domingo, 28 de maio de 2006

um coração a bater por nada

apesar do relato do futebol no rádio, apesar da estrada esburacada, apesar do motor já velhinho passar o tempo a tossir, em mais lado nenhum do mundo faz tanto silêncio como dentro deste carro. a estrada vai dar sempre ao mesmo lado, estava até capaz de o fazer inteiro de olhos fechados. tenho a boca seca, talvez de todo este calor. o resto é o que já está escrito na enciclopédia de história universal.

antes de tudo isto, o sol. os pés dentro de um par de meias brancas, dentro de umas botas, acima uns calções, acima uma camisa, acima uns óculos escuros, acima os cabelos despenteados do costume. lá dentro, o mesmo rapazinho pequenino que se fechava no quarto a dizer, baixinho, um relato de futebol inventado, em frente a folhas onde com letras desenhadas escrevia os nomes dos jogadores.

no meio, ao longe, tu. ao longe, representação na memória, desfile de desenhos adaptáveis ao elemento encontrado. um pé para um lado, um pé para o outro. no meio, ao longe, eu. olhos nos olhos nos olhos nos olhos. lente escura, farol apagado. a palavra fica tímida, assim, ao sol. no meio, sentados na sombra, distante uma da outra, sombras. um coração, ainda, a bater, a bater por nada.

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