pela manhã.

de certa forma, cultiva os quantos segredos sobre si mesmo, na exacta medida em que os revela ao deus dará. não está propriamente consciente de algum valor que lhe possa ser atribuído, mas o mais certo é continuar por cá. vende-se rapaz.

quinta-feira, 1 de junho de 2006

dia da criança

disseste-me isso ao ouvido como se me condenasses e não sabias que eu passava os dias inteiros segurando-me a vontade de me masturbar em toda a parte. trazia comigo aquele rasganço dentro do estômago, e seria como tomar calmantes, comprimidos, sossegar por uns segundos depois daquela ejaculação só água do costume. disseste-me isso ao ouvido.

eu estava com as mãos afundadas nas caixas de fotografias à procura de uma qualquer resposta do tempo em que eu ainda era (visivelmente) uma criança- isto porque penso que algures a minha feição deve ter mudado, algures eu deixei de ser uma menina sonhadora e calada e terei começado a ouvir os gritos e os estrondos das outras vidas dentro da minha cabeça.

como se me tivessem condenado, enfim, a estar sempre a viver tudo ao mesmo tempo. e nas fotografias não aparece o homem de pedra nem o boneco que subia ao armário porque simplesmente eles não estavam ali. sempre estiveram dentro da minha cabeça, projectados pelos meus olhos. e agora vens condenar-me por me recusar a tomar a medicação, por só querer baixar a mão dentro das calças e parar-me, parar-me, como se páram os filmes.

00h00

a minha ideia para um conto é um livro velho comprado numa feira e deixado sobre a mesa ao lado de um mapa das estradas. é meia-noite e eu escrevo, como nunca escrevo a meio da noite. a meio de mim, um livro, um livro velho deixado sobre a mesa, um mapa das estradas, um diário errático, uma caixa de cigarrilhas vazia. a minha ideia para um conto é ainda estar aqui.

sublinho e esqueço umas quantas ideias de viagens. vou abrir o livro ao calhas, digo, e faço-o. "das noites quem esse abismo todo já conhece quem de todo o espera quando o tempo vier cingir-te o corpo"*. ou de outro, ainda outro livro. assim. "quando eu era pequena a minha mãe bateu-me muito dos dois lados da cara".**

e quem sou eu, sombrio ou veraneante, quem se chega a este estado de cara fechada e mal disposto. o meu corpo reage e dói-se a si mesmo. a anca deslocada, a joelho, a barriga. comi ou não comi, não me lembro bem, um homem sozinho a carregar caixotes e alarmes dentro da cabeça. dizem que me cito demasiadas vezes, que me repito, que me insisto. mais que a minha vida, valem-me as palavras. infelizmente.

*gastão cruz **nuno bragança