segunda-feira, 8 de maio de 2006

restos de pele

se entrasses agora vias-me de olhos muito abertos e o pescoço a ser tomado por uma rigidez que logo te aperceberias como é dolorosa só pelos raios vermelhos que iriam estar em volta do castanho dos meus olhos. se entrasses agora dirias bom dia e eu não teria nenhuma resposta para ti, apenas os olhos assim, como te digo, e algumas lágrimas a soltarem-se cara abaixo.

se entrasses agora ias até achar um tanto inacreditável como eu ainda consigo escrever. sento-me aqui assim a sentir a tensão tomar conta do meu corpo enquanto imagino um cheiro de peixe cozido no ar. talvez não tenha muito sentido, mas de repente tudo parece ter deixado de ter sentido, e isso foi quando hoje de manhã entrei no duche e me apeteceu morrer ali debaixo daquela água quente.

se entrasses agora ias voltar atrás e seguir pela rua como se nada tivesse acontecido, ias preferir pensar que não me tinhas visto, que eu não estava aqui. Talvez parasses num café uns quarteirões abaixo e comesses um bolo enquanto tentasses olhar distraidamente para um jornal em cima da mesa. Talvez não recordasses nunca mais nem a rigidez do pescoço, nem os olhos vermelhos. e algumas lágrimas soltar-se-iam pela tua cara abaixo.

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