quarta-feira, 3 de maio de 2006

a solidão revisitada



eram algumas vozes no prédio, um rumor pelas escadas, o relógio da cozinha parado em frente aos meus olhos, três copos vazios sobre a mesa, a loiça suja ainda, o calendário com os risquinhos que tu lhe fazias, a roupa por lavar, a telefonia a acabar as pilhas, o cheiro do meu corpo a enjoar-me, o meu avô a chegar e a sentar-se a meu lado, o tempo todo esta mesma coisa em mim,

eram as cartas que ainda chegavam com o teu nome, os livros da escola dos miúdos cheios de humidade a um canto, alguns jornais antigos, os dois ou três livros que tu tinhas gostado de ler, os maços de cigarros que eu não parava de fumar, os chinelos que me apertavam os pés, os cotovelos das camisolas muito coçados, a meias por coser, o tempo todo esta mesma coisa em mim,

eram as notícias de coisas que eu cada vez percebia menos, a campaínha que se avariara de tanto tempo sem tocar, a vizinhança que eu já não via para lá dos vidros sujos, eram algumas vozes no prédio, vozes que eu já não reconhecia, um rumor pelas escadas que talvez me viesse buscar, era a minha atenção sempre em ebulição para o que não iria acontecer, o tempo todo esta mesma coisa em mim.

Sem comentários:

Enviar um comentário