quarta-feira, 31 de maio de 2006

uma pequena contribuição para a teoria dos frutos proibidos

de uma árvore nasciam saias vermelhas. eram como as folhas verdes, mas vermelhas e maiores. muito maiores, aliás. a uma árvore de que nascem saias é difícil dar um nome. e por isso o que fazíamos era sentarmo-nos à sua sombra, a ver as saias a desfolhar com o vento. quando uma saia voava, enfim, livre dos ramos das árvores, as meninas corriam a apanhá-la e os rapazes sorriam encantados.

de uma parede caíam maçãs vermelhas. a parede, curiosamente, era verde, e as maçãs eram como os candeeiros, mas vermelhas e menores. transmitiam uma luz que nos encadeava. a uma parede que faz cair maçãs é difícil dar um nome. e por isso o que fazíamos era sentarmo-nos na varanda, a apanhar sol, e a sentir o cheiro intenso das maçãs. quando uma delas caía, um dos rapazes levantava-se, polia-a na manga do casaco e mordia-a. as meninas sentiam calafrios.

do meio do caminho entre a parede e a árvore nasceu um dia um mar azul. a parede e árvore eram verdes, com coisinhas que nasciam vermelhas como as saias ou as maçãs. o mar azul era azul e tinha carros e pessoas e peixes e poemas. os carros pareciam azuis, as pessoas sonhavam azuis, os peixes brilhavam azuis e os poemas eram poemazuis. quando as meninas corriam a apanhar saias ou os rapazes a colher maçãs, molhavam-se todos no mar. e julgo adivinhar que eram felizes.

2 comentários:

  1. gostei muito da mudança no aspecto do blog. Está muito mas de acordo com as últimas coisas que escreveste.

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  2. sim, está muito mais luminoso este blog - verde árvore feliz!

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