terça-feira, 2 de maio de 2006

n

nunca, nunca nada de ninguém, e os olhos a chorar ar condicionado e as mensagens que chegam só pela metade e as palavras que te custam a descolar da garganta e os dedos que fogem debaixo das mesas e os olhares que se fecham porque está sol e os carros que buzinam atrás de ti e um coelho atropelado à beira da estrada e um parágrafo aparentemente sem sentido,

nunca, nunca nada de ninguém, e os pés esticados debaixo da mesa e o aspirador a engolir meias na sala e as marcas do teu bikini na minha memória e a tua semiologia dos meus textos e a maneira como tu dizes que me queres e o duche que tomo ainda todos os dias e a barba que deixei por fazer e pensar em ir passear de mão dada contigo e umas quantas coisas que me pesam nas costas e as asas que me crescem mesmo assim,

nunca, nunca, nunca de ninguém, e as cartas na caixa do correio e os olhos que me espreitam lá ao longe e as vozes que eu oiço que não são a tua e os lírios do campo e os sinais de fogo e a poesia completa da natália correia e a música do josé mário branco e as encomendas e os livros e as revistas e as mensagens e as brincadeiras e os olhos a chorar ar condicionado e este texto inteiro, escrito, para quê?

1 comentário: