sábado, 27 de maio de 2006

poetas

os poetas cruzam-se nas ruas e encolhem os ombros perante as travagens bruscas dos automóveis - têm os cabelos despenteados e riem como estranhos neste mundo, acho muita piada a uma série de coisas sem piada nenhuma e tentando trazer à flor de pele pequenas palavras que só existem dentro das suas cabeças. os poetas almoçam, a maior parte dos dias.

os poetas vestem camisas de botões e acabam, quando velhos, a passear de braço dado com as meninas mais calmas da escola - precisam de um colo, de uma mão, de um olhar atencioso sobre as carecas, enquanto lá dentro arde um fogo intenso que já queimou florestas, comunidades, ideias inteiras. os poetas já não riem, sorriem, e procuram entre os papéis em cima da mesa da sala de jantar, aquele verso aquele único. os poetas nem sempre encontram, descobrem.

os poetas descalçam os sapatos e brincam com os dedos no tapete da sala, têm os dedos sujos de tinta e olham, desconfiados, para as coisas que aparecem evidentes aos olhos dos outros - usam óculos especiais, os poetas, cheios de cores e de sons e sabores e olhares e dedadas (de tinta) nas lentes. os poetas ainda sorriem, mas qualquer coisa de sério se apresta a conquistar os seus lábios. qualquer coisa de salgado e doce (diria eu, incerto). os poetas poetizam.

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