terça-feira, 2 de maio de 2006

duche

eu no duche, a água lava quase tudo, a olhar para o meu sexo recolhido, enquanto sinto a ligeira massagem dos líquidos sobre todo o meu corpo, os olhos que se vão fechando, os pés muito assentes na superfície escorregadia da banheira, eu, no duche, as mãos a espalharem sabonete pelo corpo, e a lucidez que me ataca sempre que é assim de manhã, sem nenhum carinho,

a repetir-me uma e outra vez a solidão, a repetir uma e outra vez esta vontade de não agir, não ir a lado nenhum, mesmo que noutras horas eu seja todo desejo, maquiavélico, o meu corpo e o meu sexo recolhido, no duche, são um acto de negação de mim para comigo, de todas as coisas, de todas as mulheres e todos os homens, de todo e qualquer acto de amor.

eu no duche, um pouco irreflectido, mastigo as palavras que não me saem da boca a estas horas da manhã, sinto os cabelos a colarem-se à minha testa com a força da água, sinto a falta que me faz um olhar quando sair do duche, mas eu, no duche, sou também a ferramenta que desfaz a compreensão dos dias, sou eu próprio o anjo anunciador da desgraçada, de tudo o que eu quero e

não vai acontecer nunca, nunca, porque eu não me vou permitir. eu, no duche, a pensar que toda e qualquer pessoa é só mais um sopro de vento na minha testa, que eu vou, com o passar da mão, limpar como se limpa o suor, enquanto nos meus dedos fica o gosto amargo das essências que eu expulso de mim, não como purificação, mas como ignóbil mistura de todos estes sentimentos.

2 comentários:

  1. A água lava quase tudo... o quase que fica é o medo.
    Beijinhos***

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  2. Que saiba vostede que o vou seguir lendo agora que o acabo de descubrir.
    Beijos.

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