sábado, 20 de maio de 2006

o poema de ruy belo

vinha em mangas de camisa pela estrada principal do povoado, lá desde uma outra terra que se chamava Estrada até ao Forte, para tomar café e olhar o mar. o vento batia sempre mais forte e, na praia, os banhistas comiam gelados e gritavam às crianças. algumas senhoras distintas, vindas do Bombarral, das Caldas, de Torres Vedras, passeavam como pavões os fatos-de-banho demasiado garridos para este sol. corria o ano de mil novecentos e setenta e nove.

vinha em mangas de camisa pela estrada principal do povoado, dava os bons-dias aos meninos e às meninas que, de óculos de lentes escuras, tomavam o café da manhã. teria havido festa até de madrugada, talvez na garagem de alguma das casas senhoriais, talvez em Peniche, onde se misturavam filhos de pescadores e filhos de doutores, em noites de verão excitadíssimas em volta do Forte, como se quisessem exorcizar as memórias dos papás.

vinha em mangas de camisa pela estrada principal, sentava-se à mesa como o João Miguel e discutia a bola com os outros homens, enquanto ouviam, estrondosamente, o barulho dos matraquilhos. ao fim da tarde voltava a casa, no mesmo passo quieto e gordo, com um ou dois versos na cabeça, vindos das bocas dos outros. sentava-se no terraço, algum barulho de cozinhado lá de dentro de casa, e escrevia. corria o ano de mil novecentos e setenta e nove, um ano depois da sua morte.

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