quarta-feira, 10 de maio de 2006

simples

ao vigésimo dia de luz, tu sais de casa com um vestido de verão e és atropelada por um carro que não te viu nem travou, mesmo quando já beijava a pele das tuas pernas com o seu ferro quente. assim. simples.

não deixaste muito o que contar. eras jovem e bonita, de um país distante, como todas as fadas e todas as princesas. um dia apareceste-me na rua e eu segui-te até te ver entrar na faculdade. assisti a dezenas de aulas até arranjar coragem para te dizer:

olá.

tu sorriste para mim, pouco sabias dizer em português, saiu-te um

olá

assim mais esticado, distante, envergonhado, francês.

tomamos um café e depois outro e depois fomos ver o tejo e passear pelo bairro alto e fomos à praia e fomos a sintra e fomos a mafra e fomos à ericeira e fomos a peniche e fizemos todo esse mapa turístico que toda a gente conhece e portanto nem vou falar dele.

a pouco e pouco segurei-te a mão, a pouco e pouco seguraste-me o pescoço e beijaste-me de uma forma que ninguém antes tinha inaugurado. assim, luminosamente.

ao vigésimo dia de luz, acordas-me com um beijo, vestes o teu vestido de verão e sais porque tens aulas bem cedo. certas coisas passam demasiado depressa. e por serem tão rápidas ficam registadas como coisas simples nas nossas memórias.

2 comentários:

  1. gosto dessa tua maneira de descomplicar as coisas sérias , como se tudo não passasse de coisas simples

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