sábado, 20 de maio de 2006

finis terrae

a areia magoava-te a face mas tu mantinhas o cigarro aceso entre os lábios. talvez seja por causa dos filmes, mas sempre te confundi com o fernando lopes, desconfio até que sejam a mesma pessoa. mas não, tu não foste da cidade como ele, nem do uísque, nem das putas. tu foste de ti mesmo, corpo de homem magoado pelas visões da infância, pelos cheiros da própria terra. a areia magoava-te a face, nunca te esquecias disso.

andavas pela beira da ria a ouvir os gemidos das pessoas mortas antes de ti. era uma história imensa, muitas vezes repetida, até a uma exaustão sem paralelo. desde pequeno que tentaste compreendê-las, escrevendo. mas a tua própria mão enganava-te e tu sabias. então usavas a ponta da caneta para riscar sobre as letras, tentar adivinhar-lhes outras formas de composição. fizeste a vida inteira o mesmo livro.

a areia magoava-te a face, mas era outra coisa (a alma?) que chorava. sobre o teu lado esquerdo trazias um coração maior que o peito, e uma forma só tua de ser apaixonado pela verdade, uma verdade que não se pode nunca ver com os olhos, só com os dedos muito próximos do papel, e os ouvidos muito lá longe num lugar onde talvez comece a natureza. tu mantinhas o cigarro aceso entre os lábios, disfarçando na face calma a inquietação.

2 comentários:

  1. Onde a terra acaba e a vida começa. Bravo!
    Beijo

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  2. «a areia magoava-te a face, mas era outra coisa (a alma?) que chorava. sobre o teu lado esquerdo trazias um coração maior que o peito, e uma forma só tua de ser apaixonado pela verdade» Muito intenso ó poeta. Gostei.

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